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 São Luis IX, rei de França: modelo de monarca, nobre, cavaleiro e cruzado

A função mais importante da nobreza era participar no poder do rei. Os nobres exerciam em ponto pequeno, no lugar onde possuíam suas terras, uma missão parecida com a do rei em seu reino.

Os grandes nobres eram conselheiros do monarca. Quando este julgasse necessário, tinha o direito de exigir o comparecimento daqueles à capital do reino para a reunião do Conselho. Ali eles eram obrigados em consciência – o que na Idade Média tinha o valor de um compromisso formal – a dar honestamente sua opinião sobre os assuntos a respeito dos quais o rei os consultava.

Também tinham que atender às convocações do soberano para as guerras. O monarca convocava os grandes nobres, estes mobilizavam os médios, os quais, por sua vez, chamavam os menores. Na guerra o grande nobre tinha a obrigação de arriscar-se mais e destacar-se mais que um nobre médio ou pequeno.

Dentro da nobreza, as funções variavam segundo o caso concreto de cada nobre. Os grandes nobres participavam em larga medida do poder real, representando o rei não só junto ao povo de seu próprio feudo, mas também junto aos nobres intermediários, até o mais baixo escalão da nobreza. O nobre que era senhor de um pequeno feudo, naturalmente participava em grau menor do poder real.

Na França os grandes nobres eram os duques e os pares do reino. O soberano costumava considerá-los como os florões de sua coroa. E também os tratava de “primos”, mesmo quando não fossem seus parentes. Isto indicava um relacionamento íntimo e bondoso do rei com a cúpula da nobreza de seu país.

Este modo bondoso de conceber o poder e a realeza não era exclusivo do reino da França, mas se verificava em todas as nações européias. Com símbolos e modos de representar diversos, elas exprimiam o mesmo estado de espírito, eminentemente católico.

O tipo humano do nobre católico

O que distinguia mais a nobreza não era o fato de ter posses, poder, um belo nome ou uma história. O próprio do nobre era representar um certo tipo humano, ter um certo modo excelente de fazer as coisas. Antes de tudo, era um certo gênero de coragem.

Isto porque, sendo por excelência a classe militar, a nobreza devia viver para o combate, para o risco, para a aventura. A verdadeira aventura não é o lance despropositado, estúpido, irrefletido, mas sim o risco calculado, grave, que tem mais possibilidades de ser mal sucedido, mas ao qual o nobre recorria porque estava engajado o bem para o qual vivia.

Este bem era a vida de imolação por algo de imensamente maior que ele mesmo, algo que admirava e de cuja grandeza participava por admiração. Isto porque a nobreza vivia para a Fé, e vivendo para a Fé vivia para a Igreja, para o bem comum da sociedade. O que faz compreender o perfil moral do nobre: lançar-se e ir até o fim, até o inimaginável.

Era um gênero de gente para quem o risco extremo, o sofrimento pungente, aquilo de que todos fogem, era algo que se podia e devia enfrentar, desde que houvesse uma razão de virtude, de honra e, sobretudo, de Fé.

Essa tendência contínua para o mais alto caracteriza, na sociedade espiritual, os religiosos e os sacerdotes; por isso eles são o sal da terra e a luz do mundo. Na ordem temporal católica essa tendência caracteriza o nobre, que nela tem a mesma posição do sacerdote e do religioso na ordem espiritual.

Em épocas passadas, os nobres não primogênitos – fidalgos geralmente sem títulos – tinham belas maneiras, eram elegantes, sabiam conversar, apresentavam-se com um porte muito digno, mas tinham sobretudo a idéia de que o sentido de sua vida era correr riscos, inclusive o da própria vida, pela causa da Igreja, da Cristandade e do rei. E de se tornarem independentes de seu morgado (primogênito), para formar um outro ramo da família, com patrimônio e título próprios, concedidos pelo rei como prêmio. Era um outro galho que florescia, que se abria no velho tronco familiar.

Em qualquer país onde exista, a nobreza deve criar a atmosfera para o florescimento de tipos humanos assim.

Consequências da perda desse tipo humano

O roubo, a senvergonhice, o ordinarismo geral em que o mundo de hoje está imerso, explicam-se porque nele não são mais encontrados homens como esses.

Mesmo entre os nobres, raramente persiste um clima que favoreça tal espírito heróico. Gangrenados pela mentalidade revolucionária e igualitária, muitos nobres de hoje vão procurar emprego em banco, casam-se com burguesas ricas e praticam outras ações do gênero.

Não compreendem que o sentido da vida deles não é o securitarismo, mas o risco. E que deveriam arriscar-se e brilhar na sociedade, fazendo o brilho desse risco refulgir sobre os homens como fogo de artifício.

Assim, a vida dele se terá justificado, como a de um tipo humano que se arrisca e está disposto a morrer por algo que é mais do que ele. Muito especialmente se arrisca e vem a morrer pela Fé católica apostólica romana.


(*) Excertos de conferência pronunciada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 13-11-92, comentando, a pedido destes, a obra de sua autoria Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana (Editora Civilização, Porto, 1992). Sem revisão do conferencista.


(Revista Catolicismo, N° 549, Setembro de 1996)

www.catolicismo.com.br

 

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A nobreza pode e deve exercer sobre toda a sociedade uma influência tão grande ou maior do que a exercida pelos meios de comunicação nos dias atuais. E essa influência decorre, muito especialmente, das virtudes que os nobres devem ter e manifestar em sua atuação sobre a opinião pública.

Esse fato irrita profundamente os líderes do macrocapitalismo publicitário. Com efeito, julgam eles que, para dirigir a opinião pública, basta ter fabulosas quantias de dinheiro, grandes máquinas impressoras, poderosos aparelhos que irradiam ou teletransmitem os fatos sensacionais na mesma hora em que ocorrem, etc.

Tal idéia, porém, não corresponde à realidade. A televisão pode fazer propaganda, em suas novelas e noticiários, de uma pessoa totalmente imoral, de vida dissoluta, para apresentá-la como modelo a ser seguido pelos espectadores. Entretanto, a irradiação de uma tradição impregnada de virtudes, longa e hereditária, pode, junto a incontáveis pessoas, derrubar o efeito daquilo que é apresentado no video.

Por aí se compreende bem o papel que a nobreza pode representar junto à opinião pública.

O valor pessoal: fator decisivo dessa influência

Mas para representar bem tal papel, como deve ser o nobre? O que deve ele fazer?

Inicialmente, é indispensável salientar que, para levar avante esse apostolado de conduzir a sociedade, o nobre não precisa ser rico, pois sua capacidade de influência não depende do seu dinheiro, mas sim do seu valor pessoal. A pobreza de um nobre tem a vantagem de deixar transparecer nele o que tem de melhor, que não é a riqueza, mas o valor pessoal concebido naturalmente em ordem à doutrina da Igreja e à moral católica.

De fato, o que caracteriza um autêntico nobre, antes de tudo, é a prática consciente e convicta de sua Fé católica, da qual decorre uma conduta moral irrepreensível, cujo campo imediato de ação é sua própria família. O nobre está cercado pela família como a lua pelo seu halo. A luminosidade de seu exemplo tem como complemento normal e necessário o brilho que se desprende de seu halo familiar.

Mas, para o bem de toda a sociedade, não basta que os nobres sejam portadores dos valores que lhes são próprios. É preciso que as outras classes sociais notem tais valores nos nobres quando eles são bons católicos. Ora, essa transparência, esse modo especial de ser, que faz com que suas qualidades e atributos possam ser observados e admirados por toda a sