≡ Language Options ≡ Menu

Renato Murta de Vasconcelos
Especial para Catolicismo

Frankfurt — Fotos ou quadros da Catedral de Colônia tornaram-se conhecidíssimos em todo o mundo. Imponente, com suas duas torres elevando-se a quase 160 m do solo, ela é uma jóia da arte gótica medieval às margens do Reno.

Oppidum Ubiorum: Esse era o nome do florescente núcleo urbano estabelecido pelos romanos, no ano 38 a.C., ao norte das fronteiras de seu Império em terras germânicas. Quase um século mais tarde, em 50 d.C., o núcleo tomou o nome de Colônia Agripina, em homenagem à esposa do Imperador Cláudio, mãe de Nero.

Com a conversão dos bárbaros ao cristianismo, surgiram nessa cidade, ao longo dos séculos, grandes varões reputados por sua ciência ou santidade de vida, a ponto de Colônia haver sido qualificada de a cidade santa junto ao Reno, ou a Roma do Norte, devido ao grande número de suas igrejas. Por sua importância, tornou-se sede episcopal e, séculos mais tarde, seus Arcebispos tornaram-se Príncipes-Eleitores do Sacro Império Romano Alemão.

Relíquias dos Reis Magos

Interior da imponente catedral de Colônia, escrínio para os Reis Magos. Foto Mkill

Em meados do século XII, o Imperador Frederico Barba-roxa invadiu Milão e apoderou-se das relíquias dos Reis Magos, que se encontravam na igreja de Santo Eustórgio, dessa cidade, desde o início do século VI. E o então Arcebispo de Colônia, Rainald von Dassel, encarregou-se de fazer o traslado para a Roma do Norte. No dia 23 de julho de 1164, ao som dos carrilhões das igrejas, o Arcebispo Rainald entrava na antiga catedral conduzindo as veneráveis relíquias. Para guardá-las e servir-lhes de escrínio, planejou-se a confecção de um grande relicário de ouro e pedras preciosas, trazendo no frontispício a cena da adoração dos três Reis Magos1.

Esse relicário, começado por Nikolaus von Verdun em 1181 e terminado por seus discípulos em 1220, constitui — juntamente com o relicário que guarda os restos mortais de Carlos Magno — um dos pontos altos da ourivesaria medieval.

A mais alta torre
Contudo, a piedade popular queria mais. Era preciso um relicário ainda maior, no qual a pedra rendilhada e o vitral multicolorido protegessem e envolvessem de esplendor o escrínio de ouro e de pedras preciosas. Planejou-se então uma imensa catedral, a maior do mundo, cuja pedra fundamental foi lançada pelo Arcebispo Konrad von Hochstaden em 1248, no lugar da antiga catedral erigida no século IX.

 

Colônia tornou-se, já a partir de fins do século XIII, grande centro de peregrinações: juntamente com Roma e Santiago de Compostela, constituiu um dos três maiores locais de peregrinações da Idade Média. E isso durou até fins do século XVIII, como constata Goethe em sua famosa obra Italienische Reise (Viagem à Itália).

Contudo, a construção não foi concluída no século XIII. Embora Colônia fosse uma cidade rica, as torres só ficaram prontas em 15 de outubro de1880, sob o reinado de Guilherme I da Prússia. A Catedral de Colônia era então o edifício mais alto do mundo. Majestosa, altaneira, ela sobrepujava também as demais catedrais pela extensão de sua fachada.

Sólido escrínio dos veneráveis restos daqueles três varões que tiveram o privilégio de estar entre os primeiros a adorarem o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores! Em sua grandeza monumental, desafiando o destrutivo dente do tempo, à famosa catedral bem se poderiam aplicar as palavras de Cícero: “Alios ego vidi ventos; alias prospexi animo procellas”2 (Eu vi outros ventos e contemplei outras tempestades).

O ódio revolucionário
Contra esse estupendo monumento de fé e de piedade, no qual se refletem os melhores lados da alma alemã, voltou-se ao longo dos tempos o ódio dos ímpios, ateus e revolucionários de toda espécie.

Em fins da primeira metade do século XIX, quem melhor representou tal ódio foi Heinrich Heine, em sua época um expoente do pensamento ateu e republicano de tintas comunistas. Amigo de Marx e exilado na França por causa de seus escritos incendiários, Heine conseguiu, após 13 anos de exílio, autorização para retornar a seu país. As impressões de seu reencontro com o solo pátrio após tão longo tempo, ele as consignou em sua famosa sátira Deutschland, ein Wintermärchen (Alemanha, um conto de inverno). Escrita em verso, a obra, considerada um texto clássico da literatura alemã, é objeto de acurado estudo em colégios e liceus. Ou em cursos de literatura alemã para estudantes estrangeiros.

Heine escreve que, dirigindo-se a Hamburgo, onde reviu sua mãe, chega a Colônia e contempla com olhar de ódio a vetusta catedral, símbolo do “fanatismo” e da “superstição”. Não estavam longe os ecos dos impropérios da Revolução Francesa contra a Igreja…

Heinrich Heine, revolucionário cristianofóbico

Horror demoníaco à Catedral
Heine hospeda-se próximo à Catedral, e durante a noite sonha de modo estranho. Ele se vê penetrando no templo, acompanhado de um “espírito familiar, à maneira do `petit homme rouge’ (o pequeno homem vermelho) que acompanhava Napoleão por todas as partes”. Na obscuridade do templo, um ponto luminoso o atrai. Ele aproxima-se do escrínio de ouro, onde repousam os três Reis: Gaspar, Baltazar e Melquior. Ali estão concentrados, a seu ver, quase dois milênios de “obscurantismo”, inconcebível depois do “século das luzes”. Desprezando sarcasticamente a morte, a realeza e a santidade, ele faz um sinal ao “executor de suas vontades” (o tal “espírito familiar”), o qual, brandindo então uma pesada maça de ferro, quebra, espandonga, reduz a pó aquilo que ele chama de “restos da superstição”. Satisfeito com seu vandalismo ímpio, Heine acorda.

Fora apenas um sonho, é verdade. Mas quão expressivo de seus mais íntimos sentimentos. Ele desejava que as torres da Catedral jamais fossem concluídas, e que o velho edifício se transformasse, no futuro, em estrebaria para os cavalos das tropas da Revolução3.

Em séculos anteriores ao de Heine, houve também inimigos da Igreja que quiseram transformar templos católicos em estábulos. Essa foi, aliás, a ameaça de chefes muçulmanos que, tanto às vésperas da batalha de Lepanto, em 1571, quanto durante o cerco de Viena, em 1683, manifestaram sua intenção de entrar na Basílica de São Pedro a cavalo.

O sonho de Heine exprime bem o grau de intensidade do ódio que os revolucionários votam não só a relíquias veneráveis, mas também e sobretudo a instituições e valores da Civilização Cristã, mesmo a edifícios.

O Islã e o sonho de Heine
Esse ímpio escritor alemão morreu há mais de 150 anos. Desapareceu com ele esse ódio? Não, evidentemente. Ele continua vivo. Talvez até mais virulento em sua latência. E só espera a primeira ocasião favorável para mostrar sua face hedionda, seja pela violência, seja pela lenta corrosão empreendida pela Revolução cultural. Exemplo típico dessa corrosão é a atual tentativa de transformar a cidade de Colônia na capital homossexual da Alemanha!

Tem-se falado muito aqui que a Europa — e em particular a Alemanha — encontra-se na alça de mira de terroristas islâmicos. E que não seria surpresa alguma se, de um momento para outro, ocorresse algum grave e pavoroso atentado terrorista.

Não seria a magnífica Catedral de Colônia — com suas veneráveis relíquias e suas esplendorosas obras de arte — alvo preferencial? Um ataque terrorista contra Colônia atingiria de cheio o coração da Alemanha católica. Que os três Reis Magos protejam nossa Catedral!

Notas:

1.Em 1903, o relicário foi aberto e dele retiradas três porções das relíquias dos Reis Magos. Constatou-se então que se conservam ainda tanto o crânio como quase todos os demais ossos.

2.Cícero, Familiares, 12, 25, 5.

3.Heinrich Heine, Deutschland, ein Wintermärchen, Insel Verlag, Frankfurt, 1993, pp. 31-34.

 

Revista Catolicismo – Janeiro de 2003

www.catolicismo.com.br

Share
{ 0 comments }

Imperatriz Dona Tereza Cristina

Nos 46 anos que viveu entre nós, realizou Dona Teresa Cristina, a terceira Imperatriz, o perfeito protótipo de virtudes cristãs, pelo que lhe coube esse título de “mãe dos brasileiros”, no consenso unânime dos corações.

Durante a viagem que nos trouxe a Imperatriz Teresa Cristina, adoeceu um oficial de um dos navios brasileiros. A Imperatriz exigiu então que lhe informassem minuciosamente sobre a marcha da moléstia. E quando soube que o estado do distinto oficial era cada vez pior, mandou que parassem os navios e, em alto mar, deixando a capitânea, foi para bordo do navio onde estava o doente, a fim de ministrar-lhe seus cuidados. Ficou junto à cabeceira do oficial até que ele expirasse. Desde esse instante verificaram os membros da comitiva imperial quão grande era o coração da nova Imperatriz.
A 3 de setembro de 1843, chegava ao Rio a esquadra que nos trouxe de Nápoles a Imperatriz Teresa Cristina, e no dia seguinte ela desembarcava com o Imperador, que havia ido recebê-la no navio.
As qualidades excelsas de Dona Teresa Cristina sintetizam-se no cognome que lhe ficou, de mãe dos brasileiros, e resume-se na frase com que Benjamin Mossé encerra a notícia da sua chegada aqui: Desde esse dia a caridade se assenta no trono do Brasil.

Referindo-se a D. Pedro II e Dona Teresa Cristina, Machado de Assis conclui uma poesia com estes versos:
“Bem-vindo! diz-te o povo, e a frase poderosa
É como que fervente e tríplice ovação;
— Ouve-a tu, que possuis um anjo por esposa,
Por mãe a liberdade, e um povo por irmão!”

Para que a auréola de sua esposa não fosse trocada pela coroa de espinhos, D. Pedro II aconselhou-a, com prudência e sabedoria, a limitar-se à sua dupla missão de esposa e mãe, e que nunca atendesse a pedidos de favores de quem quer que fosse, pois para cada pretendente servido haveria dúzias e centenas de pretensões malogradas.
A Imperatriz assim fez. Sempre que se atreviam a importuná-la com pedidos, dizia:
— Isso é lá com o Imperador.

Dona Teresa Cristina rapidamente se adaptou ao novo ambiente. Seu completo alheiamento em relação à política, sua generosidade para com os necessitados, seu sorriso terno e o trato sempre amável ganharam a admiração do povo. Ela se tornou a “mãe dos brasileiros”, e a mulher mais popular e mais respeitada em todo o Império.

A visita de D. Pedro II a Jerusalém, em 1876, foi um dos marcantes acontecimentos locais da época. Para só citar um exemplo, basta dizer que a Imperatriz Dona Teresa Cristina, conforme sublinham as crônicas, foi a primeira imperatriz, depois de Santa Helena, mãe do Imperador Constantino, que pisou naquelas terras tão caras aos cristãos.

Durante a estada de D. Pedro II em Paris, Dona Teresa Cristina dava recepções no salão do Grande Hotel. Enquanto ela recebia as senhoras, o Imperador ficava quase sempre num salão vizinho, com algumas personalidades das ciências e das letras, que Gobineau lhe apresentava. Se alguém perguntava pelo Imperador, ela respondia:
— Está com os doutores.
O Príncipe de Joinville, casado com Da. Francisca, irmã do Imperador, brincava com a esposa:
— Diga-me uma coisa, Chica: se você me tivesse perdido, iria procurar-me entre os doutores?
— Eu te procuraria por toda a parte – respondia a Princesa, sorrindo.

Imperador Dom Pedro II com a Imperatriz e as Princesas Da. Isabel e Da. Leopoldina

Da Imperatriz Teresa Cristina, nada há de mal a dizer

A República brasileira fez uma grande vitima: a Imperatriz.

Ao tempo da proclamação da República, muito se havia zombado do Império, escarnecido o seu pessoal, envilecido o seu princípio essencial, infamado o Imperador nas pessoas dos seus antepassados. Não era possível fazê-lo nas pessoas da sua esposa e das suas filhas, cuja compostura e virtudes exigiam uma veneração à qual só um louco se poderia esquivar.
D. Teresa Cristina era respeitada por todos os partidos e pelos jornais de todos os matizes. Era extremamente caridosa. Quando teve de partir para o exílio, ficou desolada por não mais poder socorrer grande número de famílias desprotegidas da sorte, que tinham sempre dela o apoio moral e financeiro. Que iria acontecer a essa pobre gente? O Governo Provisório comprometeu-se a não abandonar os pobres mantidos pela bolsa particular do casal imperial.

No angustioso momento da partida para o exílio, a Imperatriz chorava convulsamente. O Barão de Jaceguai a aconselhou:
— Resignação, minha senhora.
— Tenho-a, e muito. Mas a resignação não impede as lágrimas. E como deixar de vertê-las, ao sair desta minha terra que nunca mais hei  de ver?

No dia 28 de dezembro de 1889, 40 dias após o banimento da Família Imperial da nossa Pátria, morreu em um hotel de Lisboa a Imperatriz Teresa Cristina. Nos seus últimos instantes de vida, confidenciou à Baronesa de Japurá:
— Maria Isabel, eu não morro de doença. Morro de dor e de desgosto.

