≡ Language Options ≡ Menu

Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Castelo de Windsor - Foto: Mark S Jobling

Vista aérea do Castelo de Windsor. A primeira impressão é de um cenário para um conto de fadas. A imensidade do edifício, a maravilhosa variedade de suas partes, a delicadeza e a força que se afirmam em todas elas, tudo enfim sugere a sensação de que se está em presença de algo que supera de muito a realidade cotidiana. Este prédio, este fantástico conjunto de prédios é ao mesmo tempo, símbolo e escrínio de uma instituição: a realeza britânica.

Nesse símbolo – como em tantos outros da Inglaterra tradicional — as aparências ainda não trazem a marca do protestantismo, do liberalismo e do socialismo. O que nessas formas de granito se exprime é ainda o conceito medieval e católico da origem divina do poder público, da verdadeira majestade de que ele se deve cercar em qualquer regime político, e do cunho paternal que o deve caracterizar.

Cunho paternal, dizemos. Este castelo não visa exibir massa, mas talento; não foi feito para intimidar, mas para encantar; o súdito que o contempla não estremece à vista dele, não tem vontade de fugir, mas de entrar.

E isto por uma razão simples: o Rei é pai que chama afavelmente a si os súditos, e não carrasco que amedronta.

*   *   *

As relações entre grandes e pequenos são influenciadas por este ambiente. A nobreza do senhor se transmite a seu servidor. E a imensa cozinha de Windsor, muito autenticamente cozinha, é indiscutivelmente uma alta, nobre e digna cozinha de castelo, que comunica algo da dignidade real à humilde atividade servil, e lhe dá um esplendor como que régio.

Porque na civilização cristã a grandeza do senhor não humilha o servidor, mas o eleva.

(“Catolicismo” Nº 104 – Agosto de 1959 – AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES)

 

www.catolicismo.com.br


 

Share
{ 0 comments }

Sir Winston Churchill com Lady Clementine Hozier nas vésperas do casamento

Plinio Corrêa de Oliveira

Até a queda do gabinete Chamberlain, aos primeiros estampidos da Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill, sua personalidade e sua figura me eram mais ou menos indiferentes. Com efeito, na ótica do público brasileiro, o sucessor de Chamberlain até então se perdia na massa — aliás imponente — dos políticos ingleses de categoria. Porém, muito rapidamente as coisas mudaram. E o mundo percebeu que nas aflições em que se contorcia, o Reino Unido mais uma vez encontrara um grande homem que o levasse à vitória.

A ascensão de Churchill foi em linha reta, até o zênite. As mais diversas formas de inteligência, de tino político e de coragem nele se foram patenteando e refulgindo. E cada vez mais, à medida que iam exigindo as contingências da luta. Quando a guerra terminou, Churchill foi o mais famoso dos vencedores. A propaganda aliada apresentava-o freqüentemente ao lado dos outros dois — Roosevelt e Stalin — como que a querer nivelá-los. Mas o esforço foi inútil. E até contraproducente. Enquadrado entre o velho presidente ianque de olhar comum e de inexpressivo riso-padrão, de um lado, e do outro, o sinistro ditador soviético sob cujas sobrancelhas hirsutas faiscavam dois olhos ignaros a chispear ameaças, e sob cuja bigodeira farta e descuidada se delineavam lábios mais próprios para injuriar e beber do que para falar, a fisionomia superexpressiva de Churchill se destacava de um modo que quase se diria esplendoroso.

Para brilhar não basta obviamente ser muito expressivo. Cumpre ademais exprimir algo que valha. Fazia-o às catadupas o velho leão inglês. Em sua calva parecia reluzir um pensar diplomático vigoroso e subtil. Seus olhos — quanto haveria de dizer sobre eles! — exprimiam sucessivamente fascinantes profundidades de observação, reflexão, “humour” e gentileza aristocrática. Suas largas bochechas musculosas nada perderam do vigor, com a idade. Pareciam dois contrafortes faciais, a emoldurar vigorosamente a fisionomia tão altamente intelectualizada. E davam à face um não-sei-que de decidido, estável, quase se diria de perpétuo: símbolo expressivo da força multissecular da monarquia inglesa. Seus lábios, finos e de contorno incerto, pareciam acompanhar o movimento dos olhos e, pois, sempre prontos a se abrirem para uma ironia, uma palavra de ordem, um discurso monumental… ou um charuto.

Sinto que não estaria descrevendo Churchill por inteiro, se não lhe acrescentasse um traço. Membro autêntico da “gentry” inglesa, adornado — é bem este o termo — com o charme varonil de um aristocrata de alta classe, em Churchill coincidiam as rutilações da cultura universitária, do talento jornalístico, da oratória parlamentar e da glória militar, com, ademais, um não-sei-que de direto, positivo, desconcertantemente ativo, típico dos “businessmen” norte-americanos da “belle-époque”. É que sua mãe era uma ianque, filha de um estuante “self made man”.

Estavam todas essas impressões bem firmadas em meu espírito, como aliás no de todo o mundo, quando deparei pela primeira vez, no jornal, com uma fotografia de sua esposa. Comecei a analisá-la com interesse: quem seria a inglesa que o grande homem escolhera para a participação inteira de sua vida, e para ser como que a versão, em ponto feminino, dos mil predicados que nele afloravam. O papel não seria fácil para ela…

Conversando certa vez sobre Churchill com o arquiduque Otto de Habsburg, dele ouvi um lúcido comentário. Está na ordem das coisas — dizia ele — e até entre os vegetais, que de vez em quando apareçam, nesta ou naquela variedade, espécimes gigantescos. São fenômenos da natureza. Churchill foi um deles. Ora — e sou eu que passo agora a comentar novamente — se fica bem a um homem ser um gigantesco fenômeno da natureza, é difícil para uma mulher sê-lo também. O gigantismo não é compatível com o charme feminino.

Quando, pois, me pus a analisar com curiosidade a foto da esposa do “fenômeno da natureza”, perguntava-me se e como ela estava à altura do grande estadista. E bem antes de concluída, minha análise se transformara numa indiscutível admiração.

