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Principe São Casimiro

 

São Casimiro, príncipe polonês, nascido em 1458, foi o terceiro filho de Casimiro III, rei da Polônia e Isabel da Áustria, filha do imperador Alberto III. Seu preceptor foi João Dugloss, cônego da catedral e historiador da Polônia, homem cultíssimo e profundamente virtuoso e que exerceu benéfica influência sobre o jovem príncipe. Este, criança ainda, dedicou-se às práticas de mortificação e piedade. Usava um cilício sob seus trajes de corte e seu espírito era tão unido a Deus, que sua paz interior manifestava-se numa grande serenidade de rosto. Amava profundamente a Igreja e uma coisa se lhe tornava clara, a partir do momento em que a glória de Deus fosse dela objeto. Devoto da Paixão de Jesus Cristo e da Santíssima Virgem compôs, em honra da Mãe de Deus, um hino que recitava freqüentemente, pedindo que ao morrer colocassem uma cópia dele em seu túmulo”.

“Ao completar Casimiro 13 anos, os húngaros, descontentes com seu rei Matias, quiseram levar o santo ao trono de seu país. Seguiu o jovem  à frente de um exército para a Hungria, para sustentar o direito de sua eleição. Mas na fronteira desse país soube que o rei húngaro reconquistara a estima de seus súditos e que, além disso, o Papa Sisto IV declarava-se pelo rei destronado e desaprovava a expedição. São Casimiro voltou atrás e para não aumentar o desgosto de seu pai, que planejara aquele empreendimento, retirou-se para o castelo de Dobsky, onde se entregou a austeras  penitências durante três meses. Ao fim desse tempo voltou ao palácio real, onde já encontrou tudo mais em paz”.

“São Casimiro faleceu aos 24 anos de idade, em 1483, tendo até o fim de sua vida se recusado a casar. Predisse sua morte e para ela preparou-se particularmente. Cento e vinte anos após sua morte, seu corpo e as ricas vestes com que fora enterrado, foram encontrados intactos, construindo-se riquíssima capela de mármore para conservação dessa relíquia. É padroeiro da Polônia e modelo da pureza para a juventude.”

Prof.  Plinio Corrêa de Oliveira comenta:

Há vários aspectos que valem a pena notar de modo mais especial.

Temos falado muito a respeito dos santos que são fundadores de povos, santos que são fundadores de ciclos de civilização e que, por sua ação extraordinária, movem a história. Nós podemos considerar uma outra categoria de santos que nascem e se tornam exímios na prática de uma virtude a qual vão representar em toda a vida da Igreja. Mas parece que, a fim de que a atenção dos fiéis não se desvie desse aspecto central de sua existência, esses santos morrem relativamente jovens e sua vida fica realçada pela prática daquela virtude.

Os senhores considerem, por exemplo, São Luís Gonzaga: fazer propriamente ele fez pouca coisa. Mas morreu no apogeu da virtude, ainda adolescente. Se tivesse feito muita coisa, as atenções se voltariam para o que ele realizou e se desviariam talvez daquilo que ele foi.

Esses santos assim nos mostram que a santidade consiste sobretudo em ser, consiste sobretudonuma ação de presença dentro da Igrejano difundir o aroma dessa santidade, não só enquanto estão vivos, mas depois de mortos. E que a vida deles – tão precocemente imolada e em geral oferecida em benefício da Igreja Católica – é um elemento preciosíssimo para a salvação das almas. Mas é um elemento valioso na ordem do oferecer, na ordem de sacrificar-se e não é valioso na ordem da ação. Com isso fica bem mostrado como sendo a ordem da ação muito preciosa, entretanto não é a mais preciosa de todas. A ordem do exemplo, a ordem do sacrifício, a ordem da realização interior de uma obra própria que justifica inteiramente a existência, embora externamente não se tenha feito nada. Isso é o ensinamento que santos como São Domingos Sávio, São Casimiro, São Luís Gonzaga e como tantos outros nos trazem à mente. É um outro aspecto desse sol de santidade que é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Jazigo de São Casimiro na Catedral de Vilnius, Lituânia

 

Há um outro aspecto interessante a se considerar: a atitude de São Casimiro vestindo roupas régias e levando cilício sob elas. Os senhores estão vendo bem aí o equilíbrio do verdadeiro santo: ele quer fazer penitência, mas sabe que sua condição lhe impõe que se vista com a pompa inerente à sua categoria. E como ele não é um igualitário, não é  um progressista, não é um filho das trevas, usa tudo quanto é necessário para a manutenção de seu estado. A penitência ele faz também: ele a leva consigo, mas às ocultas.

Por fim, há outro elemento interessante: esse santo teve dificuldades com seu pai, o qual queria que ele conquistasse a Hungria e não compreenderia que por uma razão que para si parecia frívola (a saber que o Papa dava razão a um outro e que, pois, São Casimiro seria um usurpador) não queria que seu filho se abstivesse de conquistar esse reino.

São Casimiro foi muito jeitoso: ficou rezando três meses fora, até que as coisas se acalmassem e depois voltou. Há aqui um apuro e depois um santo ardil, que deve servir de inspiração para todos nós.

(Comentários do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP brasileira, em 3 de março de 1968 – Sem revisão do autor.)

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Trinquesse1


Século XVIII: requinte e decadência

 

Uma sociedade imoral ou amoral, que já não sente na consciência e já não demonstra nos actos a distinção entre o bem e o mal, que já não se horroriza com o espectáculo da corrupção, que a desculpa e que a ela se adapta com indiferença, que a acolhe com favor, que a pratica sem perturbação nem remorsos, que a ostenta sem rubor, que nela se degrada, que se ri da virtude, está no caminho da ruína.

Verdadeira fidalguia: humildade e grandeza

Verdadeira fidalguia: humildade e grandeza

 

A alta sociedade francesa do século XVIII foi, entre muitos outros, um trágico exemplo disso. Nunca uma sociedade foi mais refinada, mais elegante, mais brilhante, mais fascinante. Os mais variados prazeres do espírito, uma intensa cultura intelectual, uma arte finíssima de agradar, uma requintada delicadeza de maneiras e de linguagem, dominavam aquela sociedade externamente tão cortês e amável, mas na qual tudo – livros, contos, figuras, alfaias, vestidos, penteados – convidava a uma sensualidade que penetrava nas veias e nos corações, e na qual a própria infidelidade conjugal quase já não surpreendia nem escandalizava. Essa sociedade trabalhava assim pela sua própria decadência e corria para o abismo cavado pelas suas próprias mãos.

Muito diferente é a verdadeira fidalguia: esta faz resplandecer nas relações sociais uma humildade cheia de grandeza, uma caridade livre de qualquer egoísmo, de qualquer procura do próprio interesse.

Não ignoramos com quanta bondade, doçura, dedicação e abnegação, muitos, e especialmente muitas de vós, nestes tempos de infinitas misérias e angústias, se curvaram sobre os infelizes, souberam irradiar em torno de si, em todas as formas mais avançadas e eficazes, a luz do seu caridoso amor. E este é outro aspecto da vossa missão.

 

O cavalheirismo é de inspiração cristã

O cavalheirismo é de inspiração cristã

 

Pois – não obstante preconceitos cegos e caluniosos – nada é tão contrário ao sentimento cristão e ao verdadeiro sentido e fim da vossa classe, em todos os países, mas particularmente nesta Roma, mãe de Fé e de civilização, quanto o estreito espírito de casta. A casta divide a sociedade humana em secções ou compartimentos separados por paredes impenetráveis. O cavalheirismo, a cortesia, é de inspiração sobretudo cristã; é o vínculo que une entre si, sem confusão nem desordem, todas as classes. Longe de obrigar-vos a um isolamento soberbo, a vossa origem inclina-vos antes a penetrar em todas as ordens sociais, para comunicar-lhes aquele amor à perfeição, à cultura espiritual, à dignidade, àquele sentimento de compassiva solidariedade, que é a flor da Civilização Cristã.

Na presente hora de divisões e de ódios, que nobre missão vos foi consignada pelos desígnios da Providência Divina! Cumpri-a com toda a vossa Fé e com todo o vosso amor! Com tal augúrio e em atestado dos Nossos paternais votos para o ano já iniciado, concedemos de coração, a vós e a todas as vossas famílias, a Nossa Bênção Apostólica

 

 

(Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità Pio XII, Tipografia Poliglotta Vaticana, 14/1/1945, pp. 273-277).

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Museu_Paulista_(Iparanga_Museum)_São_Paulo,_Brazil


Museu do Ipiranga (foto Danilo P)

 

Em 23 de novembro de 1884, a Princesa Isabel escrevia em seu diário:

“O campo do Ipiranga é muito bonito e daí tem-se vista magnífica. Quando o belo monumento, de que o Betzi (sic!) me mostrou o plano, estiver pronto e daí houver um boulevard até o Brás, poderemos dizer que temos com que comemorar o fato da Independência de nosso país”.

 

(…)

 

A construção de um grandioso monumento que lembrasse às gerações futuras a proclamação da Independência, no mesmo lugar em que se tinha dado o histórico acontecimento, estava preocupando há muito não só os paulistas, mas a todos os brasileiros. Foi em 1823 que José Bonifácio autorizou a abertura de uma subscrição pública para a construção de um monumento comemorativo e, logo depois, em setembro de 1824, o presidente da Província, Lucas Antônio Monteiro de Barros, sugeria às Câmaras Municipais a construção de um monumento na rua da Glória, junto ao Hospital da Misericórdia. O governo imperial  no entanto era de opinião que o monumento deveria ser erigido à beira do riacho, no Ipiranga. Em 12 de outubro de 1825 foi lançada a pedra fundamental de uma construção algo pobre e inexpressiva que, assim mesmo, consumiu quase que nos alicerces todos os fundos coletados, obrigando à suspensão das obras, embora a idéia continuasse de pé. Por volta de 1861, paulistas de prestígio fundaram a “Sociedade Zeladora da Glória do Ipiranga” e em 1869, em consequência de novas e generosas contribuições, foi enviada à Corte uma comissão encarregada de entender-se com o governo imperial, não conseguindo todavia alcançar o fim almejado.

