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Felipe Augusto, rei de França

 

Um bailio de Filipe Augusto, Rei de França, cobiçava a terra deixada por um cavaleiro morto. Uma noite, em presença de dois carregadores que ele tinha pago, fez com que o morto fosse desenterrado, perguntou se queria vender sua terra e propôs-lhe um preço. Naturalmente, o defunto nem se mexeu. Quem cala, consente. Em seguida, algumas moedas foram postas em suas mãos, e o defunto recolocado em seu caixão.

Com grande espanto, a viúva viu seus domínios usurpados e se dirigiu ao rei. Convocado, o bailio compareceu ladeado por suas duas testemunhas, que atestavam a realidade da venda.

Filipe Augusto percebeu que era trapaça. Levou para um canto um dos carregadores e lhe disse em voz baixa:
— Recita-me no ouvido o Padre-nosso.
Concluída a oração, o rei exclamou em alta voz:
— Muito bem!

O segundo carregador foi também convocado. Convencido de que seu companheiro denunciara a tramóia, apressou-se a dizer o que sabia. O bailio foi condenado.

(Funck-Brentano, “Ce qu’était un Roi de France”)

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Episódios familiares da antiga “SãoPaulinho”, revelam a vocação da cidade para um auge grandioso, numa sociedade aristocrática impregnada pelos princípios da Igreja Católica e pelo perfume da civilização européia

 

Dr. Eduardo: “A primitiva aldeia de São Paulo, pela atuação do Pe. Manuel da Nóbrega e do Pe. Anchieta, tornou-se um centro cultural incipiente. Era uma vida rude que exigia muita fibra. E nossos pioneiros a tiveram”

Esta revista não poderia ficar alheia à comemoração dos 450 anos da fundação de São Paulo, pois faz parte de sua história. Com efeito, foi aqui que nasceu o grupo de católicos militantes de escol formado por Plinio Corrêa de Oliveira. Diretor de “O Legionário” durante mais de uma década, Dr. Plinio tornou-o conhecido por toda a elite religiosa do País. Esse mesmo grupo, enriquecido por nova geração de jovens católicos, em sua maioria ex-alunos do Colégio São Luís, veio a constituir o núcleo inicial de redatores de Catolicismo e, mais tarde, a direção da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade – TFP.

Entre esses jovens encontrava-se Eduardo de Barros Brotero, trineto do Conselheiro José Maria de Avelar Brotero, primeiro lente dos cursos jurídicos instituídos por Dom Pedro I em 1827. Tanto os descendentes do Conselheiro Brotero quanto os ancestrais de Dr. Eduardo pelo lado materno pertenceram àquela sociedade que Dr. Plinio chamou de “nobreza da terra”, em seu livro Nobreza e elites tradicionais análogas. Ele está, portanto, bem situado para transmitir aos nossos leitores algumas recordações significativas da antiga “SãoPaulinho”.

*      *      *

Catolicismo — Neste aniversário da cidade de São Paulo, como o Sr. vê a transformação da aldeia, onde jesuítas contemporâneos de Santo Inácio foram ensinar os índios, em uma das metrópoles mais populosas do mundo?

Dr. Eduardo de Barros Brotero — Como a própria pergunta salienta, essa transformação foi enorme. Ela pode ser considerada sob vários ângulos. Um dos mais interessantes seria do ponto de vista social. A primitiva aldeia, pela atuação do Pe. Manuel da Nóbrega e do Pe. José de Anchieta, tornou-se um centro cultural incipiente. Naquele tempo não havia estradas, apenas trilhas de índios e os rios — no caso, o Tietê — que conduziam ao interior. Podem-se imaginar as dificuldades: a mata virgem, os invernos úmidos, as feras, as doenças… Era uma vida rude que exigia muita fibra. E nossos pioneiros a tiveram.

Mas aos poucos a vila se foi civilizando. Em 1765, chegava de Portugal para governar a capitania D. Luís de Sousa Botelho Mourão, o morgado de Mateus — gloriosamente conhecido como defensor e benfeitor do Bem-aventurado Frei Galvão na fundação do Convento da Luz. Foi o Morgado de Mateus que imaginou, anos depois, o serviço postal terrestre entre São Paulo e o Rio de Janeiro: assim os paulistas podiam enviar suas cartas aos cariocas… seis vezes por ano!

O primeiro censo revelou então que a cidade tinha 20.873 habitantes. Durante muito tempo, a vida social na cidade caracterizou-se pela nota patriarcal marcada pela simplicidade e até certa rusticidade. No meio rural, essa nota perdurou até o século XX.

 

Catolicismo — Haveria exemplos?

Da. Maria Paes de Barros

Dr. Eduardo — Sem dúvida. Meu trisavô, o Comendador Luiz Antonio de Souza Barros, possuía fazenda em Piracicaba, onde a família ia passar longas temporadas. Uma filha dele, minha bisavó, Da. Maria Paes de Barros, deixou memórias nas quais conta como eram feitas as viagens ao interior. Quando levavam crianças, as senhoras iam de bangüê — uma espécie de cabina de madeira, muito simples, carregada por quatro homens fortes a pé. Para ir a Campinas, a única hospedaria existente no caminho era a Estalagem da Ponte, situada à margem do rio Jundiaí. Minha bisavó a descreve e fala de seu proprietário: “o homem mais prazenteiro e popular”. Dizia que a maior parte dos viajantes, rumo ao interior, se acolhia à sua casa. Era conhecido como o Barão da Ponte. Quando lhe perguntavam por que decreto havia recebido o título, respondia, com a conhecida frase do Antigo Regime: “Pela unânime aclamação do clero, nobreza e povo!”.

Em seu livro, No tempo de dantes, essa minha bisavó narra: “Naquela noite na hospedaria, as meninas dormiam no chão e as manas acomodavam-se nas camas da alcova. Pela madrugada, a voz dos pajens pegando os animais e encilhando os cavalos vinha a todos despertar. Depois de pequena refeição, continuavam a jornada. Lá pela tarde a grande comitiva atra­vessava lentamente a cidade de Campinas, outrora pequena e silenciosa, com seus vastos casarões de fazendeiros ricos. Ao sair da cidade, passava-se pela vendinha situada à beira de um riacho. Se tivessem sido grandes as chuvas, a água transbordava, formando ali um grande lamaçal. Mau pedaço. Praguejavam os tocadores de bangüês. As senhoras, inquietas e medrosas, moviam-se cautelosamente para evitar os espirros de lama. Como a fazenda ficava a pequena distância da cidade, dali a pouco estavam chegados, a gozar do descanso e do prazer de se acharem em casa após tão longa viagem”.

Catolicismo — Era tudo tão difícil assim?

“Em 1876 São Paulo ganhou seu primeiro palacete. Construiu-o Rafael Tobias de Aguiar Paes de Barros, segundo Barão de Piracicaba e cunhado de minha bisavó”

Dr. Eduardo — Sim, mas já começava a se delinear uma tendência a aprimorar a maneira de viver. Favorecida pelo sucesso da cafeicultura, São Paulo progredia rapidamente, a tal ponto que, em 1877, a cidade ganhou seu primeiro palacete. Construiu-o Rafael Tobias de Aguiar Paes de Barros, segundo barão de Piracicaba e cunhado de minha bisavó. O primeiro palacete paulistano era o que podia haver de mais suntuoso. O sobrado, construído ainda com paredes muito grossas, possuía um sem número de salões, salas e saletas pintadas de cores diferentes ou revestidas de papel, com pisos trabalhados em madeira ou mármore, e que estavam ricamente mobiliados com os costumeiros móveis de madeira e palhinha, mas também com móveis estilo Luís XVI, segundo a descrição de uma neta dos Barões de Piracicaba. Que diferença com a estalagem da Ponte!

Catolicismo — Diferença colossal! Tais exemplos são tão ilustrativos daquela época, que pergunto se o Sr. teria outros fatos desse tempo.

 

Para se ter uma idéia do tipo humano que essa sociedade destilou, seria preciso conhecer a esplêndida pintura de Dona Gabriela Ribeiro dos Santos, avó de Dr. Plinio. É um exemplo de senhorio, requinte e finura.