Grande de rosto e de porte com um não-sei-que de nobremente aquilino no olhar e no perfil, Lady Churchill reunia entretanto todas as graças genuinamente femininas. Sua educação aristocrática lhe comunicara um charme evidente. Sua imponência coexistia elegantemente com uma afabilidade atraente. Apesar de vistosa era sumamente discreta. E sabia ser inteligente sem em nada disputar a seu brilhante esposo os olhares do público. No equilíbrio de tantas qualidades quase opostas, tudo era “dégagé” e nada era “recherché”.

Nos quadros representando certos grandes homens do passado, os pintores se compraziam em realçar o personagem colocando perto dele, em segundo plano, alguma coluna com um belo jarro de flores. Ou alguma nobre cortina. Tal foi Lady Clementine Churchill: o fundo de quadro magnífico que realçava um esposo tão notável que parecia nada haver que o pudesse realçar.

Homenagem do Primeiro Ministro canadense a Lady Churchill, no Chateau Frontenac

Na semana que finda, li portanto com emoção a notícia de que falecera a baronesa Churchill (Elisabeth II lhe concedera este título após a morte do esposo).

Não posso ocultar, porém, que a essa emoção se associou um espanto rapidamente transformado em indignação.

A “Folha de S. Paulo” foi o jornal de nossa cidade que mais dados publicou sobre a vida de Lady Churchill. Realçou-lhe a perfeita união com o esposo, a íntima cooperação até na obra intelectual deste, e acabou por revelar que essa grande dama terminara sua vida na penúria, obrigada, para saldar seus modestos gastos, a vender até quadros pintados pelo falecido “premier”.

Assim é o Estado moderno. No início do século XVIII, John Churchill ganhou para a Inglaterra várias batalhas. Por isto, foi elevado a Duque de Malborough e dotado com os abundantes recursos que lhe permitiram construir o magnífico castelo de Blenheim, mansão até hoje de um de seus descendentes. No século XX, a glória de John Churchill foi superada por um inglês da estirpe dele, isto é, por Winston, que não fez nada mais nem menos do que salvar a Inglaterra. E sua esposa morre na penúria!

Estou pressentindo à distância algum leitor socialista que uiva: estamos na época da igualdade e da justiça social!

Não disponho de mais espaço para responder a esta objeção, modelo perfeito de tolice. Justiça é retribuir a cada qual segundo seus méritos. E não é retribuir igualmente a gênios e mediocridades, heróis e pusilânimes, homens beneméritos ou egoistarrões. E se a viúva de um operário tem o direito a uma pensão correspondente ao honesto trabalho prestado por seu marido, não vejo por onde a viúva de um homem genial e benemérito não tenha direito a um “status” correspondente ao serviço de seu esposo, que salvou a pátria.

Monumento à Passionaria. Foto Thomas Nugent

Mas estou persuadido de que meu argumento não modificará o modo de pensar de socialistas e comunistas. Em via de regra, eles acham justo que a Passionária, a fera do comunismo espanhol nos idos do “Alzamiento” esteja hoje gozando dos confortáveis subsídios de deputado às Cortes de seu país. No exercício de um mandato para o qual sua velhice não lhe dá força, sua cultura não lhe dá títulos, e seu passado não lhe dá direito. E acham justo também que uma das maiores damas de nosso século morra na penúria…

( “Folha de S. Paulo”, 19 de dezembro de 1977)

Share
{ 0 comments }

Bráulio de Aragão

Maria Antonieta sendo levada para execução

PARIS, 16 de Outubro de 1793. Silenciosa, a multidão aglomerava-se em frente à Conciergerie, local onde se encontrava encarcerada a Rainha Maria Antonieta. Os minutos pareciam longos. De súbito, ouviu-se a voz estridente de um oficial ordenando a abertura das grades de ferro da prisão. Todas as cabeças, todos os olhares então se voltaram para a carroça que conduziria ao patíbulo a soberana de França, que se tornara o alvo primordial das campanhas mais virulentas, articuladas pelos antros diretivos da Revolução Francesa.

 

“Durante este último passeio –– escreve Jean Chalon –– que segue o itinerário de seus triunfos esquecidos, ela não é mais uma rainha decaída: ela é a Rainha, a Solitária, a Única, a Rainha da infelicidade e da desolação. Já não pertence a este mundo e a seu nada. Entra na legenda, na qual para sempre, resplandecerá…” (1)

No infortúnio, nobreza e dignidade

Trinta mil soldados formavam um longo corredor de baionetas e canhões por onde passaria o lúgubre cortejo até a guilhotina. Vestida de branco, sentada no duro banco de madeira e com as mãos atadas às costas como vil criminosa, nem por isso Maria Antonieta perdeu a majestade. Até mesmo os revolucionários, como o célebre pintor David, ao lhe desenhar o perfil pouco antes de sua execução, não puderam impedir que a compostura e a dignidade da filha de Maria Teresa refulgisse naquele instante de suprema provação.

O desenho, feito nessa ocasião, revela uma fisionomia marcada pela dor, mas de uma resolução inquebrantável: olhos recolhidos, lábios serrados, postura eximiamente ereta, sem relaxamento, como se estivesse sentada numa poltrona do palácio de Versalhes.

Subindo ao cadafalso

Foi nessa ocasião que manifestou também a virtude da altivez cristã, quando retrucou ao padre juramentado –– a quem recusara confessar-se –– que a aconselhara a “se armar de coragem”: “Coragem, ah! Senhor, há diversos anos dedico-me à aprendizagem dela, não será no momento em que meus males vão terminar que me verão sentir falta da mesma”.(2)

Era meio dia quando a carreta que transportava a viúva de Luiz XVI chegou à praça da Revolução, o mesmo local onde seu marido fora executado, em 21 de janeiro de 1793.

“Maria Antonieta não tinha senão alguns instantes de vida. Ela receberá a morte como uma irmã bem amada em direção da qual se precipitou com leveza e prontidão. Na pressa, pisou sobre os pés do carrasco.