O governo provincial instituiu, então, as “grandes loterias do Monumento do Ipiranga”, iniciativa que produziu muito dinheiro, de forma que a comissão paulista encarregada de cooperar com a corte para a realização do projeto, resolveu deixar de lado a idéia inicial, levantando uma obra verdadeiramente grandiosa.

Assim, em 25 de outubro de 1882 foi dado o encargo do projeto a Gaudenzio Benzi, e no fim daquele mesmo ano era colocada a primeira pedra do edifício, transportada numa padiola da rua São Bento até o alto do Ipiranga, com um acompanhamento de trezentos trabalhadores que levavam pás e picaretas enfeitadas.

(FRANCO CENNI – “Italianos no Brasil” – São Paulo)

 

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A Rosa de Ouro

A condecoração papal denominada Rosa de Ouro

Agradecemos à Princesa Isabel o fato de ter nos proporcionado a libertação, merecendo por isto, do Papa Leão XIII, o prêmio da Rosa de Ouro que hoje se encontra no Acervo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, tendo-a a Cúria recebido das mãos do Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleaens e Bragança, neto da Redentora. Convém lembrar que a distinção conferida por Sua Santidade, outorgava um fabuloso prestígio muito difícil de aquilatar em nossos dias. Para se ter uma pálida idéia, o Prêmio Nobel não é nem sombra do apoteótico prestígio que conferia a Rosa de Ouro naqueles idos anos. É interessante ressaltar que aqui nas Américas a Princesa Isabel foi a única mulher a receber esta prestigiosa condecoração.
Em nossas almas de negros vincou-se em relação à Família Imperial brasileira, para toda a História, um laço de gratidão e afeto sinceramente comovido.
Nosso objetivo é esclarecer o maior número possível de pessoas, sobretudo nossos irmãos negros, para constituirmos uma força que difunda esse verdadeiro enfoque da realidade étnica brasileira, em oposição à visualização falsa, raciste e de luta de classes, veiculada em nossos dias.
Está sendo produzido de forma induzida no Brasil, por forças esquerdistas um perigoso acirramento de ânimos entre irmãos, que faz levantar uma pergunta muito séria: estaremos presenciando, como ocorreu em outros países em passado não muito remoto, a gestação de algum verdadeiro rio de sangue à maneira dos provocados pelos comunistas em vésperas de suas revoluções?
Que o Bem aventurado Padre Anchieta, gigante missionário do Brasil, proteja nosso País com relação àqueles que estão se insurgindo desabridamente contra seu apostolado e, do Céu, obtenha de Nossa Senhora de Fátima, o apressamento do triunfo do Seu Imaculado Coração.
Com os olhos postos no futuro de nossa abençoada terra, peçamos ainda a Deus Nosso Senhor e a Maria Santíssima, que concedam ao Brasil jamais sair das vias da civilização católica, única forma de cumprirmos nossa missão para a grandeza cristã de nossa Pátria.

(Boletim NEGRO, SIM SENHOR! da Associação de Negros Católicos Santo Elesbão – São Paulo – Brasil)

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Don Cláudio de López Bru, segundo Marquês de Comillas Nasceu em Barcelona, a 14 de maio de 1853 e faleceu em Madri, a 18 de abril de 1925. Seu nome completo era Claudio Segundo Bonifacio Antonio López del Piélago y Bru. Filho de Antonio López y López e de Luisa Bru, foi o quarto dos filhos nascidos. Doutorado em Direito pela Universidade de Barcelona. Em 1881 casou-se com María Gayón Barrié. Não teve descendência. Herdou de seu pai, falecido a 16 de janeiro de 1883, os títulos de Marquês e "Grande de Espanha", além de vultosa fortuna. Em 1945, teve início seu processo de beatificação.

 

Tenho em mãos  uma biografia do segundo Marquês de Comillas, extraída do próprio processo de beatificação, e posta ao alcance do público pelo próprio postulador de sua causa. Portanto é um documento dos mais seguros.

O título é: “Un Marqués Modelo” – “El Siervo de Dios, Cláudio de López Bru, Segundo Marqués de Comillas”. “Por el Rvdo. Pe. Eduardo F. Regatillo SJ (da Companhia de Jesus), Postulador”, Sal Terrae, Santander, 1950.

* A vida do primeiro Marquês de Comillas, filho de uma mendiga

O pai dele era um homem que tinha nascido na mendicância e tinha feito fortuna. Eram de um antigo Condado da Catalunha, Reino da Espanha, num lugarejo muito pequeno chamado Comillas. A mãe dele era uma mendiga, uma senhora que tinha um bom número de filhos e não tinha dinheiro com que mantê-los. Então, quando não tinha outro meio, ela ia a casa de conhecidos e pedia umas sopas que se fazem lá na Europa, para alimentar operários. Pedia que dessem também para a família dela. As pessoas tinham pena, davam alguma coisa e com isso ela ia vivendo.

Quando o filho dela –  futuro Marquês de Comillas ficou mocinho –  ele pediu licença à mãe para ir a Barcelona. Ela estava na miséria, ele queria ver se ganhava a vida e com a sobra de seu ordenado, poderia ajudar a mãe, a fim de que pudesse educar normalmente os irmãos etc. Ela lhe deu a bênção e ele foi para Barcelona.

Em Barcelona, ele tomou contacto com outro rapazinho de sua idade,  Trabalhavam juntos, fizeram amizade e dentro de algum tempo resolveram não ser mais empregados, mas fazer negócios juntos. De maneira tal que, com o dinheirinho que eles economizavam, faziam como que um minúsculo pecúlio, que iam aplicando juntos, porque o que cada um tinha era tão pouco que não dava nem para fazer negócio minúsculo. E iam aumentando, aumentando, e afinal de contas cresceu tanto a soma de dinheiro deles que puderam adentrar-se pelo comércio da Espanha com uma parte de suas antigas colônias na América Central, que continuava parcialmente, naquele tempo, sob o domínio da Coroa espanhola.

Fizeram, então, negócio sobretudo com Cuba. Lá eles montaram uma espécie de cabeça de ponte. Tinham alguém em Barcelona – que é o principal porto da Espanha – que os representava e outro agente de confiança em Cuba. E acabaram constituindo uma empresa razoável.

Eles tinham combinado que quando chegasse a um certo montante, cada um tinha bastante capacidade para não precisar do outro e iam começar a andar pelas próprias pernas. Separaram-se e cada um fez uma empresa. E este filho mais velho dessa viúva mendiga resolveu lançar-se em uma atividade muito arriscada: desenvolver uma companhia de navegação transatlântica, que devia fazer todo o trajeto de Barcelona até Cuba e de Cuba até Barcelona, levando passageiros e sobretudo mercadorias. Para o vulto das coisas naquele tempo, isto supunha capitais enormes e era necessário haver um mínimo “x” de navios.

Ele resolveu jogar-se e foi muito bem sucedido. A companhia prosperou enormemente, ele tornou-se um homem muito rico e começou a aplicar os lucros em outros gêneros de empresas na Espanha: exploração de metais, plantações, gado, etc. E naturalmente a fortuna foi se multiplicando por si mesma e se tornou um dos homens mais ricos da Espanha.

O primeiro Marquês de Comillas, pai do Servo de Deus Don Cláudio de López Bru

* O primeiro Marquês de Comillas recebe do Rei seu título de nobreza

Acontece que ao mesmo tempo ele era um homem de convicções monarquistas muito profundas. Como na Espanha houve no século XIX vários movimentos republicanos de fundo comunista, anarquista, etc., ele resolveu, para combater esses movimentos, estabelecer na França, fora da garra do governo republicano espanhol, um centro de invasões militares na Espanha. Então faziam guerrilha monarquista contra os exércitos republicanos ou comunistas da Espanha, que contribuíram seriamente para a derrocada do regime republicano.

Os Srs. estão vendo que o primeiro Marquês de Comillas não era apenas um comerciante preocupado só em fazer dinheiro, mas um homem que tinha vistas mais elevadas, interessava-se pelo futuro do país, era monarquista etc. Então sacrificava dinheiro, tempo, arriscava sua própria posição econômica – pois podia ser perseguido por seus opositores, inclusive pelo governo -, para fazer prevalecer um regime que ele reputava melhor para sua pátria. Era portanto uma pessoa que tinha ideais, ao contrário de tantos e tantíssimos homens de negócio de hoje em dia.

O Rei Afonso XII, agradecido pelo serviço por ele prestado, nomeou-o Marquês de Comillas. Marquês, como os srs. sabem, é um título de nobreza bem alto. O título mais alto de nobreza é o de duque. Superior ao duque só os príncipes e o Rei. Na Espanha o título de príncipe é dado apenas aos membros da Família Real, que pairam acima do restante da nobreza. Os títulos de nobreza, de baixo para cima, são: barão, visconde, conde, marquês e duque. E ele foi nomeado Marquês de Comillas. Para um filho de uma mendiga, isto era uma promoção de estontear.