O historiador Max Fleiuss afirma: “Costuma-se dizer que o dia 15 de novembro foi uma revolução incruenta, feita com flores. Houve, porém, pelo menos uma vítima: a Imperatriz”.

Os jornais europeus comentaram a morte da Imperatriz. “Le Figaro” escreveu em 29 de dezembro de 1889: “A Europa saudará respeitosamente esta Imperatriz morta sem trono, e dir-se-á, falando-se dela: sua morte é o único desgosto que ela causou a seu marido durante quarenta e seis anos de casamento”.

Jazigo da familia imperial em Petrópolis

No mesmo dia o jornal “Le Gaulois” afirmou: “Era uma mulher virtuosa e boa, da qual a História fala pouco, porque nada há de mal a dizer-se”.

(REVIVENDO O BRASIL IMPÉRIO – Leopoldo Bibiano Xavier)

Share
{ 1 comment }

O Leão de Münster

Mons. von Galen, o “Leão de Münster”: “Nec laudibus nec timore” (Não me movo nem por louvores nem por temor). Foto: Gustav Albers

Renato Murta de Vasconcelos

21 de fevereiro de 1946 — Basílica de São Pedro. Em seu trono S.S. o Papa Pio XII, cercado de altos prelados. Atmosfera de grande gala, presentes o corpo diplomático e personalidades vindas do mundo inteiro. O longo cortejo de 32 novos Cardeais estende-se ao longo da nave central. Dentre eles, um sobressai por sua estatura muito elevada e arrebata o entusiasmo dos fiéis, que começam a aplaudir e a bradar: “Viva o Conde de Galen!”(1)

O Papa havia elevado em 23 de dezembro de 1945 ao cardinalato o Bispo de Münster (Alemanha), merecidamente célebre por verberar, já nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, os crimes nazistas, especialmente a perseguição à Igreja e a prática abominável da eutanásia contra doentes e idosos.(2)

Quem foi essa personalidade arrebatadora, entusiasticamente aplaudida pelos fiéis romanos? Por que foi tão importante sua oposição ao nazismo? Alguns breves dados biográficos esclarecerão essas questões.(3)

Von Galen nasceu em 16 de março de 1878, no Castelo de Dinklage em Oldenburg, Alemanha
Clemens August conde von Galen (1878-1946) nasceu em 16 de março no Castelo de Dinklage em Oldenburg, Alemanha, como décimo-primeiro de 12 irmãos. Seus pais foram o Conde Ferdinand Heribert e Elisabeth, nascida Condessa von Spee. A família, de antiga cepa católica, deu à Igreja almas de escol como arcebispos, bispos, clérigos e numerosas freiras.(4) E também ardorosos defensores de seus direitos no campo temporal. O Conde Heribert foi destacado deputado católico do Zentrumspartei (Partido do Centro) no Reichstag (Parlamento alemão).

Brasão do Cardeal von Galen

Em seu lar túmido de virtudes cristãs, recebeu o jovem Clemens August uma esmerada educação. Freqüentou de 1890 a 1894 a escola jesuítica Stella Matutina em Feldkirch.

O Papa Pio XI o elevou ao episcopado e Pio XII ao cardinalato.

 

Freqüentou de 1890 a 1894 a escola jesuítica Stella Matutina em Feldkirch, Áustria. Nos dois anos seguintes estudou em Vechta, onde concluiu seu curso colegial. Em 1897, acompanhado de seu irmão Franz, freqüentou a Faculdade de Fribourg, na Suíça. Foi ali que resolveu tornar-se sacerdote. Em 1899 ingressou no seminário jesuíta de Innsbruck. Ordenado em 28 de maio de 1904 na Catedral de Münster, foi nomeado no mês seguinte vigário capitular e capelão de seu tio, bispo-auxiliar de Münster, Mons. Maximilian von Galen. Em 1906 foi transferido para Berlim, onde se tornou capelão da paróquia de São Mathias. Além de seus cuidados pastorais, dava aulas de Religião em ginásio da cidade.

No dia 5 de setembro de 1933, Pio XI(5) elevou-o ao episcopado, designando-lhe a sede ocupada anteriormente por seu tio. No dia de sua sagração episcopal, 28-10-1933, escreveu dele o Cardeal Schulte: “Aussi Clement, qu´Auguste” (Igualmente Clemente e Augusto). O novo bispo de Münster adotou como lema de seu brasão as palavras “Nec laudibus nec timore” (Não me movo nem por louvores nem por temor), indicando destarte a firmeza de seu caráter. A seu respeito escrevia o “Münstersche Anzeiger” de 12-9-1933: “Assinalam o novo bispo altas virtudes sacerdotais e humanas. Como cura de almas em Berlim, […] levantou continuamente sua voz contra a crescente secularização da vida, exigindo um retorno aos claros princípios da Igreja Católica”.(6)

Catedral de Münster. Foto: Rüdiger Wölk

Oito meses antes havia o Partido Nacional Socialista (nazista) galgado o poder. Com sua doutrina pagã da raça ariana pura, o nazismo iria entrar necessariamente em choque com a Igreja, a qual começou a perseguir, de início discreta, mais tarde aberta e ferozmente.

Retornando de Roma, o Cardeal von Galen é recebido em Münster. Mons. von Galen logo percebeu os erros contidos na obra Mito do Século XX, de Rosenberg, o ideólogo do partido nazista. E combateu-os rijamente em sua Carta Pastoral de 19 de março de 1935, denunciando o “mito do sangue” de Rosenberg como uma nova religião pagã.

 

Empolgados com a coragem de seu bispo, os católicos deram-lhe a alcunha de “Leão de Münster”. Isso se deve não apenas a suas críticas constantes aos erros nazistas, mas sobretudo por três famosos sermões(7) que proferiu nos dias 13 e 20 de julho e 3 de agosto de 1941 na igreja de São Lamberto, de cujas torres se podem ver ainda hoje penduradas as gaiolas nas quais apodreceram os restos mortais dos chefes anabatistas.

Clemens Von Galen bispo de Munster. Foto: Bundesarchiv

No sermão do dia 13 de julho, criticou o confisco de mosteiros e conventos, apontando para um “ódio profundo contra o Cristianismo, o qual querem exterminar”. Dia 20 de julho, empregou a figura da bigorna e do martelo: “Atualmente não somos martelo, mas bigorna. […] A bigorna não pode e nem precisa rebater. Ela precisa apenas ser firme e dura“. No dia 3 de agosto, increpou o crime da eutanásia, praticado em pessoas idosas, paralíticas e com doenças incuráveis. A reação suscitada por este sermão foi imensa. Altos funcionários do partido nazista exigiam que se movesse um processo contra o bispo e o enforcassem numa praça pública de Münster. Goebbels, o ladino ministro da propaganda, percebeu que tal medida alienaria do esforço de guerra os católicos de toda a Alemanha. E recomendou a Hitler que deixasse o “acerto de contas” para depois da “vitória final”. Ele teve de viver com essa espada de Dâmocles sobre sua cabeça e a aceitou heroicamente, sem recuar.

A “vitória final” não houve. Com a capitulação da Alemanha em maio de 1945 e o processo de Nuremberg, que julgou os crimes dos principais chefes nacional-socialistas, o nazismo desapareceu ingloriamente do cenário mundial, deixando atrás de si, a exemplo do comunismo, morte, escombros e miséria.

Alfred Rosenberg, ideólogo do Nazismo. Foto: Bundesarchiv

O Cardeal Schulte referindo-se a Mons. von Galen, disse: “Aussi Clement, qu´Auguste” (Igualmente Clemente e Augusto)
Depois de receber o chapéu cardinalício, Mons. von Galen ficou ainda alguns dias na Itália, visitando soldados alemães em diversos campos de concentração. Em meados de março esperava-o em Münster uma acolhida triunfal. Deus, porém, tinha outros planos para seu “Leão”. Acometido por uma apendicite aguda, faleceu na tarde do dia 22 de março de 1946.

Em seu sermão fúnebre, o Cardeal Frings salientou que, enquanto houvesse uma diocese em Münster, Mons. von Galen seria o seu adorno. E acrescentou: “Enquanto houver uma história do povo alemão, ele será apontado como o alemão ideal, o orgulho da Alemanha”.

* * *

Em 9 de outubro de 2005 o Cardeal von Galen foi beatificado pelo Papa Bento XVI, que na ocasião enalteceu a luta do novo bem-aventurado contra a eutanásia.
Na Praça de São Pedro, milhares de fiéis — só da diocese de Münster compareceram cerca de cinco mil — acompanharam por telões a cerimônia que se desenrolava no interior da Basílica, também ela repleta de convidados especiais, entre os quais se encontrava a Condessa Johanna von Westfalen, sobrinha do novo Beato e destacada líder anti-abortista na Alemanha.

Aparelhos para a prática da eutanásia

Após 60 anos da queda do nazismo e de seu desaparecimento nas brumas da História, muitos se perguntarão talvez que importância tem, para nossos dias, a resistência do bispo de Münster ao nazismo.

O desassombro de Mons. von Galen ao condenar o crime da eutanásia é mais atual do que nunca. Numa época como a nossa, em que mundialmente dezenas de milhões de nascituros são abortados, em que a eutanásia vai entrando na legislação de muitos países, é preciso ter coragem para defender a vida inocente. Mesmo com perigo de morte, o “Leão de Münster” não se acovardou. Magnífico exemplo a ser seguido.

E-mail do autor: renatovasconcelos@catolicismo.com.br

__________________

Notas:

1. Um “applauso trionfale”, escreveram os jornais italianos. O secretário de Mons. von Galen, P. Heinrich Portmann, fala de “um verdadeiro furacão”. O Pe. Portmann é autor da excelente biografia Kardinal von Galen – Ein Gottesmann seiner Zeit (Cardeal von Galen – Um homem de Deus de seu tempo). São também de sua lavra: Bischof von Galen spricht (Sermões do Bispo von Galen) e Dokumente um den Bischof von Galen (Documentos relativos ao Bispo von Galen)

2. Integravam igualmente o conjunto de novos cardeais dois heróis da resistência anticomunista: Mons. Mindszenty, Arcebispo de Eztergom e Primaz da Hungria, que se tornaria mais tarde famoso por sua inflexibilidade diante dos títeres comunistas húngaros; o prelado croata Mons. Stepinac, também ele intrépido opositor do regime vermelho, falecido em 1960 em conseqüência dos maus tratos sofridos nas enxovias comunistas. Mons. Stepinac foi beatificado em 1998 e seus restos mortais repousam incorruptos num escrínio de cristal diante do altar-mor da catedral de Zagreb.

3. Catolicismo publicou, em sua edição de fevereiro de 1984, matéria a respeito, sob o título Cardeal von Galen, indômito adversário do nazismo.

4. Entre essas destaca-se a figura ímpar da Condessa Maria Droste zu Vischering, prima-irmã do Cardeal von Galen e Superiora do Convento do Bom Pastor na cidade do Porto. Falecida em 1899, foi beatificada por Paulo VI em 1975.

5. Pio XI nutria especial simpatia pelo Bispo de Münster. Certo dia, após recebê-lo em audiência, comentou com Mons. Ruffini: “Gigas est corpore, sed non tantum corpore” (Ele é gigante de corpo, mas não só de corpo).

6. Citado por Lothar Groppe SJ, Zur Seligssprechung von Kardinal Graf von Galen, Katholische Bildung, Oktober 2005, p. 7

7. A respeito dos sermões de fogo de Mons. von Galen, escreveu o protestante e antigo Ministro do Reich, Conde Schwerin v. Krosigk, em seu livro Es geschah in Deutschland: “Os sermões do Conde Galen, bispo católico de Münster, vão entrar para todo o sempre na história da resistência interna (ao nazismo). Os sermões e comunicados do Bispo eram difíceis de ser incriminados, porque se abstinham de entrar na política; não atacavam ninguém pessoalmente; […] apenas apontavam o pecado, aquilo que segundo a concepção cristã é pecado”.

Share
{ 0 comments }

Com a recente canonização, o novo santo pode ser venerado como tal pelos católicos do mundo inteiro. Entretanto, para os católicos portugueses, há séculos já era ele considerado o Santo Condestável.

No dia 26 de abril último foi canonizado em Roma, pelo Papa Bento XVI, o invicto guerreiro Nuno Álvares Pereira (1360 – 1431), elevado à honra dos altares 578 anos após seu falecimento.

Principe Dom Luiz de Orleães e Bragança, descendente direto do Santo Condestável

Catolicismo, que em suas duas edições anteriores publicou matérias a respeito, obteve por meio de seu colaborador José Carlos Sepúlveda da Fonseca uma entrevista com Dom Luiz de Orleans e Bragança, descendente direto do novo santo. Um dos filhos de Dom João I, Rei de Portugal, casando-se com a filha de São Nuno Álvares, deu origem à Casa de Bragança, e desse casal descendem os membros da Família Imperial do Brasil, da qual Dom Luiz é o chefe (Vide Catolicismo, abril/2009).

Sua Alteza aborda aspectos pouco divulgados da missão providencial de seu ilustre antepassado. E também indica o Condestável do Reino (chefe supremo dos exércitos portugueses) como um modelo, mesmo para os presentes dias, do perfeito varão católico.

O novo santo — que, segundo o escritor português Antero de Figueiredo, era “Furacão de aço e de fogo, piedade feita energia, oração feita espada” — tem muita vinculação com a História do Brasil, pois foi o articulador, no século XIV, da manutenção da soberania e do renascimento de Portugal, que empreenderia mais tarde as grandes navegações para descobrir novas terras e conquistar novas almas para a fé católica.