–– Senhor, peço-vos perdão, disse ela.

Execução a 16 de outubro de 1793

Perdão, será a última palavra que sairá de seus lábios… “Viva a República! gritou a multidão: era Sanson, o carrasco, que mostrava ao povo a cabeça de Maria Antonieta, enquanto embaixo da guilhotina o policial Mingauet embebia seu lenço no sangue da mártir”.(4)

Memória indelével

Assassinada quinze dias antes de completar seus 38 anos, Maria Antonieta no entanto continua viva na memória e no coração dos franceses.

Por ocasião do bicentenário da queda da Bastilha, em 1989, um canal de TV parisiense promoveu a representação do julgamento da rainha, tal qual descrevem os documentos históricos.

No final do programa, irradiado para toda a França, os telespectadores foram convidados a proferir a sentença. Ao contrário da Convenção revolucionária, que condenara à morte Luiz XVI e Maria Antonieta, 78% dos assistentes absolveram a rainha-mártir.

Um dos lances mais pungentes desse processo espúrio deu-se quando o promotor, Fouquier-Tinville, a acusou de ato incestuoso com seu filho. Diante de tamanha afronta, Maria Antonieta calou-se. Intimada a explicar seu silêncio, respondeu: “Calei-me porque a natureza se nega a responder semelhante calúnia feita contra uma mãe. Por isso, apelo a todas as mães aqui presentes…”(5)

Esta resposta comoveu até as viragos revolucionárias presentes no tribunal da Convenção, a ponto de provocar uma prolongada salva de palmas.

Parábola da História

Há certos crimes que, pela vítima atingida ou por serem carregados de simbolismo, ultrapassam o tempo e o cenário onde foram cometidos. Sem nenhuma proporção com os demais, encontra-se, no primeiro caso, o deicídio, a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Crime nefando que dividiu a História em duas partes. No segundo caso, bem se poderia evocar a decapitação de Maria Antonieta.

Maria Antonieta, aos 13 anos de idade, enquanto arquiduquesa de Áustria

Como nenhuma outra rainha, ela encarnou os valores do Antigo Regime execrados pela Revolução de 1789: “Son port de tête –– relata a baronesa d’Oberkirch –– la majesté de sa taille, l’élégance et la grâce de sa personne, …. tout en elle respirait la grandeur de sa race, la douceur et la noblesse de son âme; elle appelait tous les coeurs”. (Sua impostação de cabeça, a majestade de seu porte, a elegância e a graça de sua pessoa, tudo nela respirava a grandeza de sua raça, a doçura e a nobreza de sua alma; ela atraía todos os corações).(6)

Por isso, tornando-se uma expressiva representação da condição aristocrática, ela foi a vítima por excelência da Revolução vítima simbólica do que a fúria do tufão de 1789 engendrou de mais infame.

Confessou-o expressamente o repugnante Mirabeau –– nobre, traidor de sua classe social e transformado em tribuno da populaça –– já durante o desfile comemorativo da abertura dos Estados Gerais, em 5 de maio de 1789: ao ver a rainha desfilar, lançou a palavra-de-ordem para os revolucionários que o seguiam: “Voilà la victime!” (eis aí a vítima!).

Vítima de uma poderosa e bem orquestrada máquina de difamação e de calúnias, Maria Antonieta chegou ao pé do cadafalso com a consciência tranqüila de ter cumprido seus deveres de rainha e de mãe. Por isso, na manhã do dia de sua execução, pôde escrever em sua carta-testamento, dirigida a Madame Elisabeht, irmã de Luiz XVI: “Estou calma como se é quando a consciência nada acusa… Morro na religião católica, apostólica e romana, na de meus pais, na qual fui criada e a qual sempre professei… Peço sinceramente perdão a Deus de todas as faltas que posso ter cometido desde que existo. Espero que em sua bondade Ele quererá receber meus últimos desejos, assim como os que faço há muito tempo para que queira receber minha alma em sua misericórdia e sua bondade… Perdôo a todos meus inimigos o mal que me fizeram”.(7)

Entre o sonho e o pesadelo

A vida de Maria Antonieta Josefina Joana de Lorena d’Áustria começou como um sonho num palácio em Viena, e terminou como um pesadelo numa prisão de Paris. Os sinos que festejaram seu nascimento, a 2 de novembro de 1755, não tocaram em luto pela sua morte, pois todas as igrejas da França, durante o Terror de 1793, foram fechadas pelos revolucionários.

Entre o sonho e o pesadelo, transcorreram dias gloriosos como de um conto de fadas, e lúgubres como a invasão das Tulherias e a queda da Monarquia (1792), que prenunciaram uma catástrofe sem nome para toda a Europa.

Poucos historiadores conseguiram sintetizar em poucas linhas um juízo tão profundo sobre Maria Antonieta quanto o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “Há certas almas que só são grandes quando sobre elas sopram as rajadas do infortúnio. Maria Antonieta, que foi fútil como princesa e imperdoavelmente leviana na sua vida de rainha, perante o vagalhão de sangue e miséria que inundou a França, transformou-se de modo surpreendente. O historiador verifica assim, tomado de respeito, que da rainha surgiu uma mártir, da boneca uma heroína!”.(8)

Monumento a Maria Antonieta na Basilica de Sao Dinis em Paris. Foto de Sailko

_________________

NOTAS

I. Jean Chalon, Chère Marie-Antoinette, Perrin, Paris, 1988. p. 470.

2. Jean Chalon, op. cit., p. 469.

3. Jean Chalon, op. cit, p. 470.

4. Edmond et Jules de Goncourt, Marie Antoinette. Olivier Orbqn, Paris,1983, Op. 334.

5. Jean Chalon op. cit., p. 159.

6. Jean Chalon, op. cit, p. 30.

7. Edmod etJules de Goncourt, op. cit, p. 330.

8. Catolicismo, nº 463, julho de 1989.

Share
{ 0 comments }

Para se compreender inteiramente a presente obra de Plinio Corrêa de Oliveira, é necessário ter em vista as principais facetas da sua vida de homem público: escritor, homem de acção, mas, principalmente, pensador.