O Rei – antes de lhe conferir o marquesado – perguntou-lhe qual o título que desejava, queria ser marquês do quê. E ele teve o bom gosto e o belo gesto de pedir para ser nomeado marquês da cidadezinha onde sua mãe havia praticado a mendicância e onde ele fora visto molequinho, andando de um lado para outro carregando sopa, como quem não se envergonha de seu passado, mas compreende que era uma situação e uma atividade honesta, que era dotado de bons predicados comerciais e que de outro lado tinha saúde, era um homem forte, a Providência o favoreceu e fez uma grande fortuna. Ficou o Marquês de Comillas.

Esse é o primeiro Marquês de Comillas, quer dizer, não houve outro antes.

* Educação de Antônio e Cláudio, filhos do Marquês

Teve duas filhas e dois filhos, um chamado Antônio e outro Cláudio. Estes dois eram intimamente ligados com uma amizade de vida e de morte, aos quais quis dar uma educação exímia, que lhes convinha como herdeiros de uma grande fortuna comercial. De outro lado, uma educação intelectual e social muito boa, de maneira que pudessem – para usar uma expressão espanhola interessante – “relucir” nos grandes salões da época, aonde o título de Marquês de Comillas lhes dava acesso.

Assim, estudaram muito. Mas esta biografia, sem dizer claramente, dá a entender que o Antônio era muito menos piedoso que o Cláudio, e que o verdadeiramente piedoso era o Cláudio.

* Viagem pelas cortes europeias

Quando a educação de um jovem dessa categoria se completava naquele tempo, fazia o que se chamava as “Cortes da Europa”. Na Europa daquele tempo ainda não havia repúblicas, exceção da França.

Então um rapaz de categoria visitava as cortes de toda a Europa. Digamos, a começar por Portugal e acabar em St. Petersburg, no outro extremo. Ou começar, se quiserem, em Londres e acabar em Roma, por exemplo, passando por Viena, Berlim, Paris, aonde visitavam a família real francesa destronada, mas que tinha príncipes lá morando. Eles entravam nesse ambiente de corte da Europa, que é brilhante, de alta distinção, mas que evidentemente podia seduzir para o mundanismo enormemente.

Esse giro pelas cortes deveria concluir a educação deles. Deveriam adotar um porte distinto, maneiras bonitas, sabendo tratar com os grandes da terra, sabendo conversar desembaraçadamente com os homens mais importantes, mais dignos de atenção etc., de maneira que eles ficassem dos pés à cabeça preparados. Mas ao mesmo tempo com uma formação religiosa muito boa. Isso o pai mandou dar aos filhos e o nosso Cláudio Comillas aproveitou profundamente e desde menino extraordinariamente piedoso. Em todo o trajeto que ele seguiu, era de Comunhão assídua ou diária. E a viagem terminou com uma visita ao Papa Pio IX. O jovem Cláudio enviou uma linda carta para a família descrevendo o Pontífice. Após o périplo, voltou a Barcelona.

Papa Pio IX

* A tuberculose mata Antônio e atinge Cláudio

Em Barcelona, começa a vida de trabalho. Porque estava tudo muito bonito, tudo lustrado, tudo enfeitado, agora precisava carregar a fortuna nas costas. Como carregar uma fortunaça dessas? Ele e o irmão se puseram ao trabalho.

O irmão Antônio contraiu uma tuberculose galopante e Cláudio cuidou dele. E o fez com tanta dedicação que a doença o contagiou e ficou tuberculoso durante a vida inteira. E isto o fazia sofrer muito, mas que ele escorava no duro, levando a vida de um homem normal. Naquele tempo não sabiam curar a tuberculose como hoje, não havia os antibióticos, e sobretudo não tinham muita idéia do papel do ar livre na reconstituição do tecido pulmonar, do repouso etc., toda essa cura era muito mais elementar.

Afonso XII

 

* Vida de Don Cláudio em seu palácio e na corte real

Ele levava a vida de um homem comum e trabalhava intensamente. A tal ponto que em seu palácio tinha um escritório, bem como outro no centro da cidade. De manhã levantava-se, comungava, voltava e ficava trabalhando até a hora do almoço. E quando vinham dizer que a refeição estava pronta, ficava trabalhando até a hora em que todos estivessem sentados. Só então entrava para poder aproveitar até o último minuto de trabalho.

Durante o almoço conversava com a senhora, com parentes – os Srs. sabem que na mesa dos ricos nunca faltam convidados – de maneira que sempre havia gente. E a conversa dele era muito agradável, muito afável, muito inteligente, muito interessante. Ele era um homem muito inteligente. Depois com a experiência da vida que ia crescendo, as viagens que fez, sua prosa era muito cheia de evocações etc. Gostava-se muito de conversar com ele, sendo sua prosa puríssima, e nunca, em ocasião nenhuma proferisse uma palavra indecente ou algo que pudesse se parecer. Era um homem irrepreensível.

Devoto muito especial de Nossa Senhora, comparecia com freqüência às igrejas de Madri onde estivesse exposto o Santíssimo Sacramento. Ficava muito tempo rezando e se pode dizer que era o único lugar onde ele por assim dizer esbanjava tempo era rezando diante do Santíssimo Sacramento ou diante de uma imagem de Nossa Senhora. Aí ele gastava o tempo à vontade.

Nas ocasiões necessárias, ele comparecia à corte e então com traje de gala, com as condecorações todas que tinha etc., e sabia se impor também na corte. Infelizmente os costumes da nobreza europeia eram péssimos. Eram apenas um pouco melhores do que os costumes da burguesia contemporânea. E neste livro conta o caso – um entre outros – do respeito que impunha. Durante uma recepção no Palácio Real estavam conversando o Rei e uma série de pessoas. E um marquês começou a contar anedotas inconvenientes. O rei ouviu, olhou para a ponta da galeria, viu Don Cláudio que entrava e disse: “Silêncio, Comillas entrou na sala. Vão parar essas conversas”. Quer dizer, ele fazia a lei. Se fossem dizer na sua presença, censuraria.

 

* Jornais católicos do Marquês de Comillas

Era um homem muito atento para todo o serviço da Igreja em seu tempo. Favorecia de modo assinalado a ação da Igreja, não só no domínio puramente espiritual, mas também no plano temporal. Ou seja, fazer com que as leis da Espanha fossem favoráveis à Igreja, que fossem conforme as Leis do Evangelho, isto era uma preocupação contínua dele, no que inverteu quantidades de dinheiro colossais.

Chegou a fundar mais de um jornal católico do qual ele mesmo dava a direção. Mas como havia muita calúnia e muita oposição, que arrostou de peito aberto, os jornais católicos eram deficitários. Assim dizia ele aos seus funcionários: “Pouco importa! Para isso eu tenho dinheiro. Se eu não tenho dinheiro para favorecer a imprensa católica, não me adianta ser rico e carregar essa fortuna nas costas. Eu carrego essa fortuna para poder gastá-la em benefício da Igreja, da Civilização Cristã. Portanto eu vou aplicar”.

Há inclusive cartas de consolação dele para seus diretores de jornal quando estes, no final do ano, constatavam déficit. Escrevia então: “Não se incomode que o responsável sou eu, quem paga sou eu. Você está triste com o prejuízo que me deu, eu estou alegre com o que a minha alma lucrou no Céu pelo bem que fez a sua folha. Vamos continuar. Economize o que puder; o que não puder não economize. Toque para a frente porque a vida é essa”.

* Influência junto ao episcopado: presidência da Ação Católica

Ele era homem de não se contentar apenas com isso. O episcopado espanhol daquele tempo era naturalmente muito mais conservador do que o de hoje. Em nossos dias, seria tido por ultramontano, como ultra contra-revolucionário em comparação com o episcopado espanhol de hoje. Esse episcopado gostava muito dele. Os sucessivos Núncios Apostólicos – embaixadores do Papa em Madri – gostavam muito dele.

Quando havia um posto que exigia inteligência, coragem e absorção de tempo, confiavam-no, desde que fosse proporcionalmente alto para o Marquês de Comillas. Então ele foi, por exemplo, presidente da Ação Católica Espanhola. Pelo que se entendia naquele tempo, algo completamente diferente do que foi depois a Ação Católica. Era uma coligação de forças católicas. Ele foi seu presidente durante muito e muito tempo.

Na agenda de seus trabalhos figurava assim: a Transatlântica, a Mina de Ferro de não sei quê, a Ação Católica, tal Banco, depois tal outro Banco, tudo coisas dele. Entre as ocupações principais para a agenda durante o dia estava uma reunião na Ação Católica.

Às vezes, as pessoas que participavam da reunião lhe diziam: “Marquês, nós vemos que estamos lhe tomando um tempo enorme, o Sr. tem outros encargos. O Sr. não que cessar a reunião?” Ele dizia: “Do meu tempo cuido eu, o Srs. cuidam dos interesses da Igreja. Quando eu entender que vale a pena eu sair, eu sairei, mas eu prefiro deixar de ganhar mantendo-me ausente do expediente durante algum tempo, do que ganhar mais, porém não fazer nada pela causa da Civilização Cristã”. Com o que dava aos outros um magnífico exemplo.

Obteve com isso as maiores condecorações que um Papa podia dar a um leigo. O soberano, Afonso XII e depois seu filho, Afonso XIII, o cumularam também de títulos.

* Exemplo de perseguições contra o Marquês

Ele era tudo isto e ao mesmo tempo com uma fortuna gloriosa, radiante. Mas como já disse antes, caluniado. E, por causa disso, às vezes alguns políticos lhe faziam onda contra para prejudicá-lo nos negócios.

Para funcionar um banco é preciso ter uma licença governamental. Houve quem quisesse caçar as patentes de seu banco.