*    *    *

Catolicismo — Causou compreensível júbilo, especialmente em Portugal e no Brasil, a canonização de Nuno Álvares Pereira, Condestável de Portugal. Sabemos que para Vossa Alteza enquanto Chefe da Casa Imperial do Brasil, como para os membros da Casa de Bragança, é especialmente honrosa essa elevação aos altares. Poderia falar-nos inicialmente dos laços de sangue que o unem ao Santo Condestável?

Dom Luiz — Como se tem conhecimento, Nuno Álvares Pereira nasceu em 1360, filho do Prior da Ordem do Hospital, Álvaro Gonçalves Pereira. Por seu elevado espírito cavalheiresco, almejava a perfeição cristã e acalentava o desejo de permanecer virgem. Entretanto, obedecendo a seu pai, que desejava adquirisse bens para manter sua posição na corte, casou-se com uma nobre e rica viúva, Dª. Leonor de Alvim, da qual teve dois filhos, que morreram ao nascer, e uma filha, Dª. Beatriz, de cujo parto faleceu a mãe. Uma vez no trono o Mestre de Aviz, D. João I, em prol de quem Nuno Álvares empenhara todo o seu devotamento na grave crise política e religiosa que Portugal atravessara, quis casar seu filho natural, o Infante D. Afonso, com a filha do Santo Condestável. Desse enlace nasceu a Casa dos Duques de Bragança, da qual descendem os imperadores do Brasil.

Estátua do rei Dom João I, na Praça da Figueira. Foto: Koshelyev

 

Catolicismo — Qual o traço de personalidade que mais admira em Nuno Álvares Pereira?

Dom Luiz — Se eu pudesse resumir em poucas palavras a figura desse grande santo, diria que ele foi a derradeira e acabada personificação da Idade Média portuguesa. Há uma definição que gosto de citar, feita pelo Infante D. Pedro, que com ele conviveu muito tempo: “Norma dos príncipes, exemplo dos senhores, espelho de anacoretas”. Realmente, toda a sua vida nos Conselhos do Rei, nos campos de batalha ou sob o hábito de irmão leigo carmelita foi norteada pelo ideal do “Serviço de Deus”.

Catolicismo — E qual a importância dele para a História?

Dom Luiz — Uma importância incalculável. Não hesito em dizer que ele fez renascer Portugal e revivescer o senso da missão histórica que cabia a esse povo e a essa nação, da qual o Brasil se orgulha de descender. Bem jovem, apenas com 13 anos, D. Nuno Álvares Pereira foi armado cavaleiro. Segundo os relatos do tempo, sempre se mostrou muito valente e ao mesmo tempo afável, sábio, bom conselheiro e agindo sem rancor ou ódio. Juntamente com essas qualidades, marcava seu espírito um afinado senso histórico e providencial. Portugal, depois da morte do rei D. Fernando I, encontrava-se numa encruzilhada no que diz respeito à sucessão ao Trono. O Rei D. Fernando I, o Formoso, casara-se em segredo com Leonor Telles, que tivera seu casamento anterior anulado. Após a morte do rei, Leonor Telles tornou-se regente e levou para viver no palácio seu amante, o galego João Fernandes Andeiro, o que causou grande indignação entre muita gente e levou os portugueses a cognominá-la Aleivosa. A filha de D. Fernando I e de Leonor Telles, Dª. Beatriz, estava prometida a D. João de Castela. Portugal encontrava-se dividido nessa crise, particularmente a nobreza. Parte dela, por comodismo ou por interesses diversos, preferia aceitar como soberanos Dª. Beatriz e D. João de Castela, o que acarretaria uma absorção do reino. Outros simplesmente aguardavam o desenlace dos acontecimentos para tomarem posição. Além disso, Castela era partidária do anti-papa Clemente VII. Esse conjunto de circunstâncias fez com que Nuno Álvares pusesse toda a sua dedicação e todo o seu entusiasmo a serviço da causa de D. João, Mestre de Aviz.

 

Batalha de Aljubarrota Foto: Joseolgon

Catolicismo — Pode-se dizer, então, que ele galvanizou todo Portugal e sua empreitada foi triunfal?

Dom Luiz — Não diria isso. Como todas as obras providenciais, a missão de Nuno Álvares não foi fácil, tendo ele sofrido reveses. Sobretudo, teve que enfrentar o ambiente em boa parte acomodado, e também marcado pela decadência moral. É bom recordar que ele fez frente, até no campo de batalha, a vários de seus irmãos. Foi a custo que o futuro Condestável de Portugal se tornou recrutador e formador de outros jovens guerreiros e tornou vencedora sua causa. Com a nova dinastia de Aviz, virtuosa e idealista, com uma nobreza regenerada e revigorada, Portugal se lançou a “dilatar a Fé e o Império” até os confins do mundo. E isso não teria sido possível sem a atuação providencial de D. Nuno Álvares Pereira no momento em que Portugal estava para perder a alma e a independência.

Catolicismo — É compreensível que a figura do Santo Condestável desperte admiração e entusiasmo, por seu papel histórico na consolidação da missão providencial de Portugal da qual Vossa Alteza acaba de nos falar. Mas será que essa figura tem algo de específico para nossos dias?

Dom Luiz — Como um homem que ascendeu à honra dos altares, é evidente que suas virtudes são para nós um exemplo excelso. Mas creio que sua figura de cavaleiro cristão, de que falei, é mais atual do que pode parecer. Embora as circunstâncias da vida contemporânea sejam em grande medida diversas das que havia na época de Nuno Álvares Pereira, esse espírito de “serviço de Deus”, essa dedicação à causa da Igreja e da civilização cristã são mais necessários do que nunca. Infelizmente, todo o Ocidente, para falar só dele, é hoje assolado por um laicismo contraditoriamente moderado e agressivo. Modas, costumes, leis, idéias vão cada vez mais deteriorando as mentalidades e afastando-as do verdadeiro ideal cristão, com reflexos perniciosos para as sociedades. Ergue-se todo um mundo contrário a Jesus Cristo. Basta lembrar as legislações que por toda parte consagram como práticas habituais o terrível crime do aborto ou o mal chamado casamento homossexual, gravemente ofensivo a Deus. Diante dessa deterioração, é necessário que muitos sigam o exemplo do Santo Condestável e consagrem suas vidas à luta pelos ideais da civilização cristã, para alcançarem uma profunda regeneração da sociedade.

 

Estátua de Santo Nuno Alvares Pereira, no Mosteiro da Batalha - Foto Celia Ascensio

Catolicismo — A canonização de Nuno Álvares Pereira traz também algum ensinamento para a nobreza de nossos dias?

Dom Luiz Sem dúvida. Em seu livro Nobreza e Elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana, que tive a honra de prefaciar, Plinio Corrêa de Oliveira ressalta bem que — sobretudo numa sociedade em que imperam a confusão das idéias, o desregramento dos costumes, o abandono da Religião — à nobreza e às elites tradicionais cabe desempenhar a função de guias, pelo exemplo de uma fé viva e operante, pela observância exímia do dever, pela fidelidade à tradição, que as tornam conhecedoras profundas e subtis dos problemas do presente. Infelizmente, nos dias que correm, nobres e até príncipes, apesar de seu sangue ilustre e de sua formação moral, aderiram à vulgaridade de maneiras, de formas de vida, de modos de ser ditos “modernos”. Nuno Álvares Pereira é para eles um exemplo e um intercessor insigne. Devemos rogar ao Santo Condestável dar-nos a coragem de enfrentar os ambientes ditos modernos, de permanecer fiéis aos ideais perenes da Igreja e da civilização cristã, de saber viver como ele no auge do prestígio, nos píncaros da sociedade, mas voltados para o serviço de Deus; de ser, enfim, fiéis ao que o Papa Bento XV qualificou de “sacerdócio da nobreza”.

 

(Revista CATOLICISMO – junho de 2009)

www.catolicismo.com.br

 

 

Share
{ 0 comments }

Plinio Corrêa de Oliveira

 

Aparece em boa hora, nos Estados Unidos, a presente biografia de Pierre Toussaint.

Venerável Pierre Toussaint

Sua figura, que teve em outros tempos merecida notoriedade na cidade de Nova York, na qual ele exerceu sucessivamente as profissões de cabeleireiro de senhoras e de agente de colocação para empregadas domésticas, se esvaiu na memória dos nova-iorquinos com o curso das gerações, em virtude da rapidez vertiginosa das atividades, na imensa urbe norte-americana.

Mas os exemplos que ele deixou durante sua vida merecem ser lembrados, pois dão margem a profundas reflexões morais e sociais para todos os tempos. E altamente oportunas em nossos dias.

A época em que Toussaint viveu (1766-1853) foi sacudida por violentos acontecimentos internacionais, precisamente como o é a nossa. A Revolução Francesa, fundamentalmente atéia, tem sido qualificada, de modo merecido, como precursora do comunismo. Ela estourou em 1789 na França, sendo Rei, o apático e indolente, Luís XVI. Naquele país a Revolução se propagou de forma violenta em todo território e a partir daí contagiou a vários países da Europa.

Tais acontecimentos sacudiram a Europa, mas também tiveram na América uma danosa repercussão.

Quando, em1794, aterrível fase do Terror cessou, muitos esperaram que o Velho Continente voltasse à sua tranqüilidade anterior. Não foi o que aconteceu. Pois a Revolução, deixando de se tornar diretamente destrutiva no plano material dos fatos, nem por isso deixou de existir e de se propagar cada vez mais pela Europa afora, no campo ideológico. Com efeito, os regimes sucessivos do Diretório (1795), do Consulado (1799) e do Império (1804-1815) não foram senão formas metamorfoseadas da Revolução Francesa. Inspiraram-se nos mesmos princípios errôneos, e estavam devorados pelo mesmo desejo de pregar os seus erros a todo mundo. Mesmo quando Napoleão, proclamando-se Imperador dos franceses, coroou a si próprio na igreja de Notre Dame em Paris (1804), seu regime inautenticamente monárquico não foi senão uma metamorfose a mais da Revolução Francesa.

Massacre durante a Revolução Francesa

Com efeito, a ordem de coisas que ele impôs à França, pacífica na aparência, foi de fato a consolidação das modificações subversivas que os revolucionários de 1789 haviam introduzido naquele país. De outro lado, dirigindo por toda a Europa guerras de conquista que se estenderam desde Lisboa até Moscou, e que produziram abalos desde Estocolmo até Nápoles, levaram o Imperador a impor, por toda parte onde ele entrava, leis revolucionárias que subvertiam a ordem antiga em nome dos princípios de liberdade, igualdade, fraternidade. Princípios esses que, entendidos à maneira dos revolucionários franceses, não eram senão precursores do comunismo. Por essa razão, foram eles severamente condenados pelo Papa Pio VI no Consistório Secreto de 17 de junho de 1793, no qual disse, confirmando as palavras da Encíclica Inscrutabile Divinae Sapientiae, de 25 de dezembro de 1775:

“Estes perfidíssimos filósofos acometem isto ainda: dissolvem todos aqueles vínculos pelos quais os homens se unem entre si e aos seus superiores e se mantêm no cumprimento do dever. E vão clamando e proclamando até à náusea que o homem nasce livre e não está sujeito ao império de ninguém; e que, por conseguinte, a sociedade não passa de um conjunto de homens estúpidos, cuja imbecilidade se prosterna diante dos sacerdotes (pelos quais são enganados) e diante dos reis (pelos quais são oprimidos); de tal sorte que a concórdia entre o sacerdócio e o império outra coisa não é que uma monstruosa conspiração contra a inata liberdade do homem (Encíclica Inscrutabile Divinae Sapientiae). A esta falsa e mentirosa palavra Liberdade, esses jactanciosos patronos do gênero humano atrelaram outra palavra igualmente falaz, a Igualdade. Isto é, como se entre os homens que se reuniram em sociedade civil, pelo fato de estarem sujeitos a disposições de ânimo variadas e se moverem de modo diverso e incerto, cada um segundo o impulso de seu desejo, não devesse haver alguém que, pela autoridade e pela força prevaleça, obrigue e governe, bem como que chame aos deveres os que se conduzem de modo desregrado, a fim de que a própria sociedade, pelo ímpeto tão temerário e contraditório de incontáveis paixões, não caia na Anarquia e se dissolva completamente; à semelhança do que se passa com a harmonia, que se compõe da conformidade de muitos sons, e que se não consiste numa adequada combinação de cordas e vozes, esvai-se em ruídos desordenados e completamente dissonantes” (Pii VI Pont. Max. Acta, Typis S. Congreg. de Propaganda Fide, Roma, 1871, vol. II, pp. 26-27).

Papa Pio VI condenou a Revolução Francesa

A França era então senhora das ilhas Martinica, Guadalupe e São Domingos (atual Haiti). Essas possessões caribenhas, então prósperas e tranqüilas, sofreram a fundo os abalos da Revolução Francesa. Os escravos e os colonos se levantaram contra os seus senhores e patrões com o intuito de suprimir a classe deles, assim como na metrópole fora supressa a nobreza.

Entre as famílias prósperas de São Domingos figurava a de Jean Bérard du Pithon. E, entre os escravos desta, Pierre Toussaint.

Tratava-se de um negro que tinha apenas 21 anos quando os abalos da Revolução levaram a família a refugiar-se em Nova York, para onde Toussaint seguiu. Começa, então, a sua verdadeira história.