Dr. Eduardo — Os fatos narrados por minha bisavó já revelam a preocupação com a decoração interior das casas. Ela narra episódios familiares mostrando como era despretensiosa a vida naquela São Paulo de uns 25 mil habitantes. Mas também como já brotava nas gerações mais novas a apetência de algo melhor, que teve seu auge na Belle Époque. É a conclusão de quem ouve ou lê descrições da sociedade que se reunia em palacetes como o dos Campos Elíseos, o de Dona Veridiana Prado (atual Clube São Paulo) ou o do Conde Penteado, entre outros. Para se ter uma idéia do tipo humano que essa sociedade destilou, seria preciso conhecer a esplêndida pintura de Dona Gabriela Ribeiro dos Santos, avó de Dr. Plinio. É um exemplo de senhorio, requinte e finura.

Catolicismo — Que outros fatores contribuíram para tal aprimoramento?

 

Dr. Eduardo — Para responder, recorro ao comentário — a meu ver, muito pertinente — de uma autora, Julita Scarano, no livro Memórias da gente paulista. Ela, estudando memórias da aristocracia do café, observa que os fazendeiros primavam em possuir belas moradas, tanto rurais como urbanas. Ela discerne mesmo “um momento de intensa europeização” em que se manifesta a idéia da França como modelo. “É a época em que o fausto e o luxo passam a ter imenso valor”, em contraste com anteriores gerações “de grande pobreza”. “O café propiciou toda essa nova riqueza, e o desejo de emular as ricas moradas francesas influenciou na escolha do mobiliário e de objetos de prata e de cristais”, conclui a autora, notando ainda como tais memórias, embora destaquem a simplicidade dos costumes, “não deixam de mencionar uma busca de enobrecimento e o desejo de ostentar costumes requintados”.

Trata-se portanto da busca de certa perfeição, de certo estilo de vida, um sonho de aprimoramento e requinte que veio como conseqüência da riqueza proporcionada, primeiro, pelo café; posteriormente, por uma indústria incipiente.

Catolicismo — O “sonho”, portanto, era de inspiração européia?

Dr. Eduardo — Sim. A vida paulistana era calma, pausada, cerimoniosa, muito influenciada pelo ambiente rural. O contato com a vida do campo em geral aguça o bom senso, mas pode embrutecer um tanto e acanhar os horizontes. A sociedade de São Paulo soube defender-se disso, haurindo o que havia de melhor da cultura européia. À medida que as famílias brasileiras foram se enriquecendo, passaram a enviar os filhos para estudar em Coimbra, Paris e outros lugares. Por outro lado, muitos europeus vieram para o Brasil: modistas, comerciantes, relojoeiros, médicos, engenheiros, etc.

Em determinado momento, as melhores famílias passaram a contratar governantas de origem francesa, alemã ou inglesa para educar seus filhos. Mas o gosto francês preponderou no estilo de vida e nas modas. Por exemplo, a Força Pública de São Paulo — hoje Polícia Militar — , como o Exército, teve formação militar francesa. A esse respeito, nada mais conclusivo que o comentário do chefe de governo francês Georges Clemenceau, depois de sua visita ao Brasil em 1911. Consta em suas Notes de Voyage dans l’Amérique du Sud – XIII, na revista francesa “l’Illustration”:

“A cidade de São Paulo é tão curiosamente francesa em alguns de seus aspectos, que durante toda uma semana não tive a sensação de me encontrar no estrangeiro. […] A sociedade paulista […] apresenta o duplo fenômeno de se orientar resolutamente para o espírito francês e de desenvolver paralelamente todos os traços de individualidade brasileira que determinam o seu caráter. Tende por certo que o paulista é paulista até o mais fundo de sua alma, paulista tanto no Brasil como na França ou em qualquer outro lugar”.

A influência francesa só desapareceu depois da I Guerra Mundial, quando o american way of life, difundido pelo cinema de Hollywood, triunfou em todo o Ocidente. Time is money triunfou sobre a douceur de vivre.
Catolicismo — Como se manifestava essa “doçura de viver”?

Almoço no Parque da Cantareira (1910). No primeiro plano, da esquerda para a direita, na 2ª e 3ª posições: Gustavo e Georgina Paes de Barros (ele filho de Dª Maria Paes de Barros), avós maternos de Dr. Eduardo

Dr. Eduardo — Ainda conheci confeitarias, salões de chá, casas de família, onde o ambiente, a culinária, a conversação, a gentileza lembravam a amenidade de outros tempos. Ouvi também muitos fatos na mesma linha, contados por Dr. Plinio Corrêa de Oliveira. Nascido em 1908, ele conservava entre suas melhores recordações de infância os passeios ao Jardim da Luz e ao parque Antarctica, em companhia da irmã e de uma prima, sob a vigilância de uma governanta alemã. Nesses passeios, as crianças entregavam-se a toda sorte de distrações inocentes que culminavam nas delícias de uma confeitaria, se merecessem o prêmio pelo bom comportamento.

Por ocasião do Natal, sua mãe Da. Lucilia levava as crianças às lojas de presentes para escolherem o que iriam pedir. Duas lojas importavam brinquedos maravilhosos e muito formativos: a Casa Lebre e a Casa Fuchs. Encantadas com os brinquedos, as crianças indicavam facilmente os seus pendores. Os brinquedos e contos de fadas de então nada tinham a ver com os de hoje. Eram realmente belos e contribuíam para a formação do caráter.

A vida social, o teatro, as reuniões de família constituíam para os adultos a douceur de vivre. O Teatro Municipal, inspirado no Opéra de Paris e inaugurado em 1911, dá uma idéia do nível cultural do começo do século XX, em que toda pessoa de elite falava francês, inglês ou alemão. Ali se representavam as melhores óperas italianas ou peças clássicas da Comédie Française. Até a década de 1950 as apresentações de bom nível eram freqüentes. Depois escassearam.

Catolicismo — Aquela “SaoPaulinho” era uma cidade mais humana.

Bangüê de Da. Felicíssima de Souza Barros, trisavó de nosso entrevistado

Dr. Eduardo — Sobretudo, mais cristã, mais católica. Minha bisavó considerava a pequena São Paulo de sua infância “monótona, calma e simples, com hábitos um tanto feudais e aparência medieval”. O que ela chamou de “feudal” e “medieval”, talvez num sentido pejorativo, era no entanto uma realidade profunda, positiva. Porque essa sociedade que prezava o luxo ainda estava banhada de certa inocência. Por isso, mesmo os pobres e escravos eram tratados com benevolência. A própria Dª. Maria Paes de Barros conta a cena da mãe extraindo um espinho do pé de um escravo, e como eram tratados os doentes. Era a caridade cristã e o perfume da Igreja Católica que impregnavam profundamente todos os aspectos da vida. É de se notar que essa sociedade era de tal maneira católica, que a virtude era praticada mesmo por aqueles que não professavam os princípios da Santa Igreja.

Catolicismo — Disso tudo, resta algo?

Dr. Eduardo — Infelizmente, é preciso dizer que pouco restou daquela época.

Catolicismo — Por quê?

Dr. Eduardo — Porque as pessoas foram abandonando a Santa Igreja. Aquela sociedade baseada nos princípios católicos como que se autodissolveu. Os princípios igualitários, o crescimento desordenado, o enriquecimento rápido e anorgânico, a luta de classes, a imoralidade modificaram completamente a fisionomia de São Paulo.

O marco dessa transformação, muito mais que a proclamação da República, foi a Revolução de 1930, que colocou Getúlio Vargas na presidência do País, inaugurando uma república populista que apoiava as mudanças sociais reclamadas pela esquerda. Já combalida economicamente pela formidável crise do café de 1929, a aristocracia rural, que liderava a sociedade paulista, perdeu-se no anonimato e no tumulto de uma São Paulo cada vez mais rica, mas cada vez mais diferente do que fora.

No entanto, um paulista houve que, recolhendo com amor o antigo e abençoado legado do Bem-aventurado Pe. Anchieta, seguindo os exemplos da virtude que distinguiu Frei Galvão, animado pela velha e sólida fibra dos bandeirantes, seus antepassados, resistiu! Contra ventos e tempestades, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira fundou em São Paulo a TFP, que combate a Revolução e propugna uma sociedade sacral e hierárquica baseada nos princípios perenes da doutrina católica. Além de sua luta intransigente, de seu trabalho infatigável, de sua ação vigorosa como pensador católico, Dr. Plinio deixou-nos em sua última obra, Nobreza e elites tradicionais análogas, o caminho a percorrer para uma autêntica restauração, não só da sua querida São Paulo, mas da Civilização Cristã no Ocidente.

 

 

Revista “Catolicismo” – Janeiro 2004

www.catolicismo.com.br

 

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Mons. Gaume define a Revolução: a vontade do homem contra a vontade de Deus

Autor francês estimado por Pio IX, Mons. Jean Joseph Gaume, assim definiu a Revolução numa célebre página:

“Se, retirando a máscara à Revolucao, lhe perguntardes: ‘Quem és tu?’ Ela vos dirá:

‘Eu não sou aquilo que as pessoas pensam de mim. De mim, muitos falam, mas poucos me conhecem. Eu não sou o carbonarismo, que conspira na sombra, nem a rebelião que brame nas ruas, nem a mudança da Monarquia em República, nem a substituição de uma dinastia por outra, nem a momentânea convulsão da ordem pública. Nao sou os urros dos Jacobinos, nem os furores da Montanha, nem os combates das barrricadas, nem as pilhagems, nem os incêndios, nem a lei agrária, nem a guilhotina, nem os afogamentos. Não sou Marat, nem Robespierre, nem Babeuf, nem Mazzini, nem Kossouth. Todos estes são meus filhos, mas essa não sou eu. Todas estas coisas são obra minha, mas não sou eu. Todos estes homens e todas estas coisas são fatos transitórios, e eu sou um processo permanente.

A Revolução quer colocar encima, aquele que, segundo a lei eterna, deveria estar embaixo.

Eu sou o ódio contra toda e qualquer ordem social e religiosa que não seja estabelecida pelo homem e na qual ele não seja rei e deus ao mesmo tempo: eu sou a proclamação dos direitos do homem contra os direitos de Deus; sou a filosofia da revolta, a política da revolta, a religião da revolta; sou a negação armada; sou a fundação do Estado religioso e social sobre a vontade do homem, em lugar da vontade de Deus; numa palavra, sou a anarquia; porque quero ver Deus destronado e submetido ao homem. Eis o motivo por que me chamam Revolução, isto é, a desordem, porque eu coloco em cima aquele que, segundo a lei eterna, deveria estar em baixo; e ponho em baixo aquele que deveria estar em cima.”

 

 

(Pio IX – Roberto de Mattei – Livraria Civilização Editora, Porto)

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Busto de São Gregório VII na Catedral de Salerno. Foto: F.Saidl

O imperador Henrique IV levantou-se contra o Papa São Gregório VII. O príncipe pretendia ter poder sobre o Papa com base em sofismas e uma capciosa interpretação das Escrituras. Pretendia ainda, entre muitas coisas, ter poder para nomear bispos e destituí-los e até de depor o Sumo Pontífice.

São Gregório VII excomungou-o uma primeira vez. Sentido-se abandonado pelos seus, Henrique IV foi pedir a absolvição ao Papa que se encontrava a bom resguardo no castelo da condessa Matilde, na Toscana. O imperador destituído passou três dias na neve, vestido de saco, implorando o perdão.

Neste castelo, hoje em ruinas, o Imperador Henrique IV pediu perdão ao Papa. Foto: F.Saidl

Porém, seu coração era falso e São Gregório VII percebia. A Corte pontifícia e até a própria condessa Matilde não perceberam e intercederam por ele. No fim, o santo Papa achou melhor suspender a excomunhão.

De volta, na Alemanha, o imperador recomeçou tudo. Em conseqüência, São Gregório VII renovou a condenação no Concílio Romano, em 7 de março de 1080.

Foi a segunda excomunhão formulada nos seguintes termos, onde brilha a santidade da Igreja e a heróica força de alma de um digno Vigário de Jesus Cristo:

São Gregório e a Condessa Matilde. Foto: Reinhardhauke

“Ó São Pedro, chefe dos Apóstolos, e tu São Paulo, doutor das gentes, suplico-vos que presteis ouvidos e me escuteis com clemência; pois sois amantes discípulos da verdade, assisti-me para que eu Vos diga a verdade, limpa de qualquer mentira que Vós detestais, de maneira que meus irmãos melhor concordem comigo e saibam e compreendam que por confiança em Vós ‒ depois de Deus e de sua Mãe, Maria sempre Virgem ‒ eu resisto aos maus e aos iníquos…

“E posto que me ordenaste subir a um monte excelso para bradar em alta voz e apontar os pecados do povo de Deus as culpas dos filhos da Igreja, começaram a se insurgir contra mim os filhos do demônio, e premeditaram deitar a mão sobre mim até o sangue.

“Opuseram-se, com efeito, o rei da terra e os príncipes seculares e eclesiásticos, e ainda homens de corte e gente comum, uniram-se contra o Senhor e contra Vós, que sois seus ungidos, dizendo: ‘Rompamos seus grilhões e atiremos fora seu jugo’! E de mil maneiras tentaram lançar-se contra mim, para abater-me de vez com a morte ou com o exílio. (…)

“Confiante no juízo e na misericórdia de Deus e de sua Mãe piedosíssima, Maria sempre Virgem, e apoiando-me em vossa autoridade, excomungo e condeno ao anátema o mencionado Henrique, chamado rei, e a todos seus partidários.

O Imperador Henrique IV em Canossa

“Pela segunda vez, nego-lhe, da parte de Deus onipotente e vossa, o reino da Alemanha e da Itália, e tiro-lhe todo poder e dignidade real; nenhum cristão lhe obedeça como a um rei; e desobrigo do juramento todos aqueles que lho fizeram ou lho farão relativamente ao reino. Em nenhum caso o mesmo Henrique com seus partidários possua forças e jamais em vida obtenha vitória. (…)

“Apreendam agora o rei e todos os príncipes temporais quão grande Vós sois, e quanto podeis. E tenham medo de considerar como coisa mesquinha a ordem de vossa Igreja.

“E executai logo a vossa sentença em relação ao dito Henrique, de modo que todos saibam que ele cairá, não por acaso, mas por vosso poder. Seja coberto de confusão até fazer penitência, para que deseje o céu e seu espírito seja salvo no dia do Senhor.”

(Fonte: CASPAR, Epistolae in usum scholarum, Monumenta Germaniae Historica, II, p.483).
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Escudo do Papa Bonifácio VIII, quem proclamou a Bula UNAM SANCTAM

 

Una, santa, católica e apostólica: esta é a Igreja que devemos crer e professar já que é isso o que a ensina a fé. Nesta Igreja cremos com firmeza e com simplicidade testemunhamos. Fora dela não há salvação, nem remissão dos pecados, como declara o esposo no Cântico: “Uma só é minha pomba sem defeito. Uma só a preferida pela mãe que a gerou” (Ct 6,9). Ela representa o único corpo místico, cuja cabeça é Cristo e Deus é a cabeça de Cristo. Nela existe “um só Senhor, uma só fé e um só batismo” (Ef 4,5). De fato, apenas uma foi a arca de Noé na época do dilúvio; ela foi a figura antecipada da única Igreja; encerrada com “um côvado” (Gn 6,16), teve um único piloto e um único chefe: Noé. Como lemos, tudo o que existia fora dela, sobre a terra, foi destruído.

A esta única Igreja, nós a veneramos, como diz o Senhor pelo profeta: “Salva minha vida da espada, meu único ser, da pata do cão” (Sl 21,21). Ao mesmo tempo que Ele pediu pela alma – ou seja, pela cabeça – também pediu pelo corpo, porque chamou o seu corpo como único, isto é, a Igreja, por causa da unidade da Igreja no seu esposo, na fé, nos sacramentos e na caridade. Ela é a veste sem costura (Jo 19,23) do Salvador, que não foi dividida, mas tirada à sorte. Por isso, esta Igreja, una e única, tem um só corpo e uma só cabeça, e não duas como um monstro: é Cristo e Pedro, vigário de Cristo, e o sucessor de Pedro, conforme o que disse o Senhor ao próprio Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,17). Disse “minhas” em geral e não “esta” ou “aquela” em particular, de forma que se subentende que todas lhe foram confiadas. Assim, se os gregos ou outros dizem que não foram confiados a Pedro e aos seus sucessores, é necessário que reconheçam que não fazem parte das ovelhas de Cristo pois o Senhor disse no evangelho de São João: “Há um só rebanho e um só Pastor” (Jo 10,16).