Uma companhia transatlântica com sede na Espanha, para aportar naquele país, era preciso uma licença governamental. E de tempos em tempos era preciso renovar a licença. E se ele obtinha essa licença em Barcelona, por exemplo, nenhum outro podia ter a mesma licença para o mesmo trajeto naquele porto, de maneira que isto era concedido pelo Parlamento Espanhol. Levantavam-se então pessoas no Parlamento e falavam que ele era um carola, um retrógrado, um homem impossível e às vezes procurando por em dúvida sua honestidade.

Nesta biografia se narra que um Primeiro ministro espanhol liberal, de posição oposta ao Marquês de Comillas, o Conde de Romanones, foi atacado no Parlamento por ter dado uma patente ao Marquês de Comillas. Disseram que Romanones não havia verificado bem qual era a honestidade de Comillas. O Romanones disse: “Eu sou adversário político do Marquês de Comillas. Mas eu devo dizer que ele é o homem mais honesto que há na Espanha”. Quer dizer, era desse jaez sua probidade…

* Peregrinação de 10 mil operários espanhóis a Roma, organizada por este Grande de Espanha e Servo de Deus

Na Ação Católica, promoveu atos de um alcance extraordinário dentro do âmbito espanhol. Por exemplo, organizou com os diretores da Ação Católica espanhola e com a aprovação do Episcopado, uma peregrinação de nada menos de 10 mil operários espanhóis para visitarem a Santa Sé e agradecerem ao Papa a promulgação da Encíclica Rerum Novarum.

A oposição que os revolucionários tinham a essa colossal peregrinação foi tal que organizaram em Roma piquetes de agressão contra os espanhóis que estivessem visitando Roma, para conhecer igrejas, santuários, lugares vários, restaurantes etc., para agredir e depois dizer que foram os espanhóis que começaram a briga. A autoridade do Comillas era tal que àqueles operários, que em grande parte não eram subordinados seus, ele deu ordem – meus caros espanhóis, conseguir isso de espanhol não é fácil… – que ninguém respondesse às provocações, que as acolhessem com dignidade mas com humildade e não brigassem em nenhum caso. E também deu outra recomendação: que saíssem de casa o menos possível e sómente em grupos muito grandes para ir ao Vaticano. Ele obteve isso com tal êxito que não houve nenhum incidente com esses 10 mil espanhóis na cidade de Roma.

Os srs. vêem por aí a alta respeitabilidade moral desse homem. Não era pelo dinheiro que tinha, nem pelo título que portava, mas era o respeito moral que incutia. Eram razões morais.

Ele encaminhou essa gente toda de volta para a Espanha, mas com um fato que mostra bem o atraso do tempo. O Marquês pôs grande parte de seus navios à disposição para transportar os operários dos portos espanhóis para os portos italianos. E um bom número desses operários, quando chegou a hora de voltar, disse que não queria viajar de navio, porque se nausearam demais e não tinham coragem de embarcar. O Comillas fretou, então, trens para todos que não quisessem ir de navio… E assim a procissão se realizou na perfeição!

* Inauguração do monumento ao Sagrado Coração de Jesus no “Cerro de los Ángeles”

A fim de simbolizar adequadamente o predomínio de direito que a Igreja tinha adquirido na Espanha – e que Ela tinha direito de ter -, ele foi um dos que mais contribuíram para que se erguesse o famoso monumento ao Sagrado Coração de Jesus no Cerro de los Angeles. A palavra cerro em português se usa muito também; significa uma certa elevação de terreno, montanha não muito alta. Se não me engano, tal monumento se encontra no centro geográfico da Península Ibérica.

Ele esteve presente na inauguração e foi uma das pessoas principais no ato inaugural pelo muito que fez para que esse monumento fosse levantado (o jornal espanhol ABC de Madrid, do dia seguinte à inauguração, 31-5-1919, pág. 9, publica uma crônica sobre este evento e narra que, entre as personalidades presentes, se encontrava “o marquês de Comillas, alma desta festa, trajando o uniforme da Ordem de São Gregório”, n.d.c.). O Rei Alfonso XIII e a Corte da Espanha participaram também do ato desta solene inauguração.

Universidade de Comillas, construída graças aos generosissimos donativos feitos pelo primeiro e sobretudo pelo segundo Marquês de Comillas

* Apoio a intelectuais, operações financeiras: império econômico e espiritual

Ao par de todas essas atividades, ele era um intelectual, recebia intelectuais para promover a Contra-Revolução nesse campo também, favorecendo os que mais publicassem obras católicas para combater a onda má.

Os srs. imaginem na São Paulo de hoje um pluri-miliardário que agisse assim… Eu tenho e impressão de que em qualquer grande cidade de hoje a fortuna dele não resistiria, porque seria tal o ataque vindo de todos os lados, tal a sabotagem, tal a difamação, tal a retração de encomendas, tal ataque, que um homem desses afundava, qualquer que fosse a sua fortuna. A dele, conseguiu mantê-la no alto e crescendo, de maneira tal que se lançou até – numa pessoa cujo processo de beatificação esteja em curso causa surpresa – em operações financeiras. Quer dizer, emprestando a juros, comprando uma moeda, vendendo outra, apresentou-se nesse campo e ganhou dinheiro também. Tinha um império econômico – se diria hoje em dia – e tinha um império espiritual!

* O compromisso com a esposa na noite de núpcias

Para os Srs. terem idéia de sua seriedade, em sua noite de núpcias, ele fez com a esposa um trato: quando um dos dois estivesse próximo ao fim de sua vida, o cônjuge sadio deveria avisar o outro tão logo que entrasse em perigo de morte, para poder chamar um sacerdote e preparar-se para falecer condignamente.

A marquesa, sua esposa, morreu depois dele. Logo que caiu em perigo de morte, a marquesa avisou: “Cláudio, lembra-se de tal compromisso assim?” Ele disse: “Lembro-me”. Ela: “Eu estou cumprindo meu compromisso. Você está em perigo de morte”. Ele: “Obrigado, eu já estava percebendo. Mande chamar o padre tal, mande fazer aquilo, aquilo outro…”, com toda lucidez, com toda a calma, rumou para a morte como um Bem-aventurado.

* A coragem contra o respeito humano

Eu me perguntava a mim mesmo o que esse homem teria propriamente de um gênero de virtudes que a nós nos interessa um tanto e a respeito das quais o autor do processo de beatificação não diz uma só palavra. Esse homem era muito corajoso contra o respeito humano. Dou muito mais valor ao homem que é muito corajoso contra o respeito humano do que ao homem que o é em relação à sua vida. Resistir a uma gargalhada prova mais heroísmo do que enfrentar circunstâncias em que se possa levar um tiro. Mas eu gosto que um homem reuna as duas formas de coragem. Às vezes, há ocasiões em que por legítima defesa é preciso até dar um tiro. E às vezes não é legítima defesa da própria pessoa, mas é a legítima defesa de um templo atacado, de um personagem que tem direito a viver e que o homem tem que defender.

E eu me perguntava: “Esse homem tão bom, tão generoso, que criava para seus operários condições ideais de existência, etc., esse homem seria bastante corajoso quanto eu quereria? Tanta doçura não será o contrário da coragem?”

* O varão forte

Vou lendo o livro e encontro quase no final, no capítulo XVII, o título: “O Varão forte”. E me alegrei!

Sublinhei alguns trechos, mas não fiz isso com a intenção de lê-los aqui no auditório. Durante o dia inteiro não tive ocasião de selecioná-los. Assim, começo com a leitura.

* Coragem, força e grandeza de alma nas más circunstâncias

“Mostra-se a virtude da fortaleza no Marquês de Comillas, em sofrer varonilmente as adversidades. E em empreender com grande presença de ânimo coisas árduas e arrostar perigos”.

A definição está muito bem feita! A fortaleza supõe força de alma nas circunstâncias más, supõe grandeza de alma para fazer coisas difíceis e coragem para enfrentar o perigo. Isso define o varão forte. É uma definição que vale a pena termos para o nosso exame de consciência, porque todo aquele que pertence a uma TFP deve ter por ideal ser um varão forte. Os Srs. viram no (segundo) Marquês de Comillas a fortaleza de sofrer com coragem a tuberculose, que é uma doença que mina, desgasta; e ele dar muito, vencendo um corpo que dá pouco. Isso é fortaleza!

Empreender coisas grandes: ele o fez de toda ordem! Quando essa peregrinação de 10 mil operários estava para embarcar, ele saiu do palácio episcopal com o bispo e com o governador da província, e os anarquistas atacaram o carro onde iam. O Comillas, de bastão na mão, dava golpes em quem se aproximava, expondo-se ao risco de ser morto ele mesmo.

“A resignação tão admirável e sobre-humana do Marquês nas maiores calamidades, o seu delicadíssimo coração, foi notável”. E conta aí coisas de caráter íntimo, sensível, em que sofreu muito. (…)

“Nós vimos por ocasião da morte de suas pessoas mais queridas, quanto ele tinha em vista a possibilidade de perder sua fortuna de um momento para outro.

“Era uma coisa sobre a qual ele falava com frequência: `Toda fortuna se arruina facilmente. Como eu farei se eu perder essa fortuna?'”

Ele naturalmente tinha a noção que estava se expondo muito e que de repente lhe passavam uma rasteira e caía no chão.

“Ele dizia: `Contanto que a marquesa e eu tenhamos do que viver do meu trabalho, eu estarei contente, porque terei servido a Deus até o fim'”.

“E quando em suas campanhas pela ação social católica ele encontrava desdém, quando não oposição, daqueles que deveriam prestar-lhe apoio, ou quando se anunciava a ele algum grande prejuízo como o naufrágio de um navio, em que toda embarcação ia a pique, como por exemplo, o navio Santander, ele conservava o vigor de alma até o fim”.