Com efeito, num primeiro momento essa família, pertencente à nobreza, viveu folgadamente em Nova York, das economias que levara consigo. Precisamente como fizeram muitos dos emigrados franceses que depois da queda da Bastilha (1789) em Paris partiram para o Exterior, levando as quantias de dinheiro que tinham à mão -animados pela certeza de que a Revolução demoraria pouco -, também a família Bérard du Pithon esperava voltar prontamente a São Domingos, julgando que a revolução seria efêmera. Uns e outros se enganaram, e, esgotados os recursos financeiros, se viram em breve em graves complicações.

A família Bérard teve, pois, de reduzir consideravelmente o nível de sua representação social, sentindo-se ameaçada de ter que recorrer a empregos incompatíveis com sua condição, para subsistir.

Foi nessa triste conjuntura que, após onze anos de um feliz consórcio, faleceu em 1791 o Sr. Jean Bérard, deixando viúva a aristocrática Marie Elisabeth Bossard Roudanes. Esta teve que enfrentar, sozinha e ademais servida por uma saúde precária, as condições adversas que se lhe deparavam.

Mas a mão da Providência velava por ela. A “mão da Providência”: formosa metáfora para designar o desvelo com que Deus acompanha a existência de suas criaturas, e as socorre. Habitualmente a iconografia a representa como uma mão alva e benfazeja; no caso concreto, a “mão da Providência” era uma mão negra: a mão de Pierre Toussaint.

Realmente este modesto escravo — que poderia tão bem tentar esquivar-se, nos Estados Unidos, do jugo de sua dona — pelo contrário procedeu em relação a ela com uma dedicação e uma delicadeza de sentimentos que poucos filhos têm até mesmo em relação à sua própria mãe.

Seguindo um programa abnegado, cujo cumprimento ele levou até o fim, Pierre Toussaint deliberou trabalhar ele próprio para que a sua ama não perdesse em nada as condições sociais e o conforto de vida que correspondiam à educação que recebera.

Para isso, habilitou-se a exercer, na pequena mas já rica Nova York de então, o ofício de cabeleireiro das senhoras da alta sociedade. Imaginoso, e dotado de bom gosto, inventava ele fórmulas variadas de penteado, muito do agrado das suas opulentas clientes, que lhe pagavam, pois, a bom preço o serviço. Em pouco tempo, Toussaint passou a ser disputado por todas as senhoras ricas de Nova York, obtendo por esta forma os recursos necessários para manter a sua ama.

Estilos de penteados em meados do século XVIII

Entretanto, ele o fez com tal habilidade, que conseguiu ocultar-lhe que era de seu trabalho que provinham os recursos de que ela vivia. E isto sem mentir, pois Toussaint era muito veraz e, como católico fervoroso que diariamente assistia a Santa Missa — a comunhão diária só passou a ser um hábito dos católicos fervorosos depois do pontificado de São Pio X (1904-1914) –, Toussaint evitava qualquer ação que transgredisse os Mandamentos da Lei de Deus. Todo dia o viam, pela manhã, muito cedo, antes de começar o seu serviço, ir à Igreja de São Pedro, na Rua Barclay, onde rezava o seu rosário. E era depois disto que começavam suas atividades profissionais.

Com as condições criadas por Toussaint, a saúde da Sra. Bérard, que se encontrava abalada, lentamente se foi restabelecendo, e ela pôde reabrir seus salões. Toussaint, que durante o dia trabalhava como cabeleireiro, à noite funcionava como espontâneo copeiro e, eximiamente trajado, com maneiras muito gentis e aprazíveis, servia todos os convidados de sua ama.

Entrementes, um refugiado francês chamado Gabriel Nicolas, hábil músico, cujo talento lhe proporcionara vida abastada em Nova York, obteve a mão da viúva Bérard, que se tornou assim Sra. Nicolas.

Aliviada embora por algum tempo com o novo casamento, o infortúnio voltou a visitar a nobre dama. Com efeito, em decorrência de uma abstrusa legislação, vários teatros novaiorquinos foram fechados, com o que desapareceu a principal fonte de recursos do marido. A fidelidade de Toussaìnt, entretanto, foi o seu amparo.

Prosseguiu ele em sua tarefa junto às senhoras da alta sociedade de Nova York, sobre as quais exercia uma influência benfazeja. Conversavam, durante o serviço, sobre vários assuntos, e em tudo ele respondia com tanto acerto e fazia comentários tão judiciosos, que muitas o tomaram como conselheiro, tendo o hábito de pedir sua opinião sobre problemas pessoais delicados. Algumas chegavam a ir à residência dele quando, surpreendidas por algum problema novo, precisavam receber com urgência de Toussaint a solução judiciosa que esperavam.

Como se pode imaginar, Toussaint acumulava recursos. E com estes, poderia adquirir a sua própria liberdade. Mas, sempre modelar na sua abnegação, preferiu continuar na condição de escravo, e comprar a liberdade da própria irmã, que com ele viera de São Domingos! A sua liberdade, Toussaint só a adquiriu muito depois, em 1807, aos 41 anos.

Com efeito, em julho daquele ano, pouco antes de morrer, a Sra. Nicolas fez questão de, em comum acordo com o esposo, conceder a alforria a Toussaint.

No século XIX os penteados tornaram-se mais simples

Em 1811, Toussaint casou-se. E, sem cessar de prestar seus serviços ao Sr. Nicolas, manteve seu próprio lar. Foi marido modelar, e a morte de sua esposa, ocorrida em 1851, dois anos antes da dele, foi para Toussaint um golpe moral do qual ele nunca se refez inteiramente. A partir dessa ocasião sua saúde, até então florescente, começou a decair. Pode-se medir por aí a riqueza de sentimentos de Toussaint.

Essa riqueza de sentimentos chega quase ao inimaginável. Uma parte da família Bérard se tinha disperso na Europa, com a Revolução Francesa. Depois, quando caiu o Terror, e os emigrados começaram a voltar, Toussaint envidou esforços para saber se esses entes queridos sobreviviam, onde e como.

Qual não foi seu contentamento quando, através de uma senhora francesa de passagem por Nova York e a quem Toussaint fora atender, tomou conhecimento de que Aurora Bérard, irmã de seu antigo senhor e sua madrinha de batismo, não havia morrido, como supunha, e vivia em Paris. Ela lhe escreveu uma primeira carta tão logo soube do afilhado, carta que Toussaint respondeu enviando-lhe junto uma dúzia de lenços de Madras, altamente apreciados pelas damas francesas da época. Toussaint entreteve longa correspondência com a madrinha, que só cessou com a morte desta, ocorrida em 1834.

Por sua vez, o primogênito do casal Bérard, que também sobrevivia em Paris, foi objeto dos desvelos epistolares de Toussaint.

Como vê o leitor, não se pode imaginar uma dedicação mais modelar.

Mas a vida de todos os homens é sacudida por tufões. Estes não faltaram na existência de Toussaint. Um deles foi uma brusca mudança na moda dos penteados femininos, pelos quais eles se tornaram muito mais simples, com o que seus serviços profissionais ficaram desnecessários às suas opulentas clientes. Isto poderia ter representado para Toussaint uma completa derrocada. Porém ele, muito habilidoso e jeitoso em tudo, não se deixou abater. Criou logo um escritório de empregos de domésticas. E a sua influência pessoal era tão grande que as candidatas a empregos e as casas à procura de empregadas afluíram em torno dele. Com este novo trabalho, que ele exerceu com o mesmo primor com que exerceu o primeiro, Toussaint continuou a manter-se a si e a sua ama, bem como a sua esposa.

Estes fatos são uma verdadeira epopéia da dedicação de uma alma católica para com seus familiares, bem como para com seus amos. Epopéia realizada de modo tão dedicado e ao mesmo tempo tão brilhante que fazem da vida de Toussaint um inocente mas atraentíssimo romance. Porém a vida dele contém muito mais elementos próprios a nos atrair a atenção e servir de tema para altas reflexões de caráter moral. Tudo isto o leitor encontrará lendo e refletindo detidamente sobre esta biografia, editada pela Western Hemisphere Society.

Sinceramente lhe aconselhamos que o faça.

Uma reflexão capital, entretanto, se apresenta aos nossos olhos. É a antítese fulgurante entre Toussaint e o igualitarismo radical moderno do qual o comunismo foi uma característica expressão. Colhido ainda muito jovem pelas labaredas de uma revolução social que o incitava a revoltar-se contra seus donos, e de outro lado tendo nascido na dura condição de escravo, Toussaint teria tido fáceis meios para se libertar desse jugo. Bastar-lhe-ia ter aderido ao movimento revolucionário que um homônimo seu, Toutssaint L’Ouverture, chefiou com êxito durante muito tempo. Toutssaint L’Ouverture foi uma pequena pré-figura do tão censurável Fidel Castro, o qual levou a revolução social e política em Cuba até os últimos extremos. E que, depois de 30 anos de uma cruel ditadura, ainda mantém na miséria e sob os ferros de um verdadeiro cativeiro a população da Ilha outrora evangelizada pelo grande Santo Antonio Maria Claret e merecidamente qualificada, por suas belezas naturais, a Pérola das Antilhas.

Enquanto o comunismo é ateu, Toussaint era modelo de homem crente e piedoso. Ele aderia, como já dissemos, a toda a doutrina católica, apostólica, romana e lhe cumpria fervorosamente os Mandamentos.

De outro lado, a Revolução comunista é fundamentalmente igualitária e prega o ódio contra todos os superiores. Toussaint foi o paradigma do homem de espírito hierárquico, que amou os seus superiores, segundo preceitua o IV Mandamento: “Honrar pai e mãe”. E, enquanto o brado de revolta do comunismo poderia perfeitamente condensar-se na exclamação de revolta de satanás “Non serviam”, a vida de Toussaint, pelo contrário, resumia-se nesta palavra que seria digna de um São Miguel Arcanjo: “serviam”. Ele serviu. Serviu aos seus familiares, serviu aos seus patrões, serviu aos seus clientes, serviu a todos a quem pôde fazer bem; e ele o fez larga e generosamente. A quem menos ele serviu foi a si próprio. O feroz egoísmo que Marx procurou insuflar em cada um de seus seguidores era bem exatamente o contrário do espírito abnegado e generoso de Toussaint.

Nesta época, pois, Toussaint nos aparece como um homem que, tendo embora poucas letras, penetrava entretanto tão bem o espírito da Igreja Católica que, diante do fenômeno das desigualdades sociais, aceitava inteiramente a doutrina de São Tomás de Aquino.

Consiste muito resumidamente essa doutrina em que as desigualdades harmônicas e ponderadas não são um mal, mas pelo contrário são um bem. São uma condição de ordem, nesta terra como no Céu. O grande Doutor da Igreja diz que, ao proceder à criação do universo, Deus era necessariamente movido pelo propósito de fazer desse universo um reflexo de suas próprias perfeições. Mas que, sendo essas perfeições múltiplas e infinitas, não havia uma criatura que as pudesse refletir todas, ao mesmo tempo. Razão pela qual Ele deu o ser a várias criaturas, incumbidas cada qual de refletir um aspecto de sua perfeição.

Ademais, as perfeições comportam, nas criaturas, vários graus. E é por meio de perfeições graduadas que as criaturas melhor refletem a perfeição absoluta que é Deus. Nessas condições, por sua vez, os homens – como aliás também os Anjos – foram criados desiguais. Essa desigualdade é uma condição para que eles reflitam adequadamente a Deus.

São Tomás explica a doutrina católica sobre as desigualdades

Afirma o Doutor Angélico, São Tomás de Aquino, na Suma Teológica:

“Nos seres naturais vemos que as espécies são gradativamente ordenadas: assim, os compostos são mais perfeitos do que os elementos, as plantas do que os minerais, os animais do que as plantas e os homens do que os outros animais: e em cada uma dessas classes encontram-se espécies mais perfeitas do que as outras. Sendo, pois, a divina sabedoria a causa da distinção das coisas para a perfeição do universo, também será causa da sua desigualdade. Pois não seria perfeito o universo se nas coisas só se encontrasse um grau de bondade” (Suma Teológica I, q.47, a. 2).

Assim, as criaturas são necessariamente múltiplas. E não apenas múltiplas, mas também necessariamente desiguais. É essa a doutrina do Santo Doutor:

“Muitos bens finitos são melhores do que um só, pois eles teriam o que tem este, e ainda mais. Ora, é finita a bondade de toda criatura, pois é deficitária da infinita bondade de Deus. Logo é mais perfeito o universo havendo muitas criaturas, do que se houvesse um único grau delas. Ao sumo Bem toca fazer.o que é melhor. Logo, era-Lhe conveniente fazer muitos graus de criaturas.

“Ademais, a bondade da espécie excede a do indivíduo, como o formal excede o material: logo, mais acrescenta à bondade do universo a multiplicidade das espécies, do que a dos indivíduos de uma mesma espécie. Por isso, à perfeição do universo contribui não só haver muitos indivíduos, mas haver diferentes espécies e, por conseguinte, diferentes graus de coisas” (Suma contra os gentios, Livro II, cap. 45).

Intrinsecamente, portanto, a desigualdade não é um mal. Ela é um bem. E a igualdade absoluta é, pelo contrário, um mal. Foi por se terem voltado para essa igualdade absoluta que os anjos rebeldes se levantaram contra Deus, quando este lhes revelou a Encarnação do Verbo, e a superioridade que sobre eles teria, portanto, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Pelo contrário, São Miguel Arcanjo, resistindo ao brado de revolta de Satanás, proclamou a santidade e a perfeição de um universo fundamentalmente desigual como é o dos Anjos.