As palavras do Evangenho nos ensinam: esta potência comporta duas espadas, todas as duas estão em poder da Igreja: a espada espiritual e a espada temporal. Mas esta última deve ser usada para a Igreja enquanto que a primeira deve ser usada pela Igreja. O espiritual deve ser manuseado pela mão do padre; o temporal, pela mão dos reis e cavaleiros, com o consenso e segundo a vontade do padre. Uma espada deve estar subordinada à outra espada; a autoridade temporal deve ser submissa à autoridade espiritual.

O poder espiritual deve superar em dignidade e nobreza toda espécie de poder terrestre. Devemos reconhecer isso quando mais nitidamente percebemos que as coisas espirituais sobrepujam as temporais. A verdade o atesta: o poder espiritual pode estabelecer o poder terrestre e julgá-lo se este não for bom. Ora, se o poder terrestre se desvia, será julgado pelo poder espiritual. Se o poder espiritual inferior se desvia, será julgado pelo poder superior. Mas, se o poder superior se desvia, somente Deus poderá julgá-lo e não o homem. Assim testemunha o apóstolo: “O homem espiritual julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado” (1Cor 2,15).

Esta autoridade, ainda que tenha sido dada a um homem e por ele seja exercida, não é humana, mas de Deus. Foi dada a Pedro pela boca de Deus e fundada para ele e seus sucessores Naquele que ele, a rocha, confessou, quando o Senhor disse a Pedro: “Tudo o que ligares…” (Mt 16,19). Assim, quem resiste a este poder determinado por Deus “resiste à ordem de Deus” (Rm 13,2), a menos que não esteja imaginando dois princípios, como fez Manes, opinião que julgamos falsa e herética, já que, conforme Moisés, não é “nos princípios”, mas “no princípio Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1).

Por isso, declaramos, dizemos, definimos e pronunciamos que é absolutamente necessário à salvação de toda criatura humana estar sujeita ao romano pontífice.

Dada no Vaticano, no oitavo ano de nosso pontificado [18 de novembro de 1302].

 

Bula Unam Sanctam – Papa Bonifácio VIII

 

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Pessoas idosas devem inspirar respeito e dignidade

Salão decorado com certa gravidade. Móveis pesados, grande cortina, quadros e adornos que parecem ter valor. Tudo indica um interior calmo, de gente já madura, e economicamente farta e organizada. O físico dos dois personagens mais velhos é coerente com esta impressão. Num espaçoso sofá, estão duas senhoras ainda jovens, que devem ser as mães das seis crianças que se encontram na sala. Dir-se-ia uma plácida reunião de uma plácida família num plácido ambiente. Mas nesta reunião a excitação da vida moderna penetrou através da televisão. Todos se entregam inteiramente ao gosto de ver, sentir, quase tocar com as mãos a cena do vídeo. As fisionomias indicam o prazer de sentir a imaginação à larga, enquanto o controle da inteligência cessa inteiramente e a vontade dorme na mais profunda inércia. É o homem reduzido, por uma miserável involução, à condição de um bebê que vive de sensações. Quando uma alma chega a tal estado, adeus lógica, coerência, seriedade. Para ela todo esforço intelectual se torna penoso. Toda atitude enérgica, insuportável. É o extremo para o qual são arrastados tantas vezes não só os moços, mas ainda os velhos.

Afundado numa poltrona, um menino que, por um singular fenômeno, ainda gosta de ler, causa apreensões. Sua mãe diz à visita: “Estamos muito preocupados com o Guilherme”. Que pequeno esquisito! Gosta de se concentrar, de ler, de abstrair! Se isto continuar, será preciso levá-lo ao psiquiatra. Este, por certo, se alarmará diante da “marginalidade” deste menino esquisito. E não sossegará enquanto não tiver feito dele um adorador da televisão.

É por estes e outros meios que os mais velhos, responsáveis pela manutenção do pouco que nos resta de bom senso e equilíbrio, pactuam tantas vezes com os vícios de nossos dias, e se transformam em agentes eficazes da imensa derrocada mental do século XX.

*   *   *

Exagero de um caricaturista! Como fazer sobre ele qualquer comentário serio?

Bastaria ir às praias e às “boites”, para ver como a “charge” é justa, pois os mocinhos e mocinhas de sessenta anos ou mais tomam a vanguarda da modernização.

Na fotografia, trabalhistas ingleses dançam numa reunião partidária. Seria possível ostentar mais claramente tudo que há de débil, “gauche” e desgracioso na velhice? Seria possível estar mais desnudo da respeitabilidade, da gravidade e da poesia ( no bom sentido deste termo tão ambíguo ) que são seu único adorno?

Até a velhice parece ter desertado muitas e muitas vezes de seu posto.

Na Sagrada Escritura se lamenta a sorte das nações cujo Rei é um menino ( Ecle. 10,16 ).

Hoje há poucos Reis. Mas temos avós-meninos. E a desgraça parece muito maior…

(Revista “Catolicismo” Nº 85 – Janeiro de 1958)

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Afresco alusivo à batalha de Lepanto. Foto: Abraham

A estátua de Nossa Senhora que se encontrava na nau capitânea de Dom João d’Áustria durante a Batalha de Lepanto, foi encontrada.

A imagem de Nossa Senhora do Rosário fora oferecida a Dom João d’Áustria pelos venezianos. Após sua morte  em 1578, esta estátua da Mãe de Deus fora doada à Fraternidade das Galés da igreja de São João de Latrão do Porto de Santa Maria em Cádiz. Em 1854 a estátua fora transferida à Academia Marinha de Guardas de São Fernando, precursora da Escola Naval Espanhola. A partir de então foi passando sucessivamente a outras mãos até que se lhe perdeu de vista. Recentemente foi devolvida ao Museu Naval de Madri, onde a estátua será restaurada e então será exposta ao público. Embora a estátua tenha perdido um olho, conserva toda sua presença sobrenatural.

Enquanto o Papa São Papa Pio V rezava em Roma para a vitória dos cristãos, a nau capitanea se defrontava com a galé turca do comandante de forças otomanas, Ali Pasha, que foi degolado em seguida. A vitória da Sagrada Aliança deteve as incursões muçulmanas para o seio da Europa, embora em seus ataques ao litoral continuassem a capturar escravos. Esta vitória é celebrada anualmente na festa de de Nossa Senhora de Rosário.

Fonte: Correspondance Européenne

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Cardeal Mindzenty, Primaz da Hungria, Principe de Esztergon, Simbolo da resistência ao Comunismo.

A 29 de março de 1892, nascia em Csehimindsent (Áustria-Hungria) o inesquecível Cardeal József Mindszenty. Através de comunicado do Serviço de Imprensa da TFP brasileira, assim se manifestava Plinio Corrêa de Oliveira: “Todos os que conservam o senso da honra e da dignidade, e repudiam como uma covardia a flexão sistemática diante de um adversário agressor, tiveram nos feitos que a História Contemporânea atribui ao Cardeal Jószef Mindszenty um exemplo assinalado. (…) [Ele], ontem falecido em Viena, constitui para os católicos verdadeiros um título de ufania do qual jamais se olvidarão” (cfr. Doc. de 7-5-1975).
Assim sendo, aqui prestamos nossa homenagem, no presente mês em que se comemora seu 120° aniversário de nascimento, focalizando alguns dos documentos relativos à “figura impávida do imortal Purpurado”.
Em 1991 seu corpo foi exumado e encontrado incorrupto, após 16 anos de sua morte. Em 1996 a documentação para o processo de sua beatificação foi apresentada à Congregação para a Causa dos Santos. http://www.pliniocorreadeoliveira.info

 

Cardeal Mindszenty: uma recordação pessoal

 

Julio Loredo

Conheci o Cardeal Minddszenty em 1975, poucas semanas antes de seu repentino falecimento.