Pensador menos voltado para a mera especulação doutrinária do que para a análise do século no qual vive, dos problemas que atormentam a este e, conforme sejam as soluções dadas a tais problemas, dos rumos pelos quais está a ser conduzido o caudal da história humana.

Este caudal apresenta-se efervescente e tumultuário na nossa centúria, em grande parte contraditória e estranha. Com efeito, foi o seu início assinalado pelas alegrias e prazeres da Belle Époque e também pela magnificência da Exposição Universal de Paris, em 1900. Entretanto ruma ela agora para o seu termo final no meio de incertezas e apreensões, na previsão de acontecimentos que conduzirão talvez a um caos universal ou até a uma hecatombe atómica.

Podemos considerar, pois, sob este ponto de vista, duas fases bem distintas, no nosso século.

A primeira é francamente optimista. Nela os homens, herdeiros remotos do Século das Luzes, acreditavam no êxito indefinido de todos os seus esforços para o alto. O movimento geral dos povos, das instituições e dos costumes era impulsionado, habitualmente, por algumas convicções que constituem património do senso comum, mas que a antecedente era do Iluminismo considerara de modo hipertrofiado e exclusivista. Entre tais convicções, estava a de que a razão humana – como que infalível quando usada devidamente – era guia auto-suficiente para indicar no que consistia a felicidade terrena e quais os meios para obtê-la.

Além disso, o intelecto humano já acumulara um imponente conjunto de conhecimentos, das mais variadas ordens, próprio a assegurar no século XX, e mais ainda nos séculos vindouros, um grau de justiça, de bem-estar, de melhoria multiforme das condições de vida e, consequentemente, uma felicidade terrena perfeita.

Esta marcha ascensional era chamada progresso, e o conjunto de métodos de acção mediante os quais se operaria a gloriosa e intérmina ascensão do progresso chamava-se técnica.

Graças a esse progresso, a Humanidade encontrava-se num ápice de civilização jamais conhecido, no qual não se apresentavam os sintomas de ignorância, rudeza e crueldade, característicos de antigos tempos.

Como apoio potentíssimo do progresso, deveria o homem contar com a evolução: força imanente em todos os seres, ainda misteriosa, e que proporcionava uma ascensão contínua, cujo píncaro supremo era impossível alcançar.

Exemplo característico das ambiciosas esperanças suscitadas pela colaboração destes factores foi a deliberação, exarada em diversas disposições testamentárias deste século, segundo a qual o testador determinava que o seu cadáver fosse conservado intacto, em câmaras frigoríficas especiais, à espera de que, pela sua acção conjunta, a evolução e o progresso proporcionassem à razão o descobrimento dos meios para operar a ressurreição dos mortos…

É certo que, em meio século de júbilo universal, duas tragédias de grande envergadura haveriam de opor ao incondicionalismo de tantas esperanças um cruel desmentido: as guerras mundiais. Mas a força de impulso para a felicidade terrena absoluta era tão grande que, apenas terminadas as mesmas, a festiva atmosfera de júbilo haveria de retomar obstinadamente o seu curso.

Depois da conflagração mundial de 1914-1918 surgiu o alegre período denominado geralmente “entre deux guerres”, que só se interromperia com a nova guerra mundial de 1939-1945. E se bem que esta última, terminada de facto com as explosões atómicas de Hiroshima e Nagasaki, tivesse sido ainda mais universal, mortífera, devastadora e prolongada do que a primeira, o obstinado optimismo progressista haveria de retomar o seu curso.

Eis como a Constituição Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, descreveu as condições de vida em que lhe parecia ver imersa a sociedade contemporânea, e abriu os braços a esta, a fim de juntas participarem da alegria universal:

“Modificaram-se profundamente as condições de vida do homem moderno, do ponto de vista social e cultural, de tal modo que é lícito falar de uma idade nova da história humana. Por isso abrem-se novos caminhos para o aperfeiçoamento e a difusão mais ampla da cultura. …. As ciências chamadas exactas desenvolvem notavelmente o juízo crítico. Os recentes estudos psicológicos explicam mais profundamente a actividade humana. As disciplinas históricas contribuem muito para que a realidade seja observada sob o seu aspecto de mudança e evolução. Os hábitos e costumes de vida tornam-se cada dia mais uniformes. A industrialização, a urbanização e outras causas que promovem a vida comunitária, criam novas formas de cultura (cultura de massa), das quais surgem maneiras novas de sentir, e de agir e de utilizar o tempo livre. Ao mesmo tempo o crescente intercâmbio entre as várias nações e grupos sociais abre mais largamente os tesouros das diversas formas de cultura a todos e a cada um, e assim prepara-se aos poucos um tipo de civilização mais universal que tanto mais promove e exprime a unidade do género humano, quanto melhor respeita as particularidades das diversas culturas. ….

“Os teólogos, observados os métodos próprios e as exigências da ciência teológica, são convidados sem cessar a descobrir a maneira mais adaptada de comunicar a doutrina aos homens do seu tempo. ….

“Na pastoral sejam suficientemente conhecidos e usados não somente os princípios teológicos, mas também as descobertas das ciências profanas, sobretudo da psicologia e da sociologia. ….

“Os fiéis …. unam os conhecimentos das novas ciências e doutrinas e das últimas descobertas com a moral e os ensinamentos da doutrina cristã para que a cultura religiosa e a rectidão moral caminhem, junto dos mesmos homens, no mesmo passo do conhecimento das ciências e da técnica em progresso incessante” (Gaudium et Spes, 54 e 62).

Era este o modo pelo qual a grande maioria dos homens – modelados espiritual e culturalmente pela civilização ocidental – via o futuro. Desta visão participavam intelectuais de renome universal, estadistas e homens de acção da maior envergadura.

Mas… em que situação histórica não se esgueira um “mas”? Aos poucos o “paraíso” do progresso também ia fazendo descontentes.