Profunda e admirável lição para os homens contemporâneos que, em sua grande maioria, tantas vezes são penetrados pelo espírito da igualdade completa, ainda mesmo quando não a pratiquem em suas ações. E que, tantas e tantas vezes, se revoltam contra aqueles a quem devem amor, respeito e obediência: seus pais, mestres, patrões, e demais pessoas constituídas em autoridade na esfera política, como na social e econômica.

Bem entendido, essa apologia da desigualdade não importa em elogiar todas as desigualdades, inclusive as injustas. No que diz respeito aos direitos inerentes à natureza humana, e que tocam a todo homem como homem, todos são iguais, pois todos são homens. Mas, na medida em que os homens são acidentalmente desiguais, é preciso respeitar essas desigualdades, amá-las e servi-Ias. Essa é a grande lição que recebemos de Pierre Toussaint e cuja meditação e imitação recomendamos a todos os leitores da presente obra.

Catedral de São Patrício em Nova York, em cuja cripta se encontra o Venerável Pierre Toussaint Foto: Steve Kelley (Flickr)

 

Em suma, a vida de Toussaint foi um reflexo remoto, mas luminoso, do preceito enunciado por São Pedro, que mandava aos escravos de seu tempo obedecerem aos seus senhores, não só quando dignos de respeito e afeto como a Sra. Bérard, mas até quando díscolos: “Servi, subditi estote in omni timore dominis, non tantum bonis et modestis, sed etiam dyscolis” (1 Pt. 2, 18).

Em nosso continente, em que tantas vezes as lutas raciais têm trazido discórdias e divisões lamentáveis, esse grande exemplo, que ajuda os católicos a reverenciar um negro tão digno de todo o seu respeito e amor, contribui para apagar as discórdias e as desconfianças mútuas entre as raças, e a consolidar assim a concórdia entre todos os Estados Unidos.

 

(Prefácio ao livro sobre Pierre Toussaint, lançado pela TFP americana – março/92)

 

 

Share
{ 0 comments }

 

Gregorio Vivanco Lopes

 

Em seus tempos de glória, a Áustria produziu grandes coisas para a civilização cristã. Entre elas, uma seqüência de imperatrizes e arquiduquesas admiráveis que, cada uma a seu modo, marcaram a fundo a história da Europa.

 

Imperatriz Maria Teresa

A grande Maria Tereza (1717-1780) encarnou como ninguém a elevação de vistas da dinastia dos Habsburgos e a grandeza da Áustria católica. Sua filha Maria Antonieta (1755-1793), transplantada para a França, foi uma rainha de sonho até o momento de se tornar rainha-mártir. A tal ponto que a simples menção de seu nome, ainda hoje, incomoda a fundo os revolucionários do mundo todo, que só falam dela para caluniá-la ou para apontar-lhe defeitos. A imperatriz Elizabeth, a famosa Sissi (1837-1898), esposa do imperador Francisco José, foi modelo inigualável de elegância e distinção aristocráticas.

O império austríaco foi retalhado após a Primeira Grande Guerra, e retirou-se da História. Poderíamos dizer que morreu, porém o fez de acordo com a expressão francesa mourir en beauté, pois aquilo que é muito elevado, ao morrer, habitualmente o faz de modo belo.

Nessa morte en beauté, o império austríaco produziu ainda uma grande imperatriz: Zita de Bourbon Parma (1892-1989), esposa do último imperador Carlos de Habsburgo, com o qual se casara em 1911 quando este era ainda apenas arquiduque. As bodas esplendorosas ocorreram no castelo de Schwarzau, perto de Viena, presididas por um legado do Papa.

Originária do ducado de Parma, descendente das famílias reais de Portugal, Espanha e França, Zita assimilou inteiramente sua condição de imperatriz da Áustria, que teve de assumir após a morte do longevo imperador Francisco José em 1916. Foi coroada também rainha da Hungria e da Boêmia. Na ilustração, a vemos numa esplêndida carruagem na capital da Hungria, cingindo a coroa imperial. Nos degraus, seu filho primogênito, arquiduque Otto (falecido no dia 4 de julho último, aos 98 anos).

Império Austro-Hungaro em 1906.

O reinado de Zita foi curto. A 12 de novembro de 1918, como conseqüência da guerra, a república foi proclamada na Áustria, e em março de1919 a família imperial teve seus bens confiscados. Foi forçada ao exílio na Suíça e em seguida na ilha da Madeira, pois os novos donos do poder temiam o prestígio dos monarcas junto ao povo.

Nesse local de exílio, Carlos de Habsburgo morreu em 1922, deixando a imperatriz viúva com oito filhos. Demonstrando uma dignidade extraordinária, ela passou a vestir-se de negro, e assim permaneceu nos 67 anos que sobreviveu ao marido, sempre cuidando da educação dos filhos.

Só em 1982 o governo republicano permitiu que ela voltasse à Áustria. Então, após assistir à Missa na Catedral de Santo Estêvão, uma multidão incalculável aglomerou-se para aclamá-la.

Quando de sua morte, teve um funeral de verdadeira imperatriz, recebendo em Viena o consagrador tributo de um povo que soube avaliar sua dignidade no infortúnio.

Imperatriz Zita com seu filho, Arquiduque Otto, no dia da coroação na Hungria em 1916

 

Seis cavalos negros puxavam o precioso coche encimado com a águia imperial e a coroa, que em presença de descendentes de todas as monarquias européias, além de Marrocos, Jordânia e Egito, conduziu seus restos mortais ao Panteão dos Habsburgos.

 

Share
{ 0 comments }

Reverendíssimo Monsenhor Diretor da Academia,

Senhores Acadêmicos

A simples enumeração dos títulos com que foi conhecida durante sua curta vida Maria Antonieta de Habsburg, mais tarde Maria Antonieta de Bourbon, traz consigo a recordação da série de acontecimentos extraordinários e imprevistos que constituíram a trama da existência feminina mais interessante do século XVIII.

Arquiduquesa Maria Antonieta aos 7 anos de idade

Na sua primeira fase, a vida desta princesa decorreu feliz e brilhante como um sonho dourado, em que se reunissem, na mesma pessoa, toda a glória do poder, todo o brilho da fortuna, e todo o encanto de uma radiosa juventude. Subitamente, porém, este longo encadeamento de venturas foi cortado por um tufão medonho, que provocou o naufrágio da Monarquia, a profanação dos altares e a derrocada de uma nobreza que, através dos séculos, vinha escrevendo com a própria espada as páginas mais brilhantes da história de França. E em pleno desabamento do edifício político e social da monarquia dos Bourbon, quando todo o mundo sentia o solo ruir sob seus pés, a alegre arquiduquesa d’Áustria, a jovial rainha de França, cujo porte elegante lembrava uma estatueta de Sèvres, e cujo riso tinha os encantos de uma felicidade sem nuvens, bebia, com uma dignidade, com uma sobranceria, e com uma resignação cristã admiráveis os goles amargos da imensa taça de fel com que resolvera glorificá-la a Divina Providência. Há certas almas que só são grandes quando sobre elas sopram as rajadas do infortúnio. Maria Antonieta, que foi fútil como princesa, e imperdoavelmente leviana na sua vida de rainha, perante o vagalhão de sangue e de miséria que inundou a França, transformou-se de um modo surpreendente; e o historiador verifica, tomado de respeito, que da rainha surgiu uma mártir, e da boneca uma heroína.

No ano de 1755, nascia no magnífico palácio de Schönbrunn, em Viena, a arquiduquesa Maria Antonieta, filha da impetuosa Maria Teresa , Rainha da Hungria e Boêmia, e de Francisco I, soberano do Sacro Império Romano Alemão. A diferença entre os caracteres de seus progenitores talvez explique as desconcertantes contradições que se encontram em todos os atos e durante toda a vida de Maria Antonieta. Maria Teresa era viril e enérgica a ponto de fazer face, gloriosamente, ao grande Frederico da Prússia, e tal era a força com que fazia pesar sobre seus súditos a autoridade real, que estes a chamavam, mesmo nos documentos oficiais os mais importantes, de Rei e não de Rainha. Francisco I, ao contrário, era fraco, pusilânime e pouco inteligente. Conta-se que, quando se repetiam em sua presença as injustas objurgatórias de Voltaire contra a forma Monárquica, o pobre soberano, não tendo cultura e energia suficientes para defender os princípios de que era guardião, limitava-se a dizer a seus cortesãos: que quereis, meu ofício exige que eu seja monarquista!

A infância de Maria Antonieta teve como cenário a pomposa corte de Viena. A jovem arquiduquesa mostrava ser dotada de um natural bondoso, que se aliava a um gosto acentuado pelos estudos. Ainda é conhecido hoje em dia seu noivado com Mozart, o grande pianista, que, sendo então apenas uma criança de 5 anos, acreditava ingenuamente estar noivo da formosa filha dos soberanos do Sacro Império.

Palácio Schoenbrunn - Viena. Foto: Andreas Schaufler

A diplomacia de Choiseul, o influente ministro do Rei da França, Luís XV, veio, porém, pôr um termo a esta infância sem nuvens, promovendo o casamento de Luís XVI, então ainda príncipe herdeiro, com Maria Antonieta. Evidentemente, o amor não ligara o coração dos jovens príncipes. Tratava-se apenas de um acordo diplomático em que a Áustria, fiel à sua política de casamentos, e visando exclusivamente as suas próprias vantagens, cedia uma de suas arquiduquesas, mediante determinadas compensações por parte da França.

Concluídas as últimas negociações diplomáticas, e feitas as necessárias despedidas, a jovem Maria Antonieta pôs-se a caminho do País do qual viria a ser, futuramente, a poderosa Rainha. Acompanhava-a um séquito brilhante, constituído por tudo quanto a nobreza do Sacro Império tinha de mais elevado. Na fronteira francesa realizou-se a curiosa cerimônia da “entrega da arquiduquesa”. Havia um edifício que se compunha de duas partes absolutamente idênticas, das quais uma ficava em território francês, e outra em território alemão. O séquito da arquiduquesa, penetrando pela porta alemã, conduziu Maria Antonieta até os aposentos onde ela deixou definitivamente seus trajes de princesa do Sacro Império, trocando-os pelos de dama francesa. Assim vestida, Maria Antonieta penetrou, acompanhada apenas pelo embaixador austríaco, na parte francesa do edifício. Aí, toda a fidalguia a esperava, ostentando a incomparável elegância, a imensa riqueza e o requintado gosto artístico que caracterizavam a corte francesa de então.

Luís XVI, então simples príncipe herdeiro, era conhecido pela austeridade de sua conduta, e pela piedade, bondade e honestidade que ornamentavam seu caráter. Seus mais encarniçados adversários conseguiram levantar contra ele apenas três acusações: a de ser apático, glutão e habilíssimo serralheiro. No novo lar principesco, que se formava sem os vínculos de uma afeição profunda, o espírito cristão de que estavam imbuídos os nubentes, supria com vantagem a ausência de amor. Maria Antonieta e Luís XVI sempre foram esposos exemplares que construíram sobre os sólidos alicerces do respeito mútuo e da moralidade absoluta a indiscutível felicidade de sua vida familiar.

Os anos decorridos entre o casamento e a coroação, foram, talvez, os mais venturosos de toda a curta existência de Maria Antonieta.

Formosa, poderosa, rica, bem casada e venerada pelo povo com carinhosa dedicação, a jovem princesa tinha por única ocupação passear pelos suntuosos palácios da coroa de França, trazendo consigo sua corte estouvada e todo o luxo fulgurante de que se cercava constantemente. Entre seus dissabores, neste tempo de venturas, contavam-se as suas freqüentes e interessantes altercações com a condessa de Noailles, sua severa mestra de etiquetas, que a jovem princesa apelidara impertinentemente “Madame Étiquette”. Conta-se que, certa vez, tendo Maria Antonieta caído de um burrico que montava na presença de toda a corte, exclamou rindo ainda deitada no chão: chamem Madame Étiquette, para que me explique como se deve levantar a herdeira do trono da França, quando cai de um burrico.

Princesa de Lamballe

Uma das feições curiosas do caráter da jovem esposa de Luís XVI era seu desejo ardente de possuir uma amiga íntima, confidente de todos os momentos, e de todas as situações. Logo que atravessou os umbrais da porta que separava o passado da arquiduquesa do futuro da princesa de França, seu olhar pousou sobre uma dama de beleza ideal, a princesa de Lamballe, aparentada com a Família Real, e infeliz viúva de um dos fidalgos mais estouvados da França. A Princesa de Lamballe era jovem, formosa e essencialmente aristocrática na graça de seu porte, de uma elegância sem par. Seus olhos, de um azul profundo, refletiam toda a candura de sua alma sem maldade, e a imensa tristeza de sua juventude sem riso. Sua delicadeza era tal que, certa vez, desmaiara de susto diante de uma pintura representando um caranguejo. Esta foi a primeira e a mais sincera das amigas de Maria Antonieta. Pouco depois, porém, era substituída pela frívola condessa de Polignac. A princesa de Lamballe sofreu seu afastamento com a dignidade própria de uma grande alma: não se queixou e não se rebaixou. A princesa de Lamballe só reaparece no cenário decepada e mutilada nas ruas de Paris, quando vinha da Inglaterra, à procura da infortunada mártir, a quem a princesa perdoava, assim, nas amarguras do sofrimento, a infidelidade do tempo de venturas. Aquela que desmaiava diante de um caranguejo pintado, teve ânimo suficiente para arrostar o tufão revolucionário, e morrer pela causa da amiga que, no tempo dos esplendores, lhe fora infiel. A condessa de Polignac, porém, em vez de exercer sobre Maria Antonieta uma influência salutar, arrastou-a a uma jogatina desenfreada. Estava, então, em voga o jogo de azar extremamente dispendioso, chamado Faraó. As partidas de Faraó começavam à noite, na residência dos Polignac, e terminavam com os primeiros albores do dia, aos olhos da população escandalizada pela co-participação assídua da herdeira do trono. Foi esta uma fonte de merecidas censuras dirigidas a Maria Antonieta. Pouco depois, foi descoberta em um baile popular carnavalesco aquela que devia ser Rainha de França, que se divertia, aliás inocentemente, sem se lembrar da dignidade de sua posição. Pouco a pouco, os rumores foram se acentuando, e quando morreu o velho Luís XV, Maria Antonieta subiu ao trono contando já com numerosas antipatias.