Estava em Bogotá, como voluntário da TFP. Sua Eminência tinha vindo para visitar a pequena, mas dinâmica colônia húngara. “Meus súditos”, como ele os chamava em referimento ao fato de que, segundo a antiga tradição do Reino, em caso de vagar o trono do país, o Arcebispo de Ezstergom e Primaz da Hungria tornava-se ipso facto Regente.

Cidade hungara de Esztergom

De fato, nos vários encontros íntimos com sua gente – para os quais tive a honra de ser convidado – notei que tributavam a ele honras do antigo protocolo da Corte.

Acolhido de modo oficial na sala VIP do aeroporto El Dorado, pelo Arcebispo de Bogotá e pela autoridade civil, enquanto pipocavam os flashs das câmaras fotográficas de jornalistas, o prelado húngaro teve um daqueles gestos de audácia que o caracterizavam: desvencilhou-se com força do esquema de segurança e das autoridades e correu até um amplo balcão para exortar a multidão que o aclamava no grande lobby. “Vim aqui para vós – disse em língua húngara – Vim para trazer-vos coragem porque vós soubestes resistir. A Hungria vive! Não esqueçais!

Depois disto, afastando-se da balaustrada, dirigiu-se a um grupo de 50 membros da TFP que, com suas capas vermelhas e estandartes, o aclamavam. Ali deu uma bênção solene.

Nos dias seguintes, Sua Eminência ficou hospedado no Colégio húngaro, onde recebeu em audiência diversos grupos de co-nacionais. Junto com outros colegas da TFP, tive a honra de participar a três desses encontros.

József Mindszenty era um tanto baixo de estatura, carnatura azeitonada e olhos que, de acordo com a expressão do rosto, ora se abriam desmedidamente, ora se estreitavam a ponto de fazê-lo parecer um oriental. Eram, entretanto, muito vivazes.

O prelado aceitara o convite do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira de visitar o Brasil

Consciente de sua dignidade, mantinha sempre uma atitude reservada mas sempre benévola, quase diria de doçura. Sua fisionomia sempre composta e serena revelava, entretanto, grande sofrimento.

Por vezes, um pequeno gesto deixava transparecer alguma seqüela deixada no seu sistema nervoso, remanescente das terríveis torturas que sofrera nos cárceres comunistas.

Acompanhado de seu secretário particular e de um assistente designado pelo Vaticano, o prelado falava pausadamente, sempre em húngaro ou latim, medindo cada palavra e evitando com cuidado os temas muito candentes.

No terceiro encontro, entretanto, pudemos encontrá-lo privadamente. Parecia outra pessoa! Falando em francês e dando-nos palmadas amistosas nos ombros disse com entusiasmo de um menino: “Eu vos conheço muito bem! Avante filhos meus!

Aproveitamos para entregar-lhe uma carta do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira que o convidava a vir a São Paulo, convite que ele aceitou de muito boa vontade.

Foi então que pode exprimir-se com mais liberdade a respeito da Ostpolitik vaticana, isto é, a política de distensão com os governos comunistas do Leste europeu. Os melhores católicos – dizia – claramente são aqueles que se opõem ao Comunismo em nome da Fé. Ver as altas autoridades do País jurar fidelidade ao governo comunista, lhes produz não apenas uma grande dor mas um profundo sentimento de abandono e orfandade.

 

Memorial ao Cardeal Arcebispo em sua cidade natal

O objetivo de sua viagem, de caráter nitidamente pastoral, era de mostrar aos húngaros que a chama da esperança ainda raiava.

No último dia, as autoridades aeroportuárias nos permitiram de acompanhar o Cardeal até o pé da escada do avião que ele subiu com passo vivo. À porta, ele girou-se e dirigiu-se a nós abanando a mão e dizendo em alta voz, num misto de francês com português: “Jusqu’a São Paulo!”  Em seguida, nos abençoou solenemente. Em torno a nós os húngaros, ajoelhados na pista soluçavam exclamando entre lágrimas: “Nosso Rei vai embora! Nosso Rei vai embora”

A porta fechou-se e a segurança ordenou que nos afastássemos para permitir a manobra da aeronave. Em breve o avião se perdeu da nossa vista entre as nuvens.

Poucas semanas depois, a notícia inesperada: Sua Eminência, o Cardeal Jószef Mindszenty, Arcebispo de Esztergom, Primaz da Hungria e Regente do Reino Apostólico, falecia durante uma intervenção cirúrgica.

(Traduzido ao português da revista italiana TRADIZIONE, FAMIGLIA E PROPRIETÀ – março de 2012)

 

 

 

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Santo Henrique santificou-se exercendo o cargo de Imperador do Sacro Império Romano Alemão. (Foto: Wolfgang Sauber)

Cabe mencionar aqui um traço de alma que se distingue acentuadamente em numerosas pessoas da nobreza.
Muitos Santos, nascidos nobres, renunciaram inteiramente à sua condição social para, no aniquilamento terreno do estado religioso, praticarem a perfeição da virtude. E quão esplêndidos foram os exemplos que assim deram à Cristandade e ao mundo!
Mas outros Santos, também nascidos nobres, conservaram-se nas grandezas desta terra, realçando assim, aos olhos das outras categorias sociais, com o prestígio inerente à sua condição sócio-política, tudo quanto há de admirável nas virtudes cristãs; e dando um bom exemplo moral a toda a colectividade à testa da qual se achavam. E isto com grande vantagem, não só para a salvação das almas, como para a própria sociedade temporal. Neste sentido nada é mais eficaz para o Estado e a sociedade do que ter nos seus mais elevados escalões pessoas nimbadas da alta e sublime respeitabilidade que se irradia da personalidade dos Santos da Igreja Católica.
Além disso, tais Santos – tão dignos de reverência e admiração pela sua elevada condição hierárquica – tornavam-se particularmente amáveis aos olhos das multidões devido à prática constante e exemplar da caridade cristã.
Realmente são inúmeros os nobres beatificados ou canonizados que – sem renunciar às honras terrenas a que fazia jus a sua origem nobiliárquica – se destacaram pelo seu particular amor aos desvalidos: ou seja, pela sua marcada opção preferencial pelos pobres.

Santa Hildegarda de Bingen, de familia nobre, fez-se religiosa beneditina.

Neste mesmo serviço solícito dos pobres, também refulgiram com frequência as pessoas da nobreza que preferiram os admiráveis despojamentos da vida religiosa para se fazerem pobres com os pobres, de maneira a lhes tornarem menos pesadas as cruzes da vida terrena e lhes prepararem as almas para o Céu.
Alongaria demais este trabalho que fosse aqui feita menção a tão numerosos nobres de um e outro sexo, tanto daqueles que praticaram as virtudes evangélicas no meio das grandezas e esplendores da sociedade temporal, como daqueles que as praticaram na renúncia à vida secular, por amor de Deus e do próximo.

(PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA – Nobreza e elites tradicionais análogas.)

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"O casaco serve para tornar o homem apresentável e viável através das ocupações sociais".