Outros modos de ver, de sentir e de agir iam-se formando na penumbra e no silêncio paralelamente ao unanimismo optimista. Porém, enquanto para este se encontravam abertas, de par em par, as portas do mecanismo publicitário mundial, para aqueles os mass media não concediam de bom grado os seus espaços. Eles achavam-se reduzidos a subsistir nas nesgas da sociedade de então, dentro das quais o liberalismo reinante não encontrava pretexto para persegui-los.

Este pequeno mundo – mantido assim na obscuridade – constituído por um público heterogéneo e activo, era formado pelos elementos mais diversos.

Convém mencionar, antes de tudo, os que contestavam o valor da razão humana, questionando todo o edifício grandioso, mas prenhe de frustrações, da cultura e da civilização ocidentais.

No pensamento deles não era difícil discernir a influência dos filósofos germânicos, anteriores até à Revolução Francesa.

De Kant, por exemplo, para quem o conceito formado pela razão não seria exacto, mas influenciado por factores subjectivos que lhe falseariam a objectividade. Da crítica da razão e do conhecimento, resvalou ele para o subjectivismo e para um tal ou qual imanentismo. Nos seus seguidores – Fichte, Schelling, Hegel e outros – tal imanentismo foi desdobrado em teorias panteístas.

Era o antigo panteísmo, de origem hinduísta e budista, que se espraiara em largas extensões da Ásia e que despontava então na história do Ocidente.

Este subjectivismo e este panteísmo tomaram notas de pessimismo em Schopenhaeur e de desespero em Nietzsche. A apologia da angústia feita pelos pais do existencialismo moderno (Kierkgaard, Heidegger) não parece desligada destas tendências gerais.

Tal pensamento foi conquistando terreno em circunscritas mas altas esferas intelectuais europeias ao longo dos séculos XIX e XX.

A par disto, o “american way of life” – difundido universalmente por Hollywood e visto por incontáveis contemporâneos como o estilo de vida coerente, por excelência, com o triunfo conjunto da razão, do progresso e da evolução – começava a ser questionado com base nos inconvenientes do próprio sistema capitalista.

Realmente, o entusiasmo pela velocidade nas comunicações e nos transportes, pelo entrelaçamento de todas as esferas de actividade do homem com outras congéneres, em qualquer parte do mundo, trouxe como consequência um febricitar geral. Febricitar das mentalidades, das apetências, das sensações, das ambições, das actividades, dos business… dos delírios, que acabou por produzir tantos e tão variados distúrbios físicos e mentais, que se avolumam dia a dia e pressagiam a crise geral do Estado, da sociedade, da cultura e da família. Sobre esta crise não é necessário dissertar longamente pois salta aos olhos que desfechará numa crise global muito mais terrível: a crise do homem.

Outra classe de descontentes – aliás bem diversa – era formada por aqueles que foram contemporâneos da festiva aprovação da Constituição conciliar Gaudium et Spes, e testemunharam o nascer e o espraiar da gigantesca crise que começou a manifestar-se em toda a Igreja depois do encerramento do Concílio Vaticano II.

Crise que se agravou com o aparecimento da Teologia da Libertação, o alastrar-se de certo ecologismo e de certo sub-consumismo pauperista e pseudo-evangélico, o qual vê nas condições de vida tribais a organização perfeita da sociedade humana!

O presente que se ergue ante nós o cândido optimismo dos Padres Conciliares de 1965 não o previu.

Este cândido optimismo leva-me aos lábios um sorriso entristecido e reverente, o qual certos católicos estranharão, não compreendendo a fidelidade filial para com a Santa Igreja e o Papado que faz vibrar a minha alma no momento mesmo em que escrevo estas linhas.

Esta reverência leva-me a aceitar com todas as veras que o Divino Fundador da Igreja A queira regida por um Papa infalível, em todas as matérias e condições em que Ele o quis infalível. E falível em todas as matérias e condições em que Ele o quis falível, ou seja p. ex., na apreciação de circunstâncias concretas em que estejam envolvidos estes ou aqueles homens, estas ou aquelas situações.

* * *

O descontentamento que, nos bordos do triunfalismo festivo do pós-II Guerra Mundial e do pós-Concílio Vaticano II, se desenvolvia em obscuridades cada vez mais ténues, e numa proporção cada vez menos corpuscular, explodiu de repente em 1968. Deu-se isto na sublevação da Sorbonne, cujas sequelas abriram para o mundo horizontes de insensatez, de corrupção moral e de caos até então insuspeitados pela grande massa.

Pouco adiantou que um monumental protesto contra a rebelião da Sorbonne se realizasse nas ruas de Paris com a famosa caminhada de um milhão de pessoas, movidas pelo entusiasmo forte e sereno da idade madura. Ou que se levantassem em todos os quadrantes vozes de protesto, muitas das quais ressonantes do merecido prestígio de grandes personalidades.

Da sublevação da Sorbonne para cá registaram-se, em múltiplas esferas do pensar e do proceder humano, modificações sensíveis. Quase sempre, estas fizeram-se de maneira a tornar o mundo de 1992 consideravelmente mais semelhante às metas da revolução da Sorbonne.

O caos vai-se difundindo por toda a parte. E demonstrá-lo aqui seria supérfluo e impossível. Supérfluo, porque nos nossos dias só não percebe o caos quem foi cegado por ele e perdeu em consequência os meios de o ver. Impossível, porque o caos é tão geral que seria impraticável levantar no simples prefácio de um livro o rol de tudo o que ele faz, ou em que ele existe. Aliás, se a isto se dedicasse este prefácio, tornar-se-ia mais volumoso do que a obra que ele visa apresentar aos leitores.

*  *  *

O que até aqui expus não teve senão o objectivo de delinear, tão resumidamente quanto possível, o quadro geral da época em que Plinio Corrêa de Oliveira tem estendido a sua acção de pensador, de escritor, de mestre e de líder católico conservador, com renome universal.