Mesmo assim, foi grande o entusiasmo do povo, quando os aplausos anunciaram a Maria Antonieta, a altas horas da noite, que chegara, com o falecimento de Luís XV o momento de ser coroado rei de França e de Navarra o fraco e bom Luís XVI.

As festas da coroação foram um contraste curioso de miséria e pompa. Luís XVI, depois de sagrado e coroado rei de França, na antiquíssima e suntuosa Catedral de Reims, na presença de toda a nobreza e de todo o clero de França, depois de ter sido ungido pelo representante do Santo Padre com o óleo que, segundo a tradição, descera do céu no dia da conversão de Clovis, depois de ter recebido as homenagens dos elementos mais representativos e nobres da nação, saiu da Catedral acompanhado pelo Bispo de Autun, a tocar com suas mãos as chagas de mais de 2000 doentes de toda a espécie, que esperavam enfileirados na porta da Igreja, a saída do Rei que, segundo a tradição, deveria curar, com o simples toque de suas mãos soberanas, determinadas moléstias. Conta-se que, como prenúncio de tristes acontecimentos, a coroa, ao ser colocada sobre a cabeça do Rei, caiu das mãos do Núncio Apostólico, e, atingindo Luís XVI, na testa, feriu-o a ponto de fazer correr sangue.

Com a coroação, começa o longo padecimento da Rainha. O povo sofria fome, e não queria compreender que os gastos da corte eram, em grande parte, necessários para o decoro da Monarquia. O povo, sempre vítima de exploradores de torpe inconsciência, não compreendia que a nobreza gozava grandes privilégios, mas que, em compensação, sustentava a expensas próprias o exército e a marinha, provendo, por outro lado, aos gastos de grande parte da administração. O povo, enfim, não compreendia que o clero, esta classe denodada que sempre lutara pelo bem, contra todos os males, pelos fracos, contra todos os poderosos, e por Deus contra seus inimigos, este clero custeava, sozinho, as despesas dos atuais ministérios franceses da Instrução Pública e dos Cultos. Não, os sofismas de um espírito demolidor como Voltaire, a eloqüência lacrimejante e perversamente oca de Rousseau, haviam gangrenado toda a sociedade francesa. Esta nobreza frívola, que afetava esquecer-se de seu Deus, haveria de mostrar dentro em breve, que se esqueceria igualmente de seu Rei, de seu passado, e do enorme peso de glórias que representavam as nobres tradições de que era depositária. Estes fidalgos, cujos antepassados tinham sido leões, a vida dissipada e irreligiosa da corte os transformara em bailarinos. E o povo, movido pela inveja mais do que pela fome, e esquecido de que representar na sociedade um papel humilde é, também, desempenhar um mandato divino, lança-se furioso contra a organização política da França. O 14 de Julho, a invasão de Versailles por um bando de megeras arrastando atrás de si a vasa da população parisiense, a impor ao Rei fraco o boné frígio, e a insultar baixamente uma monarquia que estava impossibilitada de se defender, o massacre de sacerdotes inocentes, que pagavam com a própria vida o enorme crime de se terem dedicado de corpo e alma ao serviço de Deus, pregando Seu santo Nome e Sua Lei de paz e de amor, o assassinato de diversos fidalgos que não queriam desertar na hora do perigo do trono em volta do qual tinham passado a vida a dançar, este encadeamento horrível de crimes que veio sujar as páginas da História da Humanidade, abateu porventura a rainha de França, a filha dos altivos Habsburg? Nunca! Nunca, esta boneca de porcelana dos bailes do Trianon dobrou sua cabeça diante da ignomínia de seus inimigos. Nunca, nem um só momento, a soberana destronada deixou de ser Rainha, pois que, maior no sofrimento do que na glória, demonstrou, ao afrontar desarmada e com o filho no braço aqueles bêbados furiosos que invadiam os paços reais, que era de uma raça que não teme o perigo, máxime quando encarna uma causa justa.

Execução do Rei Luiz XVI

Arrastada a realeza na lama de Paris, vergada a fraca personalidade de Luís XVI sob o peso do infortúnio, o único baluarte da resistência era Maria Antonieta, que, fazendo de sua desdita um trono fulgurante para sua personalidade, afronta impávida, enorme, diante do sofrimento, armada apenas com a couraça sublime da fé e da resignação cristã, a onda que ia submergir a França. Até o último momento, esta soberana quis salvar seu trono, não por interesse pessoal, mas por amor ao princípio monárquico. E isto ela o fez sem vacilar, encorajando a todos, e nunca desesperando, mesmo quando a população a arranca das Tulherias, onde estava detida, e a conduz, ao som dos clamores e apupos da plebe, à sombra mortal da lúgubre prisão do Templo, mesmo quando é obrigada a ver, transida de horror e de remorso, a cabeça da denodada Princesa de Lamballe, de olhos vazados, cabeleira empoada e salpicada de sangue, e lábios lívidos, introduzida na ponta de uma haste, entre as grades da janela de sua masmorra, como testemunho da morte atroz e imerecida de sua melhor amiga.

Eis, senhores, sua tortura de Rainha. Foi completa, nada faltou, e tudo ela suportou com calma e resignação, arrancando, de quando em vez, brados de admiração de seus próprios adversários.

Como esposa, Maria Antonieta sofreu o maior dos martírios. Seu marido, ao qual ela dedicava todos os sentimentos de uma esposa católica exemplar, depois de ser alvo das mais cruéis afrontas, foi, enfim, arrastado a uma morte gloriosa para os pósteros, mas que parecia então absolutamente deprimente. De sua prisão do Templo, ouviu Maria Antonieta, certamente, o rufar dos tambores anunciando que a Convenção Nacional, em nome da igualdade, destruía o inocente representante da realeza, em nome da liberdade o impedia de se despedir, à beira do túmulo, de seu povo a quem muito amara, e em nome da fraternidade lhe iria tirar a vida na guilhotina.

Mas, senhores, foi a mãe que, em Maria Antonieta, sofreu as mais horrorosas torturas. Quando a Convenção foi separar Maria Antonieta de seu filho, esta, durante duas horas, cobrindo com seu corpo o do inocente principezinho, lutou contra o brutal sapateiro Simon e seu bando sinistro, só abandonando o filho quando, de todo em todo, lhe faltaram forças para resistir. Longos foram os meses da separação. Só, terrivelmente só, presa à vista em um quarto horrível da prisão do Templo, a infeliz mulher tinha como consolo único, e aliás poderoso, sua oração. Até hoje, conserva a França seu livro de Missa, sobre o qual caíram, com certeza, as lágrimas amargas daquela mãe que, no auge da infelicidade e do abandono, soube sempre agradecer a Deus o desamparo em que se encontrava.

Finalmente, foi ela processada pelo “Comité de Salut Public”, por trair a pátria, por ser uma nova Catarina de Médicis, por ser má esposa e mãe (…).

Guilhotina móvel

No processo, culminou o seu padecimento. O seu filho, embrutecido pelo álcool, tornou-se um verdadeiro animalzinho, que tinha como único e constante sentimento o medo. Imagine-se a cena: sobre um estrado, sentados os algozes que, no processo, se intitulavam juízes. Numa série de bancos, meia dúzia de indivíduos repugnantes, cheirando a álcool, desempenhavam o papel de jurados. A Rainha, magra, em uma longa roupa preta, de cabelos brancos inteiramente, velha na sua mocidade abatida e triste, entra com toda a majestade de sua decadência ainda altiva, ainda bela, e sempre digna e invencível, nesta jaula onde sua reputação e seu coração de mãe vão ser estraçalhados pelas feras mais desalmadas da História francesa. O interrogatório começa brutal, felino, perverso. A Rainha, ou responde com dignidade, ou se cala, desdenhando com seu silêncio a infâmia de certas acusações. Eis que é introduzido na sala o príncipe herdeiro dos tronos de França e de Navarra. Calçado de toscos tamancos, com um boné frígio na cabeça, um ar embrutecido e tristonho de quem, há muito, padece todos os horrores da barbaridade de um carrasco como Simon, e com a fisionomia estúpida dos alcoólatras inveterados, com uma voz chorosa, lança contra a mãe as maiores injúrias. Eis, senhores, o cúmulo do sofrimento. A cena, horripilante em si, dispensa comentários. Dir-vos-ei somente que a Rainha, num brado magnífico de coração de mãe ulcerado pela mais atroz das dores, lança, na eloqüência de sua alucinação, no horror de seu padecimento dantesco, um apelo a todas as mães presentes, perguntando-lhes se acreditam nas injúrias do menino. E, como se a natureza humana, no fundo daqueles corações de megeras, comprimida por muito tempo, explodisse enfim, foi na sala uma chuva de aplausos, e um delírio de entusiasmo daquele povo que fora ao tribunal para assistir feroz ao desenrolar do processo, toma-se subitamente de um formidável entusiasmo por sua vítima, e Maria Antonieta, no banco dos réus, no auge da ignomínia recebe uma formidável e sincera ovação de seus algozes. Que dizer, senhores, deste lance histórico?

"Última Comunhão da Rainha Maria Antonieta" - Óleo de Michel-Martin-Drolling. 1816 - Capela Expiatória, Conciergerie Paris

Veio, enfim, a morte. Deus, na sua imensa bondade, preparara no Céu o lugar digno daquela que tanto tinha sofrido, amando-O mais quando lhe enviava penas, do que na plenitude de seus prazeres. No dia 16 de outubro de 1793, cessou seu longo martírio, na guilhotina cuja lâmina, ao mesmo tempo criminosa e caridosa, cortou o fio de sua extraordinária existência.

Assim terminou a soberana mártir, cuja história lembra um minueto delicado e palaciano cujas notas harmoniosas fossem bruscamente abafadas pelo rugido pavoroso de uma horrenda farândola revolucionária.

 

(Discurso do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira na Academia Mariana em São Paulo – 1928)

Share
{ 0 comments }

Plinio Corrêa de Oliveira

Familia de José, Duque de Saxe-Altenburg

Um fator de hostilidade contra as elites tradicionais está no preconceito revolucionário que qualquer desigualdade de berço é contrária à justiça. Admite-se habitualmente que um homem possa destacar-se pelo seu mérito pessoal. Näo se admite, porém, que o fato de proceder de uma estirpe ilustre seja para ele um título especial de honra e de influência. A este respeito, o Santo Padre Pio XII nos dá um precioso ensinamento:

“As desigualdades sociais, inclusive as ligadas ao nascimento, säo inevitáveis. A natureza benigna e a bênçäo de Deus à humanidade iluminam e protegem os berços, osculam-nos, porém näo os nivelam”(1)

Essa frase é magnífica. Deus ama todos os berços, mas näo os nivela. Ele ama todos os recém-nascidos, mas Sua bênçäo näo os iguala. Ele näo deseja que sejam iguais, Ele quer a desigualdade oriunda, inclusive, das diferenças de estirpe. É claro que tais desigualdades desejadas pelo Criador devem ser harmônicas e proporcionadas.

A frase do Pontífice é preciosa para quem empreende a defesa da nobreza do ponto de vista da religiäo católica, segundo o ensinamento da Igreja.

Por outro lado, a frase é muito prudente. Pio XII tem noçäo da força do preconceito que ele deve enfrentar e por isso quer deixar bem claro que Deus ama a todos. A frase é muito característica de carinho, mas no fundo afirma: näo nivela.

E mais adiante ele prossegue: “Uma mente instruída e educada de modo cristäo näo pode considerar tais desigualdades senäo como disposiçäo desejada por Deus, pela mesma razäo que Ele quis as desigualdades no interior da família, e portanto destinadas a unir mais os homens entre si na viagem da vida presente para a pátria celeste, uns ajudando os outros do mesmo modo que um pai ajuda a mäe e os filhos” (2).

Portanto, näo é possível considerar essas desigualdades de berço senäo como algo desejado por Deus.

Deus ama as desigualdades a tal ponto que na sociedade primeira, a mais elementar, que é a família, Ele a dispôs de tal maneira que ela é desigual por essência. E por isso mesmo a sociedade maior, que é um tecido de famílias, também é desigual. É nesse espírito familiar que as desigualdades devem existir.

O verdadeiro sentido do paternalismo

A glória cristä das elites tradicionais consiste em servir näo só à Igreja, mas também ao bem comum. A aristocracia pagä ufanava-se exclusivamente de sua ilustre progênie. A nobreza cristä acrescenta, a esse título, outro ainda mais alto: o de exercer uma funçäo paternal junto às outras classes. Exemplos típicos dessa aristocrática bondade de trato encontram-se em muitas famílias nobres, que sabem ser eximiamente bondosas para com seus subordinados, sem consentir de modo algum que seja negada ou aviltada sua natural superioridade.
Isto passou a ser denegrido pelos revolucionários como coisa vil, designada por um termo a que deram um falso sentido pejorativo: paternalismo.