“Meu bom Sturmm, a sua sobrecasaca é perfeitamente insensata. Ali a tenho, arejando à janela, às costas de uma cadeira. E assenta tão bem nestas costas de pau como assentaria nas do comandante das Guardas Municipais, nas do Patriarca, nas de um piloto da barra, ou nas de um filósofo, se houvesse nestes reinos”.
“Quero pois severamente dizer-lhe que ela não possui individualidade. Se você, bom Sturmm, fosse apenas um algibebe [vendedor de ternos já prontos], embrulhando a multidão em pano sedan para tapar a nudez, eu não faria à sua obra esta crítica tão alta e exigente. Mas você é alemão, e de Konisgberg cidade metafísica. A sua tesoura tem parentesco com a pena de Emanuel Kant, e legitimamente me surpreende que você não a use com a mesma sagacidade psicológica.
“Não ignora V., decerto, que ao lado da filosofia da história e de outras filosofias, há ainda mais uma, importante e vasta, que se chama a filosofia do vestuário; e menos ignora, decerto, que aí se aprende, entre tanta coisa profunda, esta, de superior profundidade: que o casaco está para o homem como a palavra está para a idéia”.
“Ora, para que serve a palavra, Sturmm? Para tornar a idéia perceptível e transmissível nas relações humanas – como o casaco serve para tornar o homem apresentável e viável através das ocupações sociais”.
“Mas é a palavra empregada sempre em rigorosa concordância de valor com a idéia? Não, meu Sturmm. Quando a idéia é aborrecida e trivial, ateia-se, revestindo-a de palavras gordas e aparatosas – como as que se usam na política. Quando a idéia é grosseira ou bestial, embeleza-se e poetiza-se, recobrindo-se de palavras macias, afagantes, canoras – como todas as que se usam nos romances”.
“Por outro lado, escolhem-se palavras de uma retumbância especial para reforçar a veemência da idéia – como nos rasgos à Mirabeau – ou rebuscam-se as que pela estranheza plástica ajuntam uma sensação física à emoção intelectual – como nos versos de Baudelaire”.
“Temos pois que a palavra opera sobre a idéia, ou disfarçando-a ou acentuando-a. Vai–me você seguindo, perspicaz Sturmm? Tudo isso se aplica exatamente às conexões do casaco com o homem. Para que talham certos alfaiates ingleses sobrecasacas longas, retas e rígidas, com um debrum de austeridade e ressudando virtude por todas as costuras?”
“Para esconder a velhacaria de quem as vestem”.
“Você encontra essas sobrecasacas em Londres, nos meetings religiosos, nas sociedades promotoras da moralização dos pequenos patagônicos e nos romances de Dickens. (…) Disfarçando-o ou acentuando-o, o casaco deve ser a expressão visível do caráter ou do tipo que cada um pretende representar entre os seus concidadãos”.
“Quem lhe encomenda pois um casaco, digno Sturmm, encomenda-lhe na realidade um prospecto”.

Um grande avanço da Revolução tendencial: a fabricação de trajes em série.

“E nem precisa um alfaiate que aprofundou a sua arte de receber a confissão do freguês. As ligeiras recomendações que escapam, inquietas e tímidas, na hora atribulada da «prova», bastam para que ele compreenda o uso social a que o cliente destina a sua farpela… Assim, se um cavalheiro de luvas pretas, com um luneta de ouro entalada entre dois botões do colete, que move os passos com lentidão e reflexão, e, ao entrar, pousou sobre a mesa um número do Jornal do Economista, lhe diz, num tom de mansa reprovação, ao provar o casaco: “Está curto e justo de cinta”, você deve logo deduzir que ele deseja aquelas abas bem fornidas, flutuantes, que demonstram abundância de princípios, circunspecção, amor sólido da ordem e conhecimento miúdo das pautas da Alfândega”.
“Vai você penetrando, meu bom Sturmm? Ora, que lhe murmurei eu, no meu mau alemão, ao provar a sobrecasaca infausta? Esta fugidia indicação: “Que cinja bem!” Isto bastava para você entender que eu desejava, através desta veste, mostrar-me a Lisboa, onde a ia usar, sinceramente como sou – reservado, cingido comigo mesmo, frio, céptico, inacessível aos pedidos de meias libras… E, no entanto, que me manda você, Sturmm, num embrulho de papel pardo? Você manda-me a sobrecasaca que talha bem para toda a gente em Portugal, desgraçadamente: a sobrecasaca do conselheiro! Digo «desgraçadamente» porque vestindo-nos todos pelo mesmo molde, você leva-nos todos a ter o mesmo sentir e a ter o mesmo pensar”.
“Nada influencia mais profundamente o sentir do homem do que a fatiota que o cobre”.

O escritor português Eça de Queiroz

“O mais ríspido profeta, se enverga uma casaca e ata ao pescoço um laço branco, tende logo a sentir o encanto das (damas) e da valsa. E o mais extraviado mundano, dentro de uma robe de chambre, sente apetites de serão doméstico e de carinhos ao fogão. Maior ainda se afirma a influência do vestuário sobre pensar. Não é possível conceber um sistema filosófico com os pés entalados em escarpins de baile, e um jaquetão de veludo preto forrado a cetim azul leva inevitavelmente a idéias conservadoras”.
“Você, pondo no dorso de toda a sociedade essa casaca de conselheiro – lisa, insípida, rotineira, pesabunda -, está simplesmente criando um país de conselheiros! Dentro desta contenção banalizadora e achatante o poeta perde a fantasia…”
“Dentro desta concepção banalisadora e achatante o poeta perde a fantasia, o dandi perde a vivacidade, o militar perde a coragem, o jornalista perde a veia, o crítico perde a sagacidade, o padre perde a fé. Perdendo cada um o relevo e a saliência própria, fica tudo reduzido a esse cepo moral que se chama o conselheiro! A sua tesoura está assim mesquinhamente aparando a originalidade do país!”
“Você corta, em cada casaca, a mortalha de um temperamento”.
“E se Camões ainda vivesse – e você o vestisse – tínhamos em lugar dos Sonetos, artigos do Comércio do Porto”.

 

(Comentários a um escrito de Eça de Queiroz (Fradique Mendes, Cartas Inéditas, n. XIX, a E. Sturmm, alfaiate)

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Plinio Corrêa de Oliveira

Rothenburg, uma cidade circundada por muralhas medievais. (Foto: Flominator)

 

A sociedade da Idade Média dividia-se em três classes. A mais alta das classes era o Clero, porque constituída por pessoas consagradas a Deus, integrantes da estrutura da Igreja Católica Apostólica Romana.

A segunda classe era a Nobreza — a classe dos guerreiros e dos proprietários de terras no interior. Em caso de guerra, eram eles que iam para a frente de batalha. Serviço militar obrigatório era só para os nobres. Para os plebeus, o serviço militar era muito restrito.

Por fim a Plebe — era a terceira classe, portanto —, à qual cabia a produção econômica.

Habitualmente, quando ouvimos falar em Idade Média, pensamos em catedrais suntuosíssimas, em castelos magníficos. E com base na realidade, porque na Idade Média construíram-se catedrais e castelos incomparáveis. Mas é natural a indagação: como seria então a vida da plebe — ou seja, do burguês e do trabalhador manual — nessa época?

A cidade cujas ilustrações vemos aqui oferece-nos uma resposta palpável de como era essa vida.

Qual é a localidade? É a cidadezinha construída naquele período histórico, denominada Rothenburg ob der Tauber. Tauber é o nome de um riozinho que banha essa cidade. Em português: Rotemburgo sobre o Tauber.

Casas populares junto à porta da cidade.

A cidade era fortificada, porque poderia haver incursões de inimigos do Sacro Império Romano Alemão que quisessem tomá-la. Para essa eventualidade, havia uma muralha que a cercava e a tornava absolutamente fortificada, como uma fortaleza.

Em seu interior, porém, encontramos o contrário. Era uma cidade de trabalho, onde se vivia o dia-a-dia da pequena burguesia medieval ou do trabalhador manual. Naturalmente, as construções mais bonitas eram as da pequena burguesia. Grande burguesia como que não havia lá. Era praticamente só a pequena.

As casas, em grande parte, comportavam a residência de mais de uma família. Eram prédios de apartamentos daquele tempo. Havia uma entrada geral do edifício, o qual continha vários apartamentos. Pode-se conjeturar que nos andares de cima ficavam os aposentos dos trabalhadores manuais e nos dois andares de baixo residiam as pessoas mais abastadas. Como não havia elevador naquele tempo, para morar lá no alto era necessário subir escadas a mais não poder. O resultado era que o aluguel desses andares era mais barato.

Os prédios eram indiscutivelmente bonitos. Não da beleza de um castelo, mas belos, dignos e inteiramente diferentes de uma favela ou das moradias de um bairro operário de qualquer cidade moderna.

 

Vista parcial da cidade

Há uma idéia de solidez e aconchego nesses edifícios, que nos possibilita avaliar o prazer de estar em seu interior. Tem-se a impressão de que lá come-se bem, dorme-se bem, e nos dias feriados descansa-se bem. E na Idade Média o número de feriados era colossal.

As cores dos edifícios são discretas, embora não sejam tristes. São cores agradáveis. Há uma preocupação de bom gosto e de arte em tudo, até nos pinheirinhos plantados diante das casas, que são encantadores.

Termino citando Karl Marx. Numa obra em que ele apresenta a história do operariado europeu, há uma frase que os comunistas atuais não gostam de repetir: “A idade de ouro do operariado europeu foi a Idade Média”.

 

Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 22 de novembro de 1986. Sem revisão do autor.