Nasceu ele de duas notáveis estirpes brasileiras. Do lado paterno a nobre família Corrêa de Oliveira, de senhores de Engenho, em Pernambuco, descendente de heróis da guerra contra o herege holandês. Entre os membros desta, que tiveram destacada participação na vida pública, cabe especial realce ao Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, Senador vitalício do Império e membro, também vitalício, do Conselho de Estado. Conferiu-lhe verdadeira celebridade o facto de, como Primeiro-Ministro, haver promulgado, com minha bisavó a Princesa Isabel – na ocasião Regente do Império – a Lei de libertação dos escravos, cognominada “Lei Áurea”, de 13 de Maio de 1888. Proclamada a república por um golpe militar em 1889, João Alfredo presidiu por longos anos, como pessoa de confiança da Princesa “Redentora”, então exilada em França, o Directório Monárquico. Este homem de Estado – um dos mais célebres do Brasil – teve por irmão o senhor do engenho de Uruaé, Leodegário Corrêa de Oliveira, do qual é neto o autor do presente livro.

Sua mãe, Lucília Ribeiro dos Santos, pertencia à tradicional classe dos paulistas ditos de “quatrocentos anos” – isto é provenientes dos fundadores ou primeiros moradores da cidade de São Paulo –, contando-se, entre os seus ascendentes, vários famosos bandeirantes. Entre os antepassados maternos de Plinio Corrêa de Oliveira destacou-se, durante o reinado do Imperador D. Pedro II, o Professor Gabriel José Rodrigues dos Santos, catedrático da já então famosa Faculdade de Direito de São Paulo, advogado, orador de grandes dotes e deputado, primeiramente a nível provincial e mais tarde a nível nacional. Nestas funções, logo adquiriu ele merecido realce. A morte arrebatou-o prematuramente.

Numa e noutra família, os debates ideológicos que marcaram o Império (1822-1889) e as primeiras décadas da República (1889-1930) ecoaram profundamente, produzindo as divisões bem conhecidas: no campo religioso, uns mantinham-se firmemente fiéis à Religião católica, e outros aderiam ao positivismo, o último grito da moda ideológica daqueles tempos. Em matéria política, uns permaneciam fiéis ao regime extinto, enquanto outros aderiam à República, em cujas lides políticas tomaram parte saliente.

Plinio Corrêa de Oliveira presenciou no ambiente familiar esse entrechoque de opiniões, o qual, à maneira brasileira, era habitualmente enfático e ao mesmo tempo cordial.

Nestas importantes matérias foi ele tomando posição, modelada segundo a inocência e a piedade do seu espírito ainda infantil mas já notavelmente precoce e lúcido. Esta posição haveria de ser confirmada ao longo dos anos pela reflexão, pela análise imparcial dos factos, e pelo estudo, ao qual se afeiçoou desde cedo, com preferência marcada pelos temas históricos.

Foi nesta linha de pensamento – ao mesmo tempo como católico praticante e desassombrado, e como monarquista declarado – que Plinio Corrêa de Oliveira se tornou um dos líderes mais em vista, nos meios académicos do seu tempo.

Não é minha intenção acrescentar aqui dados biográficos concernentes a este notável brasileiro. Já figuram eles, com merecido destaque, noutra parte do presente volume. Tenho em vista, isto sim, analisar o sentido profundo da sua obra intelectual, que pode ser estudada nos livros de que é autor, e nos numerosos artigos de imprensa que tem escrito.

Sempre houve no Brasil, ao longo da trajectória de Plinio Corrêa de Oliveira, católicos e monárquicos. Os primeiros, crescendo em número e fervor, até que o progressismo veio abrir entre eles inevitáveis divisões, estrepitosas polémicas, e a consequente dispersão e minguamento de forças.

Os monárquicos, pelo contrário – com a sua liberdade de pensamento e de acção tiranicamente suprimida pelo decreto nº 85-A, de 23 de Dezembro de 1889, confirmado pelo artº 90 da primeira Constituição republicana de 1891 (a “cláusula pétrea”) e pelas diversas Constituições que se lhe seguiram ao longo da agitada vida do novo regime -, foram decrescendo em número até que, em 1988, a 6ª Constituição republicana suprimiu a malfadada “cláusula pétrea”, reconhecendo finalmente aos monárquicos uma liberdade política que a República a ninguém negava, nem sequer aos comunistas!

Desde então, produziu-se um fenómeno ideológico e político inesperado para muitos brasileiros. Ou seja, nos mais diversos Estados, em todas as classes sociais, foram despontando monárquicos, os quais – reunidos em valorosos agrupamentos, como o Conselho Pró-Brasil Monárquico, os Círculos Monárquicos, a Acção Monárquica Feminina e a Juventude Monárquica do Brasil, intimamente ligados a mim como legítimo sucessor de D. Pedro II – progridem notoriamente na acção pacífica mas denodada que conduzo com a brilhante e eficiente ajuda do Príncipe Dom Bertrand, meu irmão e eventual sucessor.

Estes monárquicos têm os olhos admirativamente voltados para o intrépido líder anticomunista, Plinio Corrêa de Oliveira, o qual soube ser, como intelectual, um monárquico declarado, mesmo no período em que mais dura foi o que poderia chamar a recessão monárquica. E cujo pensamento fornece à polémica monárquica – tradicionalista por essência – um manancial intelectual precioso.

Admiradores e amigos da monarquia também se encontram em considerável número na Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade – TFP, a maior organização anticomunista de inspiração católica dos dias de hoje, fundada por Plinio Corrêa de Oliveira, e da qual meu irmão Dom Bertrand e eu fazemos parte, desde a primeira juventude, com merecido entusiasmo.

Entre os católicos que se intitulam de esquerda e entre os adversários da tradição dos mais variados matizes – desde os socialistas moderados até aos comunistas radicais e aos “ecologistas”, no sentido militantemente político do termo, sem omitir certos centristas que na realidade não são senão adeptos camuflados do socialismo – Plinio Corrêa de Oliveira é um alvo continuamente visado.

Por outro lado, é ele reconhecido como um líder incontestado dos católicos que tomam no plano estritamente filosófico e cultural uma posição, a qual, por analogia, é conhecida como de direita católica.