Por exemplo, um navio dele afundou, não me lembro bem se em Barcelona ou em Santander, e vieram avisá-lo: “Marquês, seu navio tal está afundando e todos os esforços para salvá-lo foram vãos. De um lado e de outro os passageiros estão se perdendo. É preciso tomar junto à Companhia de Seguros as providências mais imediatas”. Ele disse: “Junto à Companhia de Seguros, não. Minha principal responsabilidade é por aqueles que estão lá perdendo a vida”. Por causa disso, mandou vir uma lancha e foi pessoalmente, doente daquele jeito, ajudar o salvamento daqueles que estavam afundando. Apenas depois disto é que foi ver se os funcionários estavam tomando mesmo todas as providências burocráticas, quando naufraga um navio. Ele tinha responsabilidade por isso também, era defender sua empresa. Mas era menor do que salvar as almas.

“Estávamos numa reunião do conselho da Transatlântica em Madri – era um dos diretores da companhia que depôs no processo de beatificação – quando nos anunciaram ter afundado o navio Esquierre. `Houve vítimas?’ `Sim, senhor marquês’. Pereceram quase todos os navegantes. `Então, disse ele, não é hora agora de seguir tratando de negócios’. E suspendendo a sessão, ele foi em seguida à igreja de San Ginés onde estava sendo exposto o Santíssimo Sacramento. Ali ele esteve em oração durante uma meia hora. E logo em seguida retomou a reunião para tomar as providências sobre as famílias das vítimas”.

Desta vez ele não foi, por alguma razão, salvar pessoalmente, mas a primeira coisa que fez foi rezar por aquelas almas e depois voltou para a reunião. Os Srs. estão vendo portanto como era um homem de espírito sobrenatural afiado e resignado. Em vez de ficar abatido por ter perdido um navio, nada! “Vamos providenciar agora o que temos que providenciar!” Isto é um homem!

“Assim também ele deu provas de uma sublime resignação quando afundou, por razão criminosa, o navio chamado Afonso XII, um transatlântico, na Baía de Santander”.

E vem a história que acabo de contar.

* Enfrentando atentados, grevistas…

“Ele mostrou a mesma fortaleza na constância com que levou a cabo grandes empreendimentos, tanto espirituais quanto materiais”.

Contra ventos e marés, nas circunstâncias mais opostas, ele resolvia fazer e fazia!

“O valor com que enfrentava os perigos e deixava pasmos até os mais corajosos. Por exemplo, em Barcelona, ante a ameaça dos revolucionários, ele foi a pé, diante da carruagem real, abrindo o caminho para defender a vida do monarca”.

Os Srs. precisam notar que era carruagem daquele tempo, a cavalo etc., e que não queriam deixar o rei passar, eram revolucionários. Ele foi à frente, expondo-se para abrir caminho para a carruagem real.

“Nós o vimos num Congresso Eucarístico de Madri, colocar-se atrás de um personagem suspeito, fiscalizando seus movimentos de perto, pronto para lançar-se sobre ele ao menor intuito criminoso que ele deixasse entender de matar o rei”.

Quer dizer, ele estava atrás, e, ao menor gesto, ele se atracava com o sujeito. E era um homem doente, um tuberculoso. Ele podia disso morrer de uma hemoptise. Pouco lhe importa. Ele quer defender a vida do rei!

“Nós o vimos também lutando de pistola na mão num lugar chamado Bruxes com outro que se aproximou de Sua Majestade em atitude inquietante”.

Ele achou a situação inquietante e foi de pistola na mão em cima do suspeito. Lutaram e ele o venceu.

“Vimo-lo também no `Palco de los Calaveras’ vigiando caso alguém atentasse no teatro contra a família real”.

Bem aventurado Papa Pio IX

* Lutas físicas em defesa da religião

“Semelhante intrepidez ele desenvolveu na defesa da religião. No começo do século XX o governo anti-clerical desencadeou uma perseguição contra os religiosos e especialmente com uma lei ímpia, chamada Lei das Associações. Os católicos realizaram uma grande manifestação em defesa dos religiosos na Praça de Toros de Barcelona, à qual ele compareceu com toda a sua ‘mesnada’…”.

“Mesnada” é uma expressão antiga pitoresca, quer dizer todos os parentes, todos os empregados, tudo quanto era gente que dele dependia.

“Saíamos da praça desarmados e com as mãos nos bolsos – disse o Sr. Ferrer – quando os inimigos começaram a atirar contra nós. ‘A eles!’, gritou o marquês impertérrito. E ele foi quem se distinguiu nessa ocasião enfrentando os que vinham”.

E sem armas!

* Ajuda aos jesuítas perseguidos pelo governo

“Ele foi quem mais se distinguiu acima de todos, na defesa dos jesuítas, durante a revolta de 1900 em Barcelona, expondo sua vida a grandes perigos. Deu a cada jesuíta uma passagem para que se refugiasse num vapor dele no porto, que atrasou propositalmente sua saída para que os jesuítas pudessem descansadamente alcançar o navio, para que este os levasse gratuitamente para onde eles queriam. (…)

“Trabalhou com o Governador e Capitão Geral para que enviassem aos jesuítas nessa ocasião gente que os defendesse à unha. E ele mesmo enviou ali pessoas de sua confiança para que se pusessem à disposição do padre provincial. E ainda que estivesse proibida toda a circulação de carruagens, ele mesmo, às dez horas da noite, foi ao colégio para saber se os padres estavam tranquilos e bem protegidos. Tudo isso está escrito no diário do Pe. Arjona, um dos mártires da nossa última perseguição vermelha”.

* Atuação durante a “semana trágica” em Barcelona

“Ele foi quem, na semana trágica de Barcelona em 1900, defendeu com denodo os religiosos que eram atacados nas suas próprias igrejas”.

Defendeu a tiro, a músculo, os religiosos atacados em sua própria igreja.

“Em uma greve de seus operários, o Marquês se encarregou do serviço de bondes. Como um simples diretor de bondes, ele mesmo empunhou a manivela de um deles para dirigi-lo. E quando um revolucionário pulou no bonde para imobilizar os seus braços, ele com agilidade voltou-se para trás e meteu uma tal bofetada no homem que este saiu correndo. Porque – seja dito de passagem – o Marquês, apesar de suas enfermidades físicas, era muito forte”.

“No sanatório de Penticosa, havia ainda um aparelho de ginástica consistente em uma polia com uma corda e um peso. Nenhum dos que ali estavam era capaz de levantar o peso, que só D. Cláudio conseguia levantar.

“Vimos com que valentia ele foi entre as turbas agressoras, que em Valência tentavam impedir o embarque dos peregrinos para Roma”.

É aquela história de que já mencionei com o bispo e governador da província.

* Coragem também durante enterro de uma vítima dos anarquistas

“Nota um de seus secretários: `Na época do terror em Barcelona ele saía pelas ruas com pistola no bolso, que nunca usou nem usaria para defender-se a si mesmo senão a outros. Foi assassinado por anarquistas, em Madri, o principal contratista de obras, Sr. Madurel, por ter admitido no trabalho operários de sindicatos católicos. Depois de assistir o enterro desse homem em tais circunstâncias, embora soubesse que era arriscadíssimo, fez questão de acompanhar todo o enterro a pé, porque achou que o deixar de assistir ao enterro poderia dar mais ousadia aos socialistas e abater os católicos. E contra pareceres de pessoas mais temerosas, ele mesmo presidiu o enterro expondo-se à morte a qualquer momento”.

Os srs. estão vendo portanto que era um homem de uma coragem inteiramente excepcional.

* Presença ostensiva em congressos católicos, apesar das ameaças de anarquistas: “Deus o guardou”

“As ameaças concretas de morte contra ele foram bastante para que lhe aconselhassem de deixar de comparecer a um grande congresso católico em Madri. Pelo contrário, ele não temeu nada e durante todo o tempo presidiu o congresso e depois foi à frente na procissão, não obstante as ameaças de morte.

“No cumprimento de seus deveres – diz o Marquês de Valdeiglesias – ele não teria vacilado nem sequer diante da morte. Quisemos fazê-lo desistir de presidir a Junta da Companhia de Tabacos das Filipinas, porque se supunha que iria ser tormentosa pela conjuração de muitos membros que queriam apresentar um caso para dar um voto de censura contra ele e derrubar a sua diretoria. Apesar dos nossos esforços, ele presidiu o congresso e o dirigiu durante duas horas. À força de medida e de prudência, ele fez com que tudo terminasse em calma”.

Não era portanto um valentão, mas era um homem que sabia aplicar a prudência nas ocasiões necessárias.

“A sanha dos revolucionários contra o patrão rico e cristão, contra o sustentáculo firme da ordem, era raro que se contentasse com ataques de pena. Como se explica que caindo tantos patrões de escassa significação, não se lembraram entretanto de matar o marquês? Deus o guardou, porque ele bem pouco fez para se guardar a si mesmo. Ele acreditava que um de seus deveres era apresentar-se tranquilo, em geral, no meio das perturbações e jamais demonstrar medo, mudando seu modo de viver”.

Quer dizer, se ele saísse para lugares diferentes, a fim de despistar assassinos, ele demonstraria medo. Era o dever dele demonstrar valentia. E só para cumprir este dever, e dar assim coragem aos outros, ele arriscava sua vida.

* Durante as greves, passeia desassombrado pelas Ramblas

“Em 1900 os socialistas inundavam la Rambla de Barcelona, como a primeira festa do trabalho. O receio de possíveis agressões fez com que as pessoas, possivelmente alvos de ataque dos socialistas, baixassem as entradas de suas lojas e as venezianas de suas casas. D. Cláudio, pelo contrário, acompanhou o tempo inteiro a manifestação, e era o único que durante o desfile parecia tranquilo. E era ele dos mais visados.