(Revista CATOLICISMO – abril de 2002)

www.catolicismo.com.br

 

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Nelson Ribeiro Fragelli

 

Guilhotinando o rei Luiz XVI, a Revolução Francesa visava eliminar um símbolo de uma instituição milenar

Votando a morte de Luiz XVI, a odiosa “Convenção” –– assembléia da Revolução Francesa que proclamou a República –– visava eliminar o homem símbolo de uma instituição milenar como era a monarquia da França, nação escolhida por Deus para ser a primogênita da Cristandade. Monarquia cujas raízes profundas remontam a Clóvis, sagrado Rei por São Remígio no século V, numa cerimônia que teve aspectos miraculosos.

Pareceu-nos que uma adequada homenagem a ser prestada à memória de Luiz XVI, seria transcrever os excertos mais importantes de emocionante documento histórico. Nele são narrados com autenticidade os fatos que antecederam de imediato a execução do soberano francês. O relato, de autoria do Pe. Edgeworth de Firmont, último confessor de Luiz XVI, revela a alma do Rei, naquele momento extremo, como a de um verdadeiro católico, que soube enfrentar a morte com fortaleza e resignação, bem como as insolências revolucionárias com nobre altivez.

Uma idéia vagava há muito tempo em meu espírito, ocupando-o ainda mais possantemente a partir do momento em que vi o rei de mais perto: era a de lhe proporcionar, a qualquer preço que fosse, a santa comunhão, da qual ele estava há tanto tempo privado. Eu lhe teria podido trazê-la escondida, como se era obrigado a fazer então para todos os fiéis que não podiam sair de suas casas, mas a inspeção minuciosa pela qual se tinha de passar ao entrar no Templo e a profanação que seria dela a infalível conseqüência foram razões mais que suficientes para que disso eu desistisse. Não me restava pois outro recurso senão celebrar a Missa no quarto do rei, se para isso pudesse encontrar os meios.

Eu lhe fiz a proposta, mas de início ela pareceu assustá-lo; entretanto, como ele conhecia todo o valor de tal graça e a desejava mesmo ardentemente, e como toda sua oposição não provinha senão do temor de que o pedido me comprometesse, supliquei-lhe que me desse carta branca, prometendo-lhe que empregaria na empresa prudência e discrição. Ele mo permitiu, enfim: “Ide, disse-me ele; mas temo que nada conseguireis, pois conheço os homens com os quais ireis tratar: não concedem senão o que não podem recusar”.

Munido dessa permissão, pedi para ser conduzido à sala do conselho e aí formulei meu pedido em nome do rei. Tal proposta, para a qual os comissários da torre não estavam preparados, desconcertou-os extremamente; eles procuraram diversos pretextos para a esquivarem. “Onde encontrar um padre àquela hora”, disseram-me. “E se o encontrássemos, como fazer para arranjar os paramentos?” –– “O padre já está encontrado, repliquei-lhes, pois eis-me aqui; e quanto aos paramentos, a igreja mais próxima os fornecerá,. basta enviar alguém para buscá-los. Quanto ao mais, meu pedido é justo, e seria ir contra os seus princípios recusá-lo”.

Padre Edgeworth de Firmont, confessor do rei

Um dos comissários tomou logo a palavra, e (embora em termos comedidos) deu claramente a entender que meu pedido bem poderia ser uma cilada, e que, sob pretexto de dar a comunhão ao rei, eu poderia envenená-lo. “A História, acrescentou ele, nos fornece vários exemplos a esse respeito, que nos obrigam a ser circunspectos”. Limitei-me a olhar fixamente este homem e dizer-lhe: “A maneira pela qual fui revistado ao entrar aqui deve ter provado que não trago veneno comigo: se, portanto, o encontrarem amanhã seria dos senhores que o teria recebido,já que tudo o que peço passa por suas mãos”. Ele quis replicar, mas seus colegas lhe impuseram silêncio, e, por último subterfúgio, disseram-me que o conselho não estava completo, e, nessas condições, não podiam assumir tal responsabilidade; mas que iam chamar os membros ausentes e me comunicariam o resultado de sua deliberação.

Um quarto de hora se passou entre convocar os membros ausentes e deliberar. Ao fim desse tempo, fui introduzido de novo, e o presidente tomando a palavra disse-me: “Cidadão ministro do culto, o conselho levou em consideração o pedido que o Sr. lhe fez em nome de Luiz Capeto, e ficou resolvido que, sendo conforme às leis que declaram serem os cultos livres, ser-lhe-á concedido. Nós, entretanto, na concessão impomos duas condições: a primeira, que o senhor faça já um requerimento, no qual conste seu pedido e o assine; a segunda, que todo o serviço de seu culto esteja concluído amanhã às 7 horas, no mais tardar, porque, às 8 horas em ponto, Luiz Capeto deve partir para o local de sua execução”. Estas últimas palavras me foram ditas, como todo o resto, com um sangue frio que caracterizava uma alma cruel, a qual vislumbrava sem remorso o maior dos crimes. Pus meu pedido por escrito, e deixei-o sobre a escrivaninha.

Reconduziram-me imediatamente ao rei, que esperava com uma espécie de preocupação o desfecho do caso: e o relato sumário que lhe fiz, suprimindo todas as circunstâncias, parece lhe ter dado o maior prazer.

(N. da R. – No dia seguinte, foi celebrada a Missa, tendo Luiz XVI, nessa ocasião, recebido a santa Comunhão).

* * *

O dia começava a raiar e já em todas as seções de Paris os tambores rufavam fazendo ouvir toques de alarme. Esse movimento extraordinário reboava muito claramente na torre, e confesso que ele me gelava o sangue nas veias; mas o rei, mais calmo do que eu, depois de por um momento ter prestado atenção, disse-me sem emoção: “É provavelmente a Guarda Nacional que começa a se reunir”. Pouco depois, destacamentos de cavalaria entraram no pátio do Templo e ouviu-se claramente a voz dos oficiais e os passos dos cavalos. O rei ouviu ainda essa vez e disse-me com o mesmo sangue frio: “Na aparência, eles se aproximam”…

Finalmente, bateram à porta pela última vez: era Santerre e sua tropa. O rei abriu sua porta normalmente, e anunciaram-lhe (eu não pude ouvir em que termos) que era preciso ir para a morte. “Eu estou ocupado, lhes disse com autoridade; esperem-me ali, eu me confiarei aos senhores”. Dizendo essas palavras, fechou a porta, e veio lançar-se aos meus joelhos. “Tudo está consumado, disse-me ele, senhor, dai-me vossa última bênção, e pedi a Deus que me sustente até o fim”.

Ele levantou-se logo, e, saindo de seu aposento, adiantou-se em direção à tropa que estava no meio do quarto de dormir. Seus rostos não anunciavam nada mais que a segurança; eles estavam entretanto com os chapéus nas cabeças. O rei percebendo isto, pediu imediatamente o seu. Enquanto Cléry, banhado em lágrimas correu para apanhá-lo: “Há entre os senhores algum membro da Comuna? disse o rei. Eu o encarrego de entregar este escrito”.

O rei ao pé do cadafalso

Era seu testamento, que um dos presentes tomou da mão do rei. “E recomendo também à Comuna Cléry, meu criado de quarto, cujos serviços só tenho que elogiar. Far-me-ão o favor de lhe dar meu relógio e todas as minhas roupas, tanto as que aqui estão como as que foram deixadas na Comuna; eu desejo igualmente que, em recompensa da dedicação que demonstrou, o façam passar ao serviço da rainha –– de minha mulher”. Ninguém tendo respondido: ”Vamos caminhar”, disse-lhes o rei num tom firme.

A essas palavras, toda a tropa desfilou. O rei atravessou o primeiro pátio (outrora o jardim) a pé, ele voltou-se uma ou duas vezes para a torre, como para dizer adeus a tudo o que tinha de mais caro neste mundo; e, pelo movimento que fez, via-se que ele tomava em mãos toda sua força e sua coragem.

Na entrada do segundo pátio, encontrava-se um coche à espera; dois guardas seguravam a porta; à aproximação do rei um deles entrou primeiro e se colocou na frente; o rei subiu em seguida, e colocou-me a seu lado, no fundo; o outro guarda entrou por último, e fechou a porta.