*  *  *

Até hoje, a obra mestra de Plinio Corrêa de Oliveira é Revolução e Contra-Revolução. Estou persuadido de que ao lado desta inscrever-se-á no conceito geral Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana.

Revolução e Contra-Revolução, publicada em 1959, tem contado sucessivas edições em vários países da Europa e das Américas. Constitui ela o livro de cabeceira de todos os sócios e cooperadores das TFPs e Bureaux-TFP em 24 países dos cinco continentes.

Essa obra é uma análise teológica, filosófica e sociológica da crise do Ocidente, desde a sua génese no século XIV até aos nossos dias. O essencial do pensamento de Revolução e Contra-Revolução – a R-CR, como muitos a chamam por abreviação –  consiste em que o esmorecimento religioso e a decadência dos costumes característicos daquele século difundiram na Europa uma sede imoderada dos prazeres da vida, e portanto uma gravíssima crise de carácter moral, que afectou a fundo o Humanismo e a Renascença. Pela sua natureza, ela constituía muito mais uma crise nas tendências, do que nas convicções doutrinárias. Porém não haveria de tardar que se alastrasse também ao campo intelectual, dada a fundamental unidade do homem.

A crise moral conduz próxima ou remotamente a uma oposição a toda a lei e a todo o freio. Esta oposição, de início, pode não ser senão uma antipatia. Porém, sugere a tendência a levantar objecções de carácter doutrinário – ora mais radicais, ora menos – contra o próprio facto de existirem autoridades às quais incumbe, pela mesma natureza das coisas, a repressão das várias formas de mal. Daí haver nos espíritos predispostos a isso pelas más tendências uma oposição também doutrinária a toda a lei e a todo o freio. O termo final deste processo é a anarquia nos factos e a anarquia nas doutrinas.

Está assim descrito o liberalismo iluminista, cuja expressão última e mais radical é o anarquismo. E é na anarquia que vai afundando o mundo contemporâneo.

O aparecimento do liberalismo, que qualificaria de “anarcogénico”, traz consigo outro fruto, que é a oposição a todas as desigualdades. O liberalismo é igualitário. Onde se rejeita com indignada ênfase toda e qualquer autoridade, é-se igualmente oposto a toda e qualquer desigualdade. Pois qualquer superioridade, seja qual for o campo em que se manifeste, constitui algum género de poder ou de influência directiva de quem é mais sobre quem é menos. Daí o igualitarismo, cuja última consequência consiste em reforçar o anarquismo.

Por fim, o aniquilamento de qualquer distinção entre verdade e erro, bem e mal, cria a ilusão de reforçar a paz entre os homens, pela interpenetração, pelo nivelamento de todas as religiões, todas as filosofias, todas as escolas de pensamento e de cultura. Tudo equivale a tudo: modo indirecto de dizer que tudo é nada. É o caos implantado nas raízes mais profundas do pensamento humano, portanto a desordem mais completa no existir do homem.

Isto que poderia ser qualificado como uma genealogia de erros e de catástrofes – “abyssus abyssum invocat” – não se faz ver apenas no terreno especulativo, mas também no dos factos.

Mostra a R-CR que este processo libertário, igualitário e “fraterno” – pois é sob o pretexto da fraternidade que se realiza nos nossos dias o festival mundial do ecumenismo em todos os campos e matérias – teve a sua primeira explosão na apocalíptica revolução protestante, que negou a autoridade suprema e universal dos Papas; em várias das suas seitas negou ela também a autoridade dos Bispos, e noutras mais radicais a autoridade dos presbíteros; e proclamou o princípio perfeitamente anárquico do livre exame.

Passando da esfera religiosa para a política, vê-se que este mesmo pensamento esteve na própria raiz da Revolução Francesa, a qual visou modelar o Estado e a sociedade conforme os princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, inerentes ao protestantismo. Ela negou o rei, como o protestantismo havia negado o Papa; negou a nobreza, como certas seitas protestantes diminuíram fortemente os poderes do clero (o qual é a nobreza da Igreja) e outras até o eliminaram completamente; e proclamou, em nome do livre pensamento, o princípio da soberania popular, como o Protestantismo proclamara o princípio do livre exame.

Os revolucionários de 1789 só deixaram de pé a propriedade privada, com o consequente senhorio do proprietário sobre quem para ele trabalha e, por analogia, do intelectual sobre o trabalhador manual. Mesmo assim, nos seus derradeiros estertores, pela pena do comunista Babeuf, a Revolução Francesa chegou a negar até estas últimas desigualdades residuais.

Por sua vez, em 1848, Marx proclamou a igualdade sócio-económica completa e Lenine aplicou-a na Rússia a partir de 1917.

Três revoluções, três hecatombes, cada uma gerada pela outra, têm como resultado, neste final de milénio, a 4ª Revolução, auto-gestionária e tribal, como afirma Plinio Corrêa de Oliveira nas mais recentes edições de Revolução e Contra-Revolução.

Livro para cuja edição francesa de 1960 o meu falecido pai, o Príncipe Dom Pedro Henrique, elaborou um substancioso e belo prefácio, precisamente no sentido que acabo de enunciar, e que faz ver o feitio intelectual da obra de Plinio Corrêa de Oliveira.

Foi a R-CR visivelmente escrita para alertar a burguesia do Ocidente, cuja vigilância adormecera nos prazeres e nos negócios, para o risco supremo em direcção ao qual caminhava. Não era apenas um livro especulativo, mas também uma denúncia, feita com a esperança de que dela nascesse um movimento, e desse movimento um contra-ataque. A fundação da TFP no Brasil, o seu espraiar-se pelo vasto território do meu país e a propagação dos seus ideais pelos cinco continentes são o fruto obtido pela acção pessoal e concreta deste pensador que, na ordem da acção, actuava e actua no âmago da realidade contemporânea.

Ora, Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza Romana tem precisamente este carácter de uma obra de pensamento destinada a influenciar, em profundidade, os factos.