“Com essa greve geral, o horizonte tornou-se tão ameaçador, que ele fez subir a bordo de um de seus barcos as mulheres de sua família, ficarando com ele apenas a marquesa e seu cocheiro”.

Ou seja, a Marquesa não quis deixá-lo.

“‘Francisquito – disse ele ao cocheiro – quer fazer o favor de tirar o carro da estrebaria para eu sair?’ O cocheiro percebeu e disse: ‘Senhor, com o senhor eu vou para qualquer parte’. Diz o Marquês: ‘Vamos então sair e ver o que acontece’. E sua carruagem foi a única de Barcelona que andou por todas as ruas, fez-se ver, e foi à igreja onde se celebrava as 40 horas de Adoração. Depois ele saiu e fez visita a vários parentes, e voltou para casa sem que ninguém ousasse perturbá-lo em nada”.

“Seu honroso lacaio se ufanava em ostentar a benção papal que os marqueses tinham lhe trazido de Roma. E como uma relíquia mostrava o magnífico relógio de ouro de cuja cadeia grossa pendia uma autêntica peça de ouro. Esse era um presente de D. Cláudio, agradecido por ele ter arriscado a vida levando-o a cavalo pelas ruas de Barcelona num dia de tanto perigo”.

Quer dizer, ele não agradeceu na hora, mas mandou comprar um relógio de ouro muito bonito, com uma corrente de ouro, e ao mesmo tempo lhe arranjou uma benção do Papa. Entregou o prêmio do heroísmo. Vejam o bonito pensamento: não basta dar ouro, é preciso dar bênçãos.

* Ante atentado contra ele perpetrado por anarquistas

“O Ministro do Governo, Marquês de Valdivia, lhe comunicou oficiosamente que uma junta anarquista de Sals, tinham decretado sua morte para o ano de 1907. Ao voltar do sanatório de Penticosa, o conde de La Viña lhe envia um folheto do lugar chamado Torrida de Mármore, publicado no estrangeiro, em que Cánovas, Comillas e outros personagens, eram apontados como causadores das famosas e supostas torturas de Monte Ruiz feitas contra anarquistas. Quando o Marquês viu isto, já havia sido morto um dos sentenciados, o Cânovas. Ele portanto tinha todos os motivos para recear que o segundo seria ele. Contudo, ao telegrama do Marquês de Valdivia em que este lhe ofereceu uma escolta de polícia, ele respondeu recusando, e também recusando os sinais do assassino. Se ao voltar algum dia para casa, aparecesse uma pessoa suspeita, ele saberia como agir.

“De fato, um dia, ao chegar à sua casa, notou um homem suspeito. D. Cláudio dirigiu-se a ele diretamente, em passo reto e disse: ‘O que o Sr. deseja?’. A resposta: ‘Entregar-lhe este pedido’. Mais tarde esse homem explicou que tinha a intenção de matar o Marquês ao entregar o pedido. Mas tal era o estilo do Marquês que não teve coragem.”

Esses são alguns traços desse homem verdadeiramente excepcional.

O que devemos deduzir disso? Nós devemos deduzir que a verdadeira coragem católica abrange também esse estilo de fortaleza. E que não é com uma bondade adocicada que se resolvem as coisas, mas com coragem. E que, dentro dos princípios da moral católica, não recusa nenhuma ocasião.

 

(Conferencia do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP, proferida em São Paulo, em 28 de dezembro de 1988. Sem revisão do autor.)

www.pliniocorreadeoliveira.info

 

 

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Martírio de São João Becket (Foto: Wolfgang Sauber)

 

Foi particularmente feroz o procedimento contra a memória de Tomás Becket, só pelo temor de que seu exemplo pudesse arrastar outros a opor-se à autoridade espiritual do rei. A 24 de abril de 1538, Tomás Becket foi citado formalmente para que comparecesse em juízo e desse conta de si. Como o santo, depois de trinta dias, empenhasse em não sair de sua sepultura, onde descansava havia três séculos e meio, o Rei, por graça, concedeu-lhe um defensor. Tomás foi declarado culpado de rebelião, de contumácia e traição. Seus ossos foram queimados, as preciosidades de seu sepulcro confiscadas para o tesouro real, e se anunciou a todos os súditos, por ordem do Rei, que Tomás não era santo, mas um rebelde e traidor, e que, portanto, se devia apagar seu nome, sua memória e destruir todas suas imagens (WEISS, vol. VIII, p. 934)

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Embaixador Joaquim Nabuco

Um episódio da Abolição, a minha ida a Roma em começo de 1888, contarei aqui, porque será um elo em minha vida, um toque insensível de despertar para partes adormecidas de minha consciência.
(…)
Roma estava repleta de peregrinos por causa do jubileu, no Vaticano o trabalho era enorme; apesar disso, consegui abrir caminho até o Santo Padre. Em 16 de fevereiro eu apresentava meu memorial ao Cardeal Rampolla. Hoje eu o teria redigido de outro modo, mas hoje não tenho mais o ardor do propagandista.
(…)
Sua Santidade concedeu-me uma audiência particular. Dei conta dela no mesmo dia, escrevendo para O Pais… Dentre os papéis velhos que formam as parcelas de minha vida, a expressão é de uma carta do Imperador – outro papel velho que é para mim uma relíquia – este há de ser sempre um dos mais preciosos; a emoção que ele guarda não pode ser repetida; e é dessas que aumentam à medida que os anos se afastam… Por isso o reproduzo agora:
“Tive hoje a honra de ser recebido em audiência particular pelo Papa, e como essa audiência me foi concedida com relação ao assunto político que me fez vir a Roma, não devo demorar a reconstrução da conversa que tive com Sua Santidade e que eu trouxe do Vaticano taquigrafada, fotografada na memória. Foi uma insígne benevolência de Sua Santidade conceder-me tal audiência em um tempo em que cada um dos seus momentos está de antemão empenhado aos bispos, arcebispos, e católicos proeminentes, que lhe vêm trazer algum dom por ocasião de seu jubileu.

“O Papa está constantemente a receber numerosas deputações influentes de todas as partes do mundo e dirige-se sempre a elas com uma alocução animada. Esse acréscimo de trabalho às suas constantes ocupações de cada dia não deixa muito tempo de descanso ao Santo Padre, sobre quem os seus setenta e oito anos, juntos à majestade da tiara, começam a pesar; no entanto é nessas horas de repouso que Sua Santidade recebe individualmente os homens notáveis do mundo católico e conversa com eles largamente sobre o assunto pelo qual cada um se interessa..

“Eu, porém, era um desconhecido e não vinha trazer nada ao Papa, vinha só pedir-lhe; nenhum serviço tinha prestado nunca à Igreja, e a questão que me ocupava, exigia que Sua Santidade lesse antes uma série de documentos e fizesse alguma meditação sobre a grave resposta que me ia dar. Isto era um esforço, e, nas circunstâncias especiais do jubileu, a atenção a mim  prestada pela mais alta de todas as individualidades humanas é um ato a que ligo ainda maior apreço e reconhecimento por saber que na minha humilde pessoa foi aos escravos do Brasil que Leão XIII quis acolher paternalmente e fazê-los chegar até ao seu augusto trono, como, simbolicamente, o mais elevado de todos os lugares de refúgio.

“O Papa recebe em audiência particular, sem testemunha alguma. Ninguém está na sala senão ele e a pessoa a quem a audiência é concedida. Em uma sala contígua está um secretário e um oficial da guarda, mas uma vez introduzido no pequeno salão, o visitante acha-se a portas fechadas em presença somente de Leão XIII. O Papa, que lia um livro de versos latinos quando fui anunciado, mandou que me assentasse numa cadeira ao lado da sua e perguntou-me em que língua devia falar-me. Eu preferi o francês.

“A impressão que senti todo o tempo da audiência, que não durou menos de três quartos de hora, não se parece com a sensação causada pela presença de um dos grandes soberanos do mundo. O trono brasileiro é uma exceção. Nunca no Brasil houve homem tão acessível como o Imperador, nem casa tão aberta como São Cristóvão. Mas os monarcas em geral são educados e crescem, porque a sua condição é superior à do resto dos homens, na crença de que são melhores do que a humanidade. A todas as vantagens do Papado como instituição monárquica, notavelmente a eletividade, é preciso acrescentar essa superioridade do Papa sobre os outros soberanos, que estes nascem, vivem e morrem no trono, e que os Papas só chegam à realeza nos últimos anos da vida, isto é, que vivem toda a vida como homens e no trono não fazem senão coroar a sua carreira. Esse caráter humano da realeza pontifícia é a condição principal de seu prestígio, assim como a eletividade é a condição da sua duração ilimitada e o espírito religioso a da sua seleção moral. Eu diria mesmo que a sós com o Papa a impressão é antes a do confessionário que a dos degraus do trono, se ao mesmo tempo não houvesse na franqueza e na reserva de Sua Santidade alguma coisa que exclui desde o princípio a idéia de que ali esteja o confessor interessado em descobrir o fundo da alma do seu interlocutor. A impressão dominante é, entretanto, de confiança absoluta, como se, entre aquelas quatro paredes, tudo o que se pudesse dizer ao Sumo Pontífice tomasse caráter de uma conversa íntima com Deus, de quem estivesse ali o intérprete e o medianeiro.