Antes era prestigioso dizer que um diretor ou proprietário de fábrica exercia uma influência paterna sobre seus operários. Atualmente é considerado como algo sumamente rejeitável, pois, segundo o jargäo revolucionário, os operários têm seus direitos, näo por uma bondade paterna do proprietário, mas conquistados por sua força. Seria o mesmo dizer que os filhos nada recebem por amor e bondade do pai, mas porque têm seus direitos próprios.
Ora, segundo a tradiçäo católica, até os grandes homens que servem ao bem comum têm funçäo paterna. Eles säo os pais da pátria, os patrícios – como os denomina Pio XII neste sentido da palavra – que exercem dignamente seu papel de nobres defendendo o bem comum na guerra ou na paz, em todas as ocasiöes da vida.

A natureza benigna e a bênçäo de Deus à humanidade iluminam e protegem os berços, osculam-nos, porém näo os nivelam

Quando uma família é verdadeiramente católica, ela forma hábitos que só se alteram em condiçöes especiais, muito delicadas.

Assim, tende ela a permanecer morando na mesma casa durante várias geraçöes, com os retoques e adaptaçöes que se fizerem necessários. Mas essencialmente é a mesma casa. Do mesmo modo, os melhores objetos da residência säo mantidos na mesma família de geraçäo em geraçäo.

Na maneira de se tratarem e viverem, os membros de uma família väo formando hábitos, que säo uma expressäo da virtude existente na família. Tudo aquilo que adquire uma certa continuidade se prende à realidade por vínculos às vezes imperceptíveis, notados apenas quando há mudança e se percebe que foi errado mudar.

Porque continuar é algo análogo a viver e mudar é algo análogo a morrer. Assim como os hábitos sadios de uma família devem permanecer, também as leis justas de um país, salvo grave necessidade, näo devem ser mudadas. Porque alterá-las é contra a sabedoria, uma vez que a natureza é conservadora e procura conservar o mais possível todas as coisas.

Como ensina Santo Tomás de Aquino: “Só se modifica retamente a lei quando mediante esta mudança se contribui para o bem comum. Porém, a simples mudança de uma lei já é, em si mesma, um prejuízo para o bem comum” (Suma Teológica, I-II, q.97, a.2,c).

Santa Isabel da Turíngia distribui esmolas aos pobres

Portanto, tendo em vista o bem comum, só em circunstâncias muito graves se justifica a mudança de uma lei.

E continua o Doutor Angélico: “Porque o costume contribui muito para o cumprimento das leis, a tal ponto que se consideram graves todas as coisas estabelecidas contra os costumes, apesar de em si mesmas serem leves. Por isso, quando se modifica uma lei seu poder coativo fica diminuído, na medida em que impeça o costume”.

Assim, o costume contribui para o cumprimento de uma lei. Se uma lei antiga, venerável, que sempre se cumpriu, é abolida para ser instituída outra, a lei nova näo terá a seu favor o costume e poderá ser mal cumprida ou näo cumprida. Como o costume deita raízes no povo, a lei nova, pelo simples fato de ser nova, já nasce fraca, porque o costume está jogando sua força contra ela.

E conclui Santo Tomás: “Daí que näo se deva modificar a lei humana, a näo ser que, por outro lado, haja uma compensaçäo equivalente para o bem comum, correlativa à parte derrogada da lei. E isto acontece: ou porque da nova disposiçäo legal se tira um proveito muito grande e notório, ou em caso de extrema necessidade, ou porque a lei vigente continha manifesta iniqüidade e o seu cumprimento era sumamente nocivo. Por isso diz o Jurisconsulto que, tratando-se de estabelecer novas normas, a sua utilidade deve ser evidente, para que seja justificado o abandono daquilo que durante muito tempo foi considerado como eqüitativo”.

Portanto, para que o povo se resigne a uma lei nova, é preciso que a utilidade dessa mudança seja evidente, porque näo se tira o povo de um costume já estabelecido. Isto é tradiçäo.

Poder-se-ia objetar que este tema fica um pouco à margem da nobreza. Mas isto näo se dá. A nobreza, mais que as outras classes sociais, é a mantenedora dos costumes, das tradiçöes. Ela vive da tradiçäo, ela lembra um passado, e um passado que ela faz continuar no presente. Esta é a sua força.

___________________________________

Nota (1) Alocuçäo ao Patriciado e à Nobreza romana em 5 de janeiro de 1942, Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità Pio XII, Tipografia Poliglotta Vaticana, pp. 345-349.

Nota (2) (Idem, ibidem)

Nota da redação:
Excertos de conferência pronunciada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 23-11-1992, na capital paulista, comentando, a pedido destes, a obra de sua autoria Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana (Editora Civilização, Porto, 1992). Sem revisäo do autor.
(Revista “Catolicismo” – agosto 1998)

 

www.catolicismo.com.br

Share
{ 0 comments }

A igualdade não tem outra existência que a de seu nome

Poucas coisas existem simples como a desigualdade. Poucas complicadas, torcidas e equivocadas, como o igualitarismo.

Neste mundo sem dogmas e sem religião, o igualitarismo é uma espécie de “dogma”. Para os igualitários, as desigualdades são como as doenças: não se consegue evitá-las completamente, mas é preciso afastá-las o quanto for possível.

Verdadeiro ou falso? Falso! Como se lê no livro Nobreza e Elites Tradicionais análogas”, de Plinio Corrêa de Oliveira. E inclusive a sabedoria imemorial de todos os povos rejeita essa concepção igualitária.

A falta de espaço impede uma explanação metódica e completa sobre o tema das desigualdades, como a faria Dr. Plinio, considerado “o teólogo das desigualdades sociais”. Ouçamos, entretanto, em breves sentenças o eco da sabedoria dos povos e dos milênios, sobre este asssunto.

* O velho Eurípedes afirmava que a igualdade não tem outra existência que a de seu nome;

* Plutarco observava que a distância de animal a animal de espécies diversas não é tão grande quanto a que vai de homem a homem.

* Constatam os árabes que até os cinco dedos da mão não são iguais.

* Os alemães, de seu lado, recomendam a quem procura a igualdade, que vá ao cemitério.

* Dizem os indianos: “entre os homens, uns são jóias, outros pedregulhos”.

* Com espírito, acrescentam os turcos: “os cisnes pertencem à mesma família que os patos, só que eles são cisnes”.

Cisnes e patos pertencem à mesma familia

* Os gregos sentenciam: “Se o sol não existisse, seria noite apesar da presença de todas as estrelas”.

* Vauvenargues remata: “A natureza nada fez de igual; sua lei soberana é a submissão e a dependência”.

E cada leitor pode acrescentar suas observações, pois até duas gotas de água da chuva que caem numa vidraça são desiguais. Se isso é assim, é porque Deus quis que assim fosse. Vamos, então, para as alturas! “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito”, ensinava Nosso Senhor.

O que concluir? Deus é o autor de todas as desigualdades e, respeitada a igualdade fundamental proveniente do fato de todos os homens terem a mesma natureza e os mesmos direitos fundamentais, devemos amar as desigualdades se queremos amar a Deus.

Bem… se isto for visto assim por muitos, será natural a formação de numerosas elites. Sim, de verdadeiras elites. De elites tradicionais. De elites autênticas. De cuja ausência, hoje tanto se ressente a sociedade brasileira.

Leo Daniele

Share
{ 0 comments }

São Luiz IX

 

Hélio Viana

 

Rei, estadista e cruzado. Cada época histórica tem um homem que a representa. Luís IX é o homem modelo da Idade Média: é um legislador, um herói e um santo… “Marco Aurélio [Imperador romano pagão] mostrou o poder unido à filosofia; Luís IX, o poder unido à santidade. Avantajou-se o cristão” (Chateaubriand, Estudos históricos).

Não surpreende muito que um homem, retirado num claustro e separado das ocasiões de pecado, domine as inclinações desregradas da natureza e progrida na prática das mais belas virtudes do Cristianismo. Mas que um príncipe, ao qual não se tem a liberdade de repreender nem contradizer, e que vivendo em meio às honrarias e às mais perigosas volúpias, domine suas paixões, conservando a inocência e a pureza de coração, é realmente admirável, podendo ser chamado um prodígio na ordem da graça.

Entretanto, aquilo que é impossível para as forças do homem, não o é para Deus. E se a História do Antigo Testamento nos apresenta muitas cabeças coroadas que souberam aliar a santidade com a autoridade soberana, e a qualidade de profeta à de chefe, de juiz e de rei, a História do Novo Testamento nos fornece um número bem maior em quase todos os reinos cristãos.

Nesse mês, dia 25, a Igreja nos propõe um príncipe, que podemos chamar de pérola dos soberanos, glória da coroa da França, modelo de todos os príncipes cristãos; e para dizer tudo em duas palavras, um Monarca verdadeiramente segundo o coração de Deus, da Igreja e do povo.

É o incomparável São Luís, quadragésimo Rei da França desde o início da monarquia, e o nono da terceira raça, da qual Hugo Capeto foi o tronco.

Seu pai foi Luís VIII, filho de Filipe Augusto, e sua mãe a princesa Branca, de quem os historiadores atribuem a glória de haver sido filha, sobrinha, esposa, irmã e tia de reis. Com efeito, seu pai foi Afonso IX, Rei de Castela, que infligiu aos mouros sério revés na batalha de Navas de Tolosa, quando mais de duzentos mil infiéis pereceram no campo de batalha; era sobrinha dos reis Ricardo e João, da Inglaterra; esposa de Luís VIII, Rei da França; irmã de Henrique, Rei de Castela; mãe de São Luís IX e de Carlos, Rei de Nápoles e da Sicília; e tia, através de suas irmãs Urraca e Berengüela, de Sanches, Rei de Portugal, e de São Fernando III, Rei de Leão.

Nasceu São Luís no Castelo de Poissy, a 30 quilômetros de Paris, no dia 25 de abril de 1215, quando em toda a Cristandade procissões solenes comemoravam o dia de São Marcos. Vivia ainda seu avô, Filipe Augusto, o qual acabava de ganhar a célebre batalha de Bouvines, oito anos antes de lhe suceder seu filho, o futuro Luís VIII.

A infância de São Luís foi um espelho de honestidade e sabedoria. Seu pai, que unia virtude e zelo pela religião a uma bravura marcial que lhe valeu o nome de Leão, foi particularmente zeloso na sua educação. Deu-lhe bons preceptores e um sábio governante: Mateus II de Montmorency, primeiro barão cristão; Guilherme des Barres, Conde de Rochefort; e Clemente de Metz, marechal-da-França, que lhe inspiraram os sentimentos que deve ter um rei cristianíssimo e um filho primogênito da Igreja.

Sua mãe, Branca, não poupou esforços para torná-lo um grande rei e um grande Santo, sobretudo após a morte de seu filho primogênito, Filipe. Ela lhe repetia com freqüência estas palavras, dignas de serem imitadas por toda mãe verdadeiramente católica: “Meu filho, eu gostaria muito mais ver-te na sepultura, do que maculado por um só pecado mortal”.

Com a morte prematura do Rei aos 40 anos, em 1226, na cidade de Montpellier, quando voltava da guerra contra os hereges albigenses, nosso Santo subiu ao trono, sob a tutela da mãe, tendo sido sagrado na Catedral de Reims em 30 de novembro daquele mesmo ano.

Sua minoridade foi pródiga em guerras intestinas, causadas pela ambição e orgulho de senhores feudais do reino, que desejavam valer-se da pouca idade do soberano para impor as suas pretensões. Mas Deus dissipou todas as facções por uma proteção visível sobre a pessoa sagrada desse jovem Monarca.

Uma minoridade tão conturbada serviu de ocasião para fazer reluzir a prudência, o valor e a bondade daquele que se tornaria um protótipo do Rei Católico.

Matrimônio abençoado por Deus

No dia 27 de maio de 1235, pouco depois de completar 20 anos, casou-se com Margarida, filha mais velha de Raimundo Béranger, Conde de Provence e de Forcalquier, e de Beatriz de Sabóia. Era uma princesa que a graça e a natureza haviam dotado de toda sorte de perfeições, e que lhe daria, ao longo de uma santa e harmoniosa existência, 10 filhos, cinco homens e cinco mulheres. Acompanhou ela o jovem esposo na sua primeira expedição além-mar, e após a morte deste, retirou-se no Mosteiro de Santa Clara, onde terminou seus dias em 20 de dezembro de 1285. Seu corpo, precedido e seguido por pobres, que a chamavam de mãe, foi enterrado em Saint-Denis.

Luís IX procurava acima de tudo tributar a Deus o serviço e a honra que Lhe eram devidos. Este lhe retribuía assistindo-o em todas as necessidades, aconselhando-o nos empreendimentos, protegendo-o dos inimigos e conduzindo a bom termo todas as suas iniciativas.

O segundo de seus filhos varões foi Filipe III, que lhe sucedeu no trono, e cujos filhos foram, por sua vez, Reis, até Henrique III. O caçula de São Luís foi Roberto de Bourbon, cuja descendência subiu ao trono francês durante nove gerações. Das filhas, com exceção de uma, falecida prematuramente, todas foram esposas de Reis.