*  *  *

Como um rochedo na ponta de um promontório batido pelas ondas, a nobreza tem sofrido, a partir da Revolução Francesa, sucessivos ataques. Quase por toda a parte, tiraram-lhe o poder político. Em geral as leis negam-lhe qualquer direito específico, que não seja o mero uso da titulatura e do nome tradicionais. O movimento geral da economia e das finanças fez convergir para outras mãos a riqueza torrencial que ergueu ao pináculo o capitalismo e com a qual a jet set procura deitar as suas luzes – ou antes fazer brilhar as suas lantejoulas – por toda a parte.

O que, então, da nobreza sobrevive? Reduzida ao que é, tem ela o direito de existir? Com que proveito para si mesma e para o bem comum? Deve ela confinar-se irredutivelmente ao círculo dos “bem-nascidos”? Ou, a perdurar a nobreza, deve a qualidade nobiliárquica estender-se também a novas elites com características análogas às dela se bem que não idênticas?

Plinio Corrêa de Oliveira, cujo espírito é marcado por uma coerência modelar, vê na nobreza um desses rochedos imóveis sem cuja resistência épica, às vezes até trágica, aos vagalhões das três Revoluções, as terras do promontório – isto é, as civilizações e culturas – teriam perdido a sua coesão e se teriam dissolvido nas ondas revoltas.

Não é raro encontrar membros da nobreza conscientes dos deveres individuais que a sua condição de nobre lhes acarreta – como o bom exemplo às demais classes, pelo procedimento moral irrepreensível ou pela assistência aos desvalidos – mas os quais não possuem sobre as questões acima enumeradas, senão noções vagas, quando tanto.

Aliás, facto análogo ocorre com as outras classes. Antes de tudo com a mais favorecida delas na estrutura social vigente, isto é, a burguesia. O direito de propriedade é o seu mais firme ponto de apoio, porém são raros os burgueses conhecedores dos fundamentos morais e religiosos da propriedade privada, dos direitos que esta proporciona e dos encargos que traz consigo.

A ambas estas classes a obra de Plinio Corrêa de Oliveira proporciona proveito inestimável, publicando o texto integral das alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana, acrescentando-lhes comentários explicativos e exemplos históricos muito eloquentes.

Plinio Corrêa de Oliveira, profundamente imbuído dos princípios ensinados pelos Pontífices, é totalmente oposto ao espírito da luta de classes.

Ele não vê na linha demarcatória entre nobreza e povo uma zona de conflito. Muito pelo contrário, mostra-nos a nobreza histórica, militar e agrícola como alto e puro cume da organização social, não, porém, como um cume inacessível. Apenas como um píncaro habitualmente difícil de alcançar, por estar na natureza das coisas que tal ascensão só se obtenha pelo mérito.

Para Plinio Corrêa de Oliveira, a perspectiva de uma árdua ascensão do elemento burguês para a condição de nobre deve ser vista como um convite amigo para que adquira méritos e obtenha para estes uma glorificação autêntica. Mais ainda. Na nossa época, na qual uma profunda penetração da técnica no trabalho manual e um nível não subestimável de instrução na classe operária a matiza com tantas diferenciações, há muitas possibilidades de promoção social e profissional meritórias, que seria injusto não levar em conta.

Amigo da hierarquia harmoniosa e equilibrada em todos os domínios do agir humano, Plinio Corrêa de Oliveira expende, por uma lúcida interpretação, os princípios de Pio XII a todas as classes sociais, sem fundi-las e menos ainda sem confundi-las umas com as outras.

Mas é fácil perceber que os seus melhores desvelos voltam-se especialmente para os dois extremos da hierarquia social, de onde os seus brilhantes comentários sobre opção preferencial pelos nobres e opção preferencial pelos pobres.

No que me diz respeito, participo de coração dessa dupla opção, fácil de notar e ser notada no espírito e na obra de vários monarcas da Casa de Bragança, em Portugal e no Brasil. Neste livro – baseado nas alocuções Pontifícias que ele reproduz e comenta – a atenção do autor volta-se especialmente para a opção preferencial pelos nobres, sem qualquer prejuízo da opção preferencial pelos pobres.

É missão especial da nobreza actuar em defesa dos reis, quer eles estejam de posse do poder, na plenitude das respectivas prerrogativas, quer tenham apenas “de jure” aquele poder que lhes veio dos seus maiores e que nenhum golpe de força ou de demagogia pode legitimamente suprimir.

Reciprocamente é obrigação dos monarcas amar, respeitar e apoiar a sua nobreza, exercendo assim a favor dela uma opção preferencial efectiva, que não se limita apenas a mesuras e cortesias. É neste espírito que, ao encerrar estas linhas, volto o meu pensamento, cheio de amizade, para as nobrezas e elites análogas de Portugal – terra dilecta e gloriosa dos meus antepassados – e do meu querido Brasil, grande por tantos feitos e sobretudo por tantas esperanças que a Providência lhe deixa ver para o futuro.

Esse futuro que – nos quadros da realeza constitucional, única forma de monarquia concebível para os dias que correm – do fundo da alma, anseio cristão, forte e entrelaçado numa como que Commonwealth toda ideal, feita de Fé católica, de sentimentos e de cultura, constituída por todos os povos, de tão diversas raças e nações, que amam deveras Portugal e falam português.

Por isto, como Chefe do ramo brasileiro da Casa de Bragança e amigo enlevado e afectuoso da tradição e cultura lusas, tenho a satisfação de apresentar e recomendar largamente, ao público português, a leitura deste livro de Plinio Corrêa de Oliveira. Auguro para ele o aplauso de quantos sabem e sentem o que é uma verdadeira nobreza, que ajude o povo a ser sempre o que Pio XII recomenda, isto é, um verdadeiro povo animado por um pensamento digno de ser chamado cristão. E que não capitule ante o risco de se tornar uma massa anorgânica e inerte, soprada nas mais variadas direcções pela psico-ditadura dos grandes cartéis publicitários.

 

São Paulo, 25 de março de 1993

Luíz de Orleans e Bragança

 

Share
{ 0 comments }