“As palavras que caíram dos lábios do Santo Padre gravaram-se-me na memória, e não creio que se apaguem mais, nem creio que eu deixe de ouvir a voz e o tom firme com que foram ditas. O Papa começou notando que ele me havia demorado muito em Roma, mas que eram numerosos os seus deveres nesse momento, ao que respondi que o meu tempo não podia ser melhor empregado do que em esperar a palavra de Sua Santidade.

[Joaquim Nabuco dá um relato de sua atuação política e diplomática em favor da abolição da escravatura]

“Sua Santidade respondeu: Ce que vous avez à coeur, l’Eglise aussi la à coeur.

 

(JOAQUIM NABUCO – Minha Formação)

 

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Jazigo do Barão de Antonina, no Cemitério da Consolação

Toda cidade católica reverencia piedosamente seus mortos ilustres. E São Paulo foi uma cidade muito católica, além de possuir aspectos marcadamente aristocráticos. Essa simbiose católico-aristocrática ainda pode ser percebida no ambiente imponderável do cemitério da Consolação.

As grandes famílias que constituíram o cerne da vida social, cultural, política ou econômica da cidade depositaram nesse campo-santo os restos de seus entes queridos que esperam a ressurreição do último dia. Sente-se ali uma paz e uma suavidade cheia de elevação. E, notadamente junto a certos túmulos, um convite à oração calma e esperançosa.

 

 

Gregório Vivanco Lopes – Revista “Catolicismo” – abril 2008

www.catolicismo.com.br

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Afonso Celso de Assis Figueiredo (Visconde de Ouro Preto) Ministro do Império brasileiro

 

Em junho de 1889, ao apresentar-se o novo ministério na Câmara dos Deputados, o deputado padre João Manuel declarou-se republicano, e concluiu o seu discurso bradando: “Viva a República!”
Levantando-se, o Visconde de Ouro Preto retrucou energicamente:
— Viva a República, não! Não e não! Pois é sob a Monarquia que temos obtido a liberdade que os outros países nos invejam, e podemos mantê-la em amplitude suficiente para satisfazer as aspirações do povo mais brioso. Viva a Monarquia! Forma de governo que a imensa maioria da Nação abraça, e a única que pode fazer a sua felicidade e a sua grandeza.

*

Preso na noite de 15 para 16 de novembro, o Visconde de Ouro Preto foi conduzido ao quartel do 1º Regimento, onde adormeceu. Alta noite, entrou no compartimento um oficial, o tenente Menna Barreto, que lhe gritou:
— Acorde e prepare-se, que mais tarde tem de ser fuzilado.
Ouro Preto se pôs de pé e replicou:
— Só se acorda um homem para o fuzilar, e não para o avisar de que vai ser fuzilado. O senhor verá que, para saber morrer, não é preciso vestir farda!

*

Exilado em Lisboa, o Visconde de Ouro Preto participava de uma roda de várias pessoas, em visita a um comerciante rico. Um dos visitantes, que fizera fortuna no Brasil e voltara para Portugal, resolveu interpelar o Visconde, em tom de agrado:
— Hein, Sr. Visconde! O povo daqui tem mais fibra que o de lá. Não presenciaria bestificado a queda do regime, conforme a expressão de um ministro da República. Nem deixaria, sem reação, ser expelido um soberano como D. Pedro II, e uma sumidade como V. Exa.
Com veemência, o Visconde respondeu:
— O senhor não tem competência para julgar a gente da minha terra. É tão digna, altiva e capaz de bravura quanto a portuguesa. Pelo menos, lá não há quem deixe o Brasil para vir ganhar dinheiro em Portugal, e depois regresse ao Brasil a falar mal dos portugueses.
Depois destas palavras, houve um longo silêncio. Então o Visconde ergueu-se, acrescentando:
— Já que ninguém mais protesta contra a injustiça feita a meu País, retiro-me como um novo protesto.

(LEON BEAUGESTE – Fatos do Brasil Império)

 

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Participação decisiva da Imperatriz Leopoldina na nossa Independência

A atitude de D. Leopoldina, defendendo os interesses brasileiros, acha-se eloqüentemente estampada na carta que escreveu a D. Pedro I, por ocasião da Independência do Brasil: “É preciso que volte com a maior brevidade. Esteja persuadido de que não é só o amor que me faz desejar mais que nunca sua pronta presença, mas sim as circunstâncias em que se acha o amado Brasil. Só a sua presença, muita energia e rigor podem salvá-lo da ruína”.

Os historiadores reconhecem a grande participação que teve D. Leopoldina nos acontecimentos que prepararam a Independência. São expressivos os textos de algumas das cartas que ela escreveu nos dias ansiosos que precederam o 7 de setembro de 1822:
“Fiquei admiradíssima quando vi de repente aparecer meu esposo, ontem à noite. Ele está mais bem disposto para os brasileiros do que eu esperava, mas é necessário que algumas pessoas influam mais, pois não está tão positivamente decidido como eu desejaria.
Dizem que as tropas portuguesas o obrigarão a partir. Tudo então estaria perdido, e torna-se necessário impedi-lo. Os ministros vão ser substituídos por filhos do País, que sejam capazes. Muito me tem custado alcançar tudo isso. Só desejaria insuflar uma decisão mais firme”.

Vasconcelos Drummond, amigo dos Andradas e participante direto dos acontecimentos, afirma: “Fui testemunha ocular, e posso asseverar aos contemporâneos que a Princesa Leopoldina cooperou vivamente, dentro e fora do País, para a Independência do Brasil. Debaixo desse ponto de vista, o Brasil deve à sua memória gratidão eterna”.
Mulher superior ao seu tempo, D. Leopoldina trouxera para o Brasil missões científicas, prestigiara a vinda de sábios, tais como Emanuel Pohl e von Martius, que pode ser considerado como o primeiro estrangeiro a revelar à Europa o Brasil.

Dom Pedro I lançara, na colina do Ipiranga, o grito famoso que fez independente o Brasil. Dias depois, nos salões repletos do Paço, reclamava ele que lhe trouxessem fitas verdes, pois queria que todos usassem o laço das cores representativas do Brasil livre. Vendo que ainda faltavam alguns distintivos, voltou-se alegremente para Dona Leopoldina, perguntando-lhe:
— Não haverá mais fitas verdes no palácio?
Sorrindo, ela respondeu que não; mas, ainda assim, dirigiu-se aos seus aposentos, para mais uma busca. Abriu e remexeu quantas gavetas encontrou, mas nada de fitas verdes. Já desanimava, e dispunha-se a voltar ao salão com as mãos vazias, quando seus olhos caíram sobre o leito, cujas fronhas ostentavam, a correr pelos ilhoses do bordado, fitas da cor procurada. Não se deteve a pensar. Arrancou-as todas e voltou ao salão, ruborizada e feliz, para distribuir os distintivos. Em seu entusiasmo, exclamou:
— Não havia mais fitas verdes, mas arranquei as dos travesseiros de minha cama!
Imediatamente, sentindo o silêncio que se fizera, corou. Viu que ninguém se sentia digno da honra de tais distintivos. No meio daquela indecisão, o primeiro a dar um passo para a frente foi Antonio de Menezes Vasconcelos Drummond. Dona Leopoldina estendeu para ele a mão, que segurava um laço verde. E sobre aquela mão e aquele laço se inclinou a cabeça do patriota, que beijou os dedos de Leopoldina, exclamando:
— Obrigado, Majestade!
Era a primeira vez que se dava a Dona Leopoldina esse título.

A Imperatriz Leopoldina, modelo de vida familiar e cristã

Francisco I, pai da Imperatriz Leopoldina, fez chegar a D. Pedro I, por intermédio da embaixada austríaca, estas recomendações: “Recomendo-vos que peçais ao meu genro que faça respeitar a Religião e promover os bons costumes. Se tomar estes conselhos, não é necessário preocupar-se com constituições. Esta é a melhor constituição, a constituição prática. As outras são teorias impraticáveis e quiméricas”.

Narra Vasconcelos Drummond que, já em 1824, a tropa pretendia forçar a abdicação de D. Pedro I, e só a veneração que tinham à Imperatriz Leopoldina é que pôde demovê-los do seu intento. Foi então que lhe ofereceram secretamente a coroa, ao que ela respondeu:
— Sou cristã, e dedico-me inteiramente ao meu marido, aos meus filhos. Antes de consentir num semelhante ato, eu me retirarei para a Áustria.

D. Pedro I fez D. Domitila Marquesa de Santos e Primeira Dama da Imperatriz. Numa recepção de gala, ante a corte estupefata, D. Leopoldina soube tratá-la com amabilidade. Quando lhe apresentaram a pequenina Duquesa de Goiás, fruto da leviandade do marido, a Imperatriz, com um sorriso triste, passando lentamente a mão sobre a cabecinha loura da criança, e com os olhos ligeiramente umedecidos, disse:
— Tu não tens culpa, minha filha!

Jacques Arago era um bom jogador de bilhar, e D. Pedro I desafiou-o. D. Leopoldina, receosa de que a irascibilidade do marido pudesse dar motivo a cenas desagradáveis, aproximou-se de Arago e solicitou-lhe em voz baixa:
— Deixe-o ganhar algumas partidas. Meu marido é bastante colérico.
No entanto, o francês resolveu ganhar, deixando que D. Pedro perdesse com brilho. Mas ele não se conformou, e daí surgiu uma das muitas cenas de ira da vida do Imperador.