Educação cristã dos filhos: modelo de pai

Ao contrário de outros Monarcas, que negligenciam a educação dos filhos, ou os deixam, sem maior preocupação, aos cuidados de governantes, São Luís chamava pessoalmente a si o cuidado de os instruir, imprimindo-lhes na alma o desprezo pelos prazeres e vaidades do mundo e o amor pelo soberano Criador. Ele os exercitava normalmente à noite, após as horas Completas, quando os fazia vir a seu quarto a fim de ouvir as suas piedosas exortações. Ensinava-lhes, além disso, a rezar diariamente o Pequeno Ofício de Nossa Senhora, obrigava-os a assistir às Missas de preceito, e  incutia-lhes a necessidade da mortificação e da penitência. Às sextas-feiras, por exemplo, não permitia que portassem qualquer ornamento na cabeça, porque foi o dia da coroação de espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ainda hoje existem os manuscritos das instruções por ele deixadas à sua filha Isabel, Rainha da Navarra: são tão santas e cheias do espírito de Nosso Senhor, que nenhum diretor espiritual, por mais esclarecido que seja, seria capaz de apresentar outras mais excelentes.

São Luiz Rei e Cruzado.

O governante: justiceiro e moralizador dos costumes

Se São Luís soube educar tão bem os filhos, foi entretanto ainda mais admirável em governar os negócios públicos. Nunca a França experimentou tanta paz e prosperidade como em sua época. Enquanto as outras nações, em todas as latitudes, estavam em convulsão, os franceses por ele governados gozavam de uma feliz tranqüilidade, assegurada pela sabedoria do Monarca. Ele soube banir do Estado, através de sábias leis, todos os desregramentos então existentes. O primeiro deles foi a blasfêmia e os juramentos ímpios e execráveis. Foram tão rigorosas as punições contra eles estipulados, que o Papa Clemente IV julgou dever atenuá-las.

Outros desregramentos que se esforçou em exterminar foram os duelos, os jogos de azar e a freqüentação a lugares de tolerância. Antes de São Luís, nenhum Rei havia proibido os duelos: toleravam-no, e às vezes o ordenavam, a fim de se conhecer o direito das partes; o que importava  meio enganoso e contrário aos preceitos da justiça.

Modelo em tudo para os homens públicos de todos os tempos e sobretudo de nossos dias, Luís IX o era de modo especial no tocante à boa administração dos bens do Estado e ao exímio cumprimento da lei. Assim, por exemplo, quando enviava juizes, oficiais e outros emissários às províncias para ali exercerem durante algum tempo Justiça, proibia-lhes de adquirir bens e empregar seus filhos, com receio de que isso pudesse ensejar a que viessem cometer injustiças.

Nomeava, acima deles, juizes extraordinários para examinar sua conduta e rever seus julgamentos, a exemplo de Deus, que assegura que julgará a Justiça. E se por acaso encontrava que em algo haviam agido mal, impunha-se primeiramente a si mesmo uma severa penitência, como se tivesse sido o culpado pelo excesso praticado por eles, e em seguida ministrava-lhes severa punição, obrigando-os a restituir o que haviam tomado do povo, se fosse esse o caso, ou a reparar aqueles que haviam sido condenados injustamente. Pelo contrário, quando tomava conhecimento de que haviam cumprido dignamente os seus deveres, recompensava-os regiamente e os fazia ascender a funções mais honrosas.

Além de administrar Justiça, não negligenciava o Santo Monarca o cuidado dos pobres.

Zelo pela ortodoxia e piedade

Se foi notório seu zelo em extirpar a libertinagem no reino de França, o que dizer de seu empenho em relação ao extermínio da heresia e ao estabelecimento da Fé e da disciplina cristã? Para isso tomou-se de grande afeição pelos religiosos de São Domingos e de São Francisco, a quem ele via como instrumentos sagrados dos quais a Providência queria se servir para a salvação de uma infinidade de almas resgatadas pelo precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele os convidava com certa freqüência para jantar, sobretudo São Tomás de Aquino e São Boaventura, dois luzeiros a iluminar o firmamento da Santa Igreja a partir da Idade Média.

Um dos traços em que a religiosidade desse grande Monarca mais se manifestou foi a aquisição, junto a Balduíno II, Imperador de Constantinopla, da Coroa de Espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a qual mandou edificar essa verdadeira maravilha da arquitetura gótica que é a Sainte-Chapelle, no coração de Paris.

Voto de cruzar-se: realiza-se a VI Cruzada

Deus, quando suscita numa alma um grande desejo, fá-la não raro passar por uma grande provação antes de atendê-la. Foi o que sucedeu com São Luís, que em 1245 caiu gravemente enfermo, a ponto de alguns terem como certa sua morte. Nessa contingência os franceses, que o amavam como a um pai, fizeram violência ao Céu, organizando vigílias, procissões e outros atos de piedade pela sua convalescença. O Monarca fez então um voto: caso sobrevivesse, partiria para libertar o Santo Sepulcro.

Cumpriu-o três anos depois, ao partir para Lyon, onde se encontrou com o Papa Inocente IV, de quem recebeu a bênção apostólica. Dirigiu-se em seguida para Aigues-Mortes, onde o aguardavam as embarcações que deveriam conduzi-lo com os cruzados ao Oriente. Era o dia 25 de agosto de 1248, data em que se iniciava a VI Cruzada da História.

As naus tocaram inicialmente a Ilha de Chipre, onde o Monarca se viu obrigado a permanecer durante o inverno, devido a uma peste que arrebatou a sexta parte de seu exército. Sua demora e essas perdas foram contudo de algum modo recompensadas pela conquista do Rei de Chipre, a quem São Luís conseguiu convencer de juntar-se à expedição.

Reencetou o Santo Cruzado a sua expedição no dia 13 de maio de 1249, à frente de uma formidável armada de 1800 embarcações, grandes e pequenas. Entretanto, devido às tempestades, mais da metade delas desviou-se da rota. De sorte que, ao passar em revista suas tropas, encontrou apenas 700 cavaleiros, dos 2800 de que se compunha seu exército.

De batalha em batalha; vitorioso numas e com reveses em outras; passando por humilhações pelos pecados de seus soldados ou por honrarias em pleno cativeiro (os emires do Egito quiseram elegê-lo Sultão!); sendo informado do nascimento de um dos filhos em Damiette, em plena época de negociação com os algozes, e do falecimento de sua bondosa mãe, a Rainha Branca, na França; enfrentando pestes e naufrágios, retomou o Rei-Cruzado, em 25 de abril de 1254, festa de São Marcos, o caminho da doce França, onde aportou no dia 19 de julho do mesmo ano. Em 5 de setembro encontrava-se no Castelo de Vincennes, e no dia seguinte entrava solenemente em Paris.

Seu regresso foi acolhido com eloqüentes manifestações de dileção do Papa Clemente IV e de Henrique III, Rei da Inglaterra.

Provações e santa morte do Rei Cruzado

São Luiz IX representado em uma miniatura

Decidiu então o Santo lançar uma VII Cruzada, a última da História, para a qual se apresentaram seus filhos e Ricardo, Rei da Inglaterra, além de numerosos príncipes e senhores. Após terem sido tomadas todas as providências, partiram em direção a Túnis, no dia 4 de julho de 1270.

Mais uma vez no mar, e eis que outra grande tempestade dispersa as embarcações, fazendo com que muitas sejam impedidas de partir. São entretanto reparadas e chegam todas a Túnis. Mas o rei daquelas terras, bárbaro, traidor e infiel, que havia chamado São Luís à África dizendo que queria tornar-se cristão, sequer permitiu que sua armada descesse. O embate começou então ali mesmo, com os franceses assediando vários pontos nevrálgicos dos infiéis e a própria capital. Como esta resistisse, decidiram dominá-la cortando os víveres.

Mas a decomposição da cidade atingiu o exército francês, que  foi logo empestado por todos os lados, ceifando inúmeras vidas. São Luís viu morrer seu filho Jean Tristan, nascido por ocasião do seu cativeiro no Egito, e pouco depois ele mesmo entregaria serena e santamente sua bela alma a Deus, o que se deu no dia 25 de agosto de 1270, precisamente 22 anos após sua partida para a VI Cruzada.

As relíquias de São Luís foram levadas para a França por seu filho Filipe, com exceção das entranhas, destinadas à Abadia de Monreale, na Sicília, a pedido do Rei Carlos, irmão do Santo Monarca. O resto de seu corpo repousa na Abadia de Saint-Denis. Seu culto foi juridicamente examinado e aprovado pelo Papa Bonifácio VIII, que o canonizou em 1297.

Fonte de referência:

Les Petits Bollandistes, Vie des Saints, Typographie des Célestins, ancienne Maison L. Guérin, 1874, t. V, p. 192 a 217, Bar-le-Duc.

www.catolicismo.com.br

Share
{ 0 comments }

 Plinio Corrêa de Oliveira

 

Enrique Florido Bernils (Málaga, Espanha, 1873-1929)

Esta pintura representa uma caravela que está saindo da laguna de Veneza e demandando o mar.

A água aparece num colorido muito matinal — um azul ligeiramente esverdeado, que lembra uma pedra preciosa. Por detrás, em contraste com a serenidade matinal do mar, nota-se uma acumulação de nuvens ainda luminosas, mas que significam um porvir que vai ser borrascoso para a caravela. Mas a nau parece dirigir-se ao mar toda enlevada e com a tripulação inconsciente do perigo que representam essas nuvens. As velas enfunadas parecem exprimir o desígnio humano de navegar na esperança de uma travessia bem sucedida, da alegria da viagem, da mudança, do lucro e do risco.

A cena representa mil aspetos nobres da alma humana que passo a definir.

Um deles é o de uma mobilidade leve e decidida, rumo ao desconhecido, que simboliza a coragem e o destemor.

Outro aspecto patenteia-se na altura do mastro central — soberano em relação ao mar —, como quem afirma: “Eu te vejo de cima e tu não me engolirás!”

Ainda outro: uma aparência de saudades marca a cena. A caravela não está saindo apressadamente. Ela parece estar manifestando um discreto “adeus” à terra que fica para trás.

E, por fim, a ameaça de borrasca no fundo parece dizer: “Aqueles que se encontram navegando, estão com suas almas decididas a todos os riscos”.

_____________________________________________________________________
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 6 de outubro de 1984. Sem revisão do autor.

 

 

www.catolicismo.com.br

 

Share
{ 0 comments }

Imperatriz Maria Teresa d'Austria. Óleo de Martin van Meytens (1695–1770)

 

Tendo ao colo o filho que se tornaria o imperador José II, a imperatriz Maria Teresa passeava a pé pelas ruas de Viena e encontrou uma mulher pobre com o filho ao colo. A criança estava muito magra, e a imperatriz penalizada deu à mãe uma moeda.
– O que poderei fazer com uma moeda de ouro, senhora? Meu filho caminha para a morte porque lhe falta o leite, pois o meu seio secou.
A imperatriz tomou a criança nos braços e lhe ofereceu o próprio seio, só devolvendo-a depois de estar saciada.

Maria Teresa acompanhava pessoalmente a construção do palácio de Schönbrunn. Um dia encontrou um bando de meninos que brincavam de modo perigoso, escalando o muro com o risco de cair e fraturar até mesmo o pescoço. Mandou chamar o chefe dos garotos e ordenou que lhe aplicassem alguns açoites. Muitos anos depois, quando assistiu a um concerto em sua homenagem, foi-lhe apresentado o maestro e compositor Joseph Haydn.

– Mas eu já vos conheço. Onde será que vos vi?
– Majestade, a vossa lembrança está relacionada com uns açoites que mandastes aplicar-me.
– Ah, bem! Lembro-me daqueles açoites. Mas era só para impedir-vos de quebrar o pescoço. E podeis ver agora que agi bem.

Frederico II entrou com seu exército na Silésia. Mandou seu embaixador em Viena propor a Maria Teresa a paz em troca de ceder-lhe aquela região, e recebeu a altiva resposta:
– Enquanto permanecer um único homem dele no meu território, preferirei morrer a tratar com ele.
Depois de conquistar outras praças, Frederico voltou a fazer-lhe a proposta e obteve nova recusa:
– Eu defendo os meus súditos, não os vendo.

 

Castelo de Schonbrunn. Foto: Andrea Schaufler

Discutia-se entre a Prússia, a Rússia e a Áustria a divisão da Polônia. A imperatriz Maria Teresa afirmou:
– Toda repartição é iníqua. Só posso deplorar essa proposta e declarar que tenho vergonha de mostrar-me em público.
Quando os ministros lhe fizeram notar que os seus escrúpulos poderiam ser interpretados como sinal de fraqueza, ela contestou:
– É melhor passar por fraca do que por desonesta.

 

(´A VOLTA AO MUNDO DA NOBREZA´, de Leon Beaugester. Editora Artpress. Fatos historico, eventos, curiosidades)

Share
{ 0 comments }

Santo Henrique é coroado imperador

 

Santo Henrique, duque da Baviera e imperador do Sacro Império, foi educado por São Volfgango. Modelo de governante católico, empenhou-se na propagação da Fé, tendo papel de grande importância para a conversão de seu cunhado Santo Estêvão, rei da Hungria. Procurou restaurar, conforme a espiritualidade de Cluny, o espírito monástico então decadente, sendo nesse ponto aconselhado por Santo Odilon, abade de Cluny.

Santo Henrique e Santa Cunegundes

Foi casado com Santa Cunegundes, vivendo ambos em perfeita continência. Depois do falecimento de Santo Henrique, ela foi terminar seus dias num mosteiro que havia fundado.

 

 

Catedral de Bamberg, onde se encontram as reliquias de Santo Henrique e Santa Cunegundes. Foto: Berthold Werner

 

http://www.lepanto.com.br/Hagio7.html

 

 

 

 

Share
{ 0 comments }