A marcha durou cerca de duas horas. Todas as ruas estavam ladeadas de diversas fileiras de cidadãos armados ora de lanças ora de fuzis. Além disso o próprio carro estava cercado de um imponente corpo de tropas, formado, sem dúvida, do que havia de mais corrompido em Paris. Como auge de precaução, haviam colocado na frente dos cavalos uma multidão de tambores, a fim de abafar por seu barulho os gritos que pudessem ser ouvidos em favor do rei. Mas, como eles se ouviriam? Ninguém aparecia nem às portas, nem às janelas, e não se viam nas ruas senão cidadãos armados que, pelo menos por fraqueza, concorriam para um crime que talvez detestassem em seu coração.

O coche alcançou assim, no maior silêncio, a praça de Luiz xv, e parou no meio de um grande espaço vazio, que haviam deixado em volta do cadafalso; esse espaço era cercado de canhões; para além, tanto quanto a vista podia alcançar, via-se uma multidão em armas.

Logo que o rei sentiu que o carro não prosseguia mais, voltou-se e disse-me ao ouvido: “Chegamos, se não me engano”. Meu silêncio lhe respondeu que sim. Um dos carrascos veio imediatamente abrir-lhe a porta; mas o rei o deteve, e apoiando a mão sobre meu joelho: “Senhores, lhes disse ele em tom de autoridade, eu lhes recomendo este senhor que aqui está: tomem cuidado para que depois de minha morte não lhe seja feito nenhum insulto; eu os encarrego de cuidar disso”. Esses dois homens nada tendo respondido, o rei quis repetir em tom mais alto; mas um deles lhe cortou a palavra: “Sim, sim, disse-lhe, nós cuidaremos dele; deixe por nossa conta”. E devo acrescentar que tais palavras foram ditas num tom que me teria feito gelar o sangue se naquele momento me tivesse sido possível pensar em mim mesmo.

O Papa Pio VI qualificou a morte do rei Luiz XVI como martírio

Logo que o rei desceu do veículo, três carrascos o cercaram e quiseram tirar-lhe as roupas; mas ele os repeliu com altivez e as tirou ele mesmo. Desabotoou igualmente seu colarinho, sua camisa e se arrumou com suas próprias mãos. Os carrascos, aos quais a atitude altiva do rei havia desconcertado por um momento, pareceram então retomar audácia; cercaram-no de novo, e quiseram amarrar suas mãos. “Que pretendem?, disse-lhes o rei, retirando suas mãos com energia. –– Atar suas mãos, respondeu um dos carrascos. –– Atar-me, redarguiu o rei, em tom de indignação: não, jamais consentirei nisto! Façam o que lhes mandaram, mas não me atarão. Renunciem a esse projeto”. Os carrascos insistiram; levantaram a voz, e pareciam querer pedir socorro para fazê-lo à viva força.

Esse foi o momento mais terrível na dolorosa manhã: um minuto a mais, e o melhor dos reis receberia, sob os olhos de seus súditos rebeldes, um ultraje mil vezes mais insuportável que a morte, pela violência que contra ele pareciam querer exercer. Ele mesmo pareceu temê-lo; e voltando-se para mim, olhou-me fixamente, como para me pedir conselho. Infelizmente, era-me impossível dar-lhe um; respondi-lhe primeiro por meu silêncio; mas como ele continuasse a me olhar: “Sire, disse-lhe com lágrimas, nesse novo ultraje não vejo senão um último traço de semelhança entre Vossa majestade e o Deus que vai ser sua recompensa”.

Ao ouvir essas palavras, ele levantou os olhos ao Céu com uma expressão de dor, que nunca saberei descrever: “Seguramente, disse-me ele, nada menos do que seu exemplo é necessário para que eu me submeta a semelhante afronta”. E voltando-se imediatamente para os carrascos: “Façam o que quiserem, disse-lhes ele, eu beberei o cálice até à borra”.

Os degraus que conduziam ao cadafalso eram extremamente abruptos para subir. O rei foi obrigado a se apoiar sobre meu braço, e pelo sofrimento que ele parecia ter, temi um instante que sua coragem começasse a desfalecer. Mas qual não foi meu espanto quando, tendo chegado ao último degrau, eu o vi escapar, por assim dizer, das minhas mãos, atravessar com passo firme toda a largura do cadafalso, impor silêncio, com um só olhar, a quinze ou vinte tambores que estavam colocados em face dele, e com uma voz tão forte que deve ter sido ouvida até a ponte, pronunciar claramente estas palavras para sempre memoráveis: “Morro inocente de todos os crimes que me imputam. Perdôo os autores de minha morte, e peço a Deus que o sangue que vão derramar não recaia jamais sobre a França”. (Librairie de Firmin Didot Frères, Fils e Cie, imprimeurs de L’Institut de France, Paris, 1856, excertos das pp. 118-126).

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­O Papa  Pio VI, a justo título, qualificou a morte de Luiz XVI como martírio, na Alocução ao Consistório, em 17-6-1793.

 

Revista CATOLICISMO – janeiro de 1993

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Plinio Corrêa de Oliveira

Recolhimento, silêncio, isolamento foram, em todos os tempos, notas distintivas dos religiosos cartuxos, da Ordem fundada por São Bruno, no século XII.

Monges cartuxos

O homem de nossos dias, em contacto com os cartuxos, tê-los-ia em conta de almas anquilosadas, sem estímulo nem vitalidade ou qualquer forma de dinamismo.

Ora, duas esplêndidas realizações desses religiosos, até fortemente contrastantes, embora harmônicas, desmentem essa falsa impressão: são eles os criadores do internacionalmente renomado licor Chartreuse e dos esplendorosos e não menos renomados cavalos cartusianos. Um magnífico exemplar dessa raça, o leitor pode contemplar nesta página.

 

* * *

 

Sob o céu da Andaluzia (Espanha), esvoaçando sobre o campo raso e aberto de uma alegre manhã ensolarada, um cavaleiro radiante de vitória e de glória realiza uma das mais belas e expressivas manifestações da coragem humana: a força de ousar e de avançar.

Licor Chartreuse

Há uma inegável beleza em se contemplar um homem que flutua sobre as incertezas dos mares rumo a um destino distante. Mas não se pode negar beleza a este nosso cavaleiro, que parece navegar pelos ares em circunstâncias que o avantajam em relação a qualquer piloto de avião: ele não pilota uma máquina, mas um ser vivo, cuja vitalidade e mutabilidade são superiormente governadas por ele. É admirável a força com que o cavalo, tão bem conduzido, conseguiu vencer a atração da gravidade e se elevou no ar.

Percebe-se ademais uma espécie de domínio psicológico do cavaleiro em relação ao cavalo, de maneira que a ousadia daquele se reflete neste como num espelho. É uma só ousadia, um só élan em um só vôo!

A luz que se reflete sobre o cavalo – de modo a lhe realçar a musculatura e a força do corpo, o que faz dele uma espécie de aeronave viva fendendo os ares – nenhum artista poderia tê-la imaginado tão bela.

Contribui possantemente para a perfeição da cena, o movimento do tecido que o cavaleiro traz ao pescoço. O vento levanta essa echarpe como o cavaleiro o cavalo. E há nesse tecido uma como que palpitação imponderável da vitória e da glória alcançadas pelo cavaleiro no completo domínio da situação.

Também a crina do animal, que esvoaça ao vento, é de uma beleza que se diria pictórica e perfeita. Assemelha-se a uma labareda escultural, entretanto cheia de movimento. O olhar do cavalo parece devorar o perigo; e sua boca mastigar o risco. Contudo, ele avança confiante no domínio de quem o guia, e suas patas dianteiras esboçam até elegante repouso. Há nele um equilíbrio nervoso, uma flexibilidade e uma obediência perfeitas.

Estamos em presença, propriamente, de uma bela expressão de autêntico heroísmo humano, o qual não consiste tanto no poder de destruir, quanto em enfrentar o risco. Tal noção, o homem pragmático, securitário e tantas vezes vil de nossos dias a perdeu de modo quase completo, senão inteiramente. Que a esplendorosa cena nos sirva de lição, e de exemplo!

 

 

Revista CATOLICISMO – Abril de 1991

 

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