A primeira tentativa de uma colonização não portuguesa, baseada na pequena propriedade, foi formada em Nova Friburgo, em 1819, com suíços de língua francesa e alemã, e reforçada posteriormente por alemães. Fracassou em conseqüência de o terreno ser pouco favorável, da falta de habilitação dos imigrantes para a agricultura, e de boas comunicações com a capital. Muitos colonos transferiram-se para o Rio, fomentando o artesanato local, ou alistaram-se nos corpos estrangeiros, enquanto as mulheres trabalhavam como enfermeiras ou empregadas. Muitas famílias chegaram ao extremo da miséria, tanto que as crianças saíam a pedir esmolas pelas ruas. D. Leopoldina esvaziou várias vezes seus cofres pessoais para acorrer às viúvas e aos órfãos. Era este um dos motivos pelos quais ela se viu moralmente obrigada a contrair dívidas secretamente, para poder socorrer os necessitados.

A Imperatriz Leopoldina não se interessava por roupas caras e enfeites, mas era uma inveterada gastadora, pois seu bom coração a levava muitas vezes a distribuir esmolas da sua própria dotação a todos os que sofriam e vinham apelar para a sua magnanimidade. Com isso ela gastava mais do que podia. Quando morreu, em 1826, verificou-se que tinha algumas dívidas, decorrentes de suas obras de caridade. A Assembléia Legislativa sentiu-se honrada em mandar efetuar o pagamento desses débitos deixados pela Imperatriz.

Leon Beaugeste

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São Miguel Arcanjo é o arquétipo do cavaleiro - Vitral na Kilianskirche em Heilbronn, Alemanha (foto: Joachim Kohler)

O feito de armas primordial de São Miguel Arcanjo é glorificado por Jean Molinet como “o maior feito de cavalaria e das proezas cavalheirescas jamais realizado” Foi do arcanjo que “a cavalaria terrestre e as proezas cavalheirescas” extrairam a sua origem, e por isto imitam as hostes angélicas em volta do trono de Deus (HUIZINGA, o Declinio da Idade Média, p. 69)

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Da. Amélia, segunda Imperatriz do Brasil (1812-1876)

 

No Palácio de São Cristóvão, depois da bênção de núpcias de D. Pedro I com Da. Amélia de Leuchtenberg, o Imperador lhe apresentou os seus filhos. Com afetuosidades de comover, D. Amélia cobriu de abraços carinhosos, maternalmente, as princesinhas e o príncipe herdeiro.
De repente, D. Pedro lembrou-se de sua filha adulterina, e pediu à Marquesa de Itaguaí:
— Minha boa Francisca, vá buscar a duquesinha de Goiás.
Aquela ordem foi um choque. Da. Amélia estremeceu. Secou-lhe bruscamente o sorriso nos lábios. Com voz firme, fitando o Imperador nos olhos, disse:
— Majestade! Poupe-me a dor dessa apresentação. Eu quero ser mãe dos filhos de D. Leopoldina. Mas unicamente dos filhos de D. Leopoldina. Eu não quero conhecer – nem sequer conhecer! – a filha bastarda da Marquesa de Santos. Peço a Vossa Majestade, portanto, que faça retirar imediatamente essa menina do Paço. É o primeiro pedido, senhor D. Pedro, que a Imperatriz faz ao Imperador.
Sem esperar resposta, incisiva e decidida, ordenou:
— Marquesa, vá avisar às açafatas que a Duquesa de Goiás deve sair já deste Paço. Que preparem as malas.
Atônita, D. Francisca não sabia o que fazer. Olhou para D. Pedro, suplicando uma decisão. D. Pedro balbuciou apenas:
— Cumpra as ordens da Imperatriz, Marquesa.

*

Francisco Gomes da Silva, conhecido como “Chalaça”, era um indivíduo de péssimos costumes, e exerceu funesta influência sobre o Imperador D. Pedro I. Durante algum tempo, seu poder no Paço era quase absoluto. Era necessário removê-lo, mas ninguém se sentia com ascendência para pedir isso ao Imperador.
O Marquês de Barbacena, chamado ao Paço, ouviu de D. Pedro:
— Meu Barbacena, o Chalaça, como Vossa Excelência sabe, tem trabalhado com afinco nos meus negócios particulares. É de uma dedicação rara. Eu preciso, portanto, dar uma prova de amizade a ele. Vossa Excelência conhece a paixão que ele tem por dignidades. Vamos, por conseguinte, satisfazer-lhe a vaidade. Mande lavrar um decreto concedendo-lhe o título de marquês.
— Marquês?! O Chalaça?!
— Sim, meu Barbacena. E por que não?
— Perdão, Majestade, mas é necessário ponderar um pouco. Esse decreto é uma temeridade. É um ato comprometedor. Fazer do nosso vulgaríssimo Chalaça um marquês, é graça verdadeiramente escandalosa. Vossa Majestade vai irritar o País com tão acintosa mercê. Como Primeiro Ministro, não referendo esse decreto.
— Não referenda?
— Não! Não referendo. E digo mais. Se Vossa Majestade quiser conservar-me no Ministério, há de fazer a mim esta mercê, que reputo essencial à moralidade e ao prestígio do Trono: despedir o Chalaça. Mandar o Chalaça embora do Brasil.
Nisto, abre-se a porta e entra no salão Da. Amélia. Logo D. Pedro lhe comunica, risonho:
— Sabe? Aqui o Barbacena está me pedindo uma graça incrível.
— Uma graça? Então é necessário concedê-la já. Não se pode negar coisa alguma ao nosso Barbacena.
— Mas é preciso ver o que pede o Barbacena…
— Que há de ser, meu Deus?!
— Um disparate! A saída do Chalaça do Brasil.
D. Amélia toma então ares sérios. Pensativa e grave, diz:
— O nosso Marquês tem razão. Esse homem precisa sair do Império.
— Que diz a minha Imperatriz?
— Digo que o Chalaça precisa sair daqui. Vossa Majestade perdoe, mas eu digo mais: esse tipo é abominável. Eu o detesto, e detesto-o porque ele desmoraliza o Paço. Porque prejudica o Império. Porque impopulariza o regime. Porque compromete Vossa Majestade.
A Imperatriz e o Primeiro Ministro foram implacáveis. Ao final, cedendo às evidências, D. Pedro decidiu conceder ao Chalaça uma missão diplomática em Nápoles.

*

Abdicação de Dom Pedro I

Da. Amélia de Leuchtenberg, segunda esposa de D. Pedro I e Imperatriz do Brasil, amou os filhos de Da. Leopoldina de toda a alma, como o prometera, com desvelos de mãe. No dia da abdicação de D. Pedro I, ela escreveu uma carta ao pequenino D. Pedro II, então com 6 anos: “Não me pertences senão pelo amor que dediquei ao teu augusto pai. Mas quero-te como se fosses o sangue do meu sangue. Um dever sagrado me obriga a acompanhar o ex-Imperador, no seu exílio, através os mares, em terras estranhas. Adeus, pois, para sempre!”
Dirigindo-se às mães brasileiras, fez então uma súplica comovente: “Mães brasileiras, vós que sois meigas e carinhosas para com vossos filhinhos, supri minhas vezes: adotai o órfão coroado, dai-lhe, todas vós, um lugar na vossa família e no vosso coração. Entregando-o a vós, sinto minhas lágrimas correrem com menor amargura”.

 

(LEOPOLDO BIBIANO XAVIER – “Revivendo o Brasil Império” – Artpress – São Paulo)

 

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"A piedade é útil para tudo, encerrando as promessas da vida presente e as da vida futura", nos ensina o Apóstolo das Gentes (Foto Andreas F. Borchert)

 

Do século I ao XIII (…) Nosso Senhor Jesus Cristo, com Seu Novo Testamento, foi o Doutor ouvido, o guia seguido, o Rei obedecido. Sua realeza era reconhecida a tal ponto pelos príncipes e pelos povos, que eles a proclamavam até em suas moedas. Sobre estas era gravada a Cruz, sinal augusto (… ) do espírito de sacrifício, oposto à idéia pagã do espírito de prazer.

À medida que o espírito cristão penetrava nas almas e nos povos, almas e povos progrediam na luz e no bem e se elevavam pela única razão de que viam sua felicidade no alto e para lá se dirigiam. Os corações se tornavam mais puros, os espíritos mais inteligentes. Os inteligentes e os puros introduziam na sociedade uma ordem mais harmoniosa. (…)

A ordem mais perfeita tornava a paz mais geral e mais profunda; a paz e a ordem engendravam a prosperidade, e todas essas coisas davam abertura às artes e às ciências.

De sorte que, como observou Montesquieu: “A religião cristã, que parece não ter outro objeto senão a felicidade da outra vida, torna feliz a vida nesta terra”.

É, aliás, o que São Paulo anunciou quando disse: “Pietas ad omnia utilitas est, promissionis habens vitae quae nunc est et futurae” – A piedade é útil para tudo, encerrando as promessas da vida presente e as da vida futura (1 Tim., 4,8).

O próprio Nosso Senhor não nos disse “Procurai antes de tudo o reino de Deus e sua justiça; o resto vos será dado de acréscimo”? (Mt. 6,33). Não era uma promessa de ordem sobrenatural, mas o anúncio das consequências que deviam surgir logicamente da nova orientação dada ao gênero humano.

Moeda cunhada pelo Imperador Teodósio II (408-450 AD) tendo no verso a cruz rodeada de louros

 

A ascensão, já não direi das almas santas, mas das nações, teve seu ponto culminante no século XIII.

São Francisco de Assis e São Domingos, com seus discípulos São Luís de França e Santa Isabel da Hungria, acompanhados e seguidos de tantos outros, mantiveram por certo tempo o nível que fora atingido pelos exemplos de desapego das coisas do mundo, de caridade para com o próximo e de amor de Deus que deram tantos outros santos (DELASSUS, Le Problème de l’Heure Prèsente, t.I, pp. 37-39).

 

 

 

 

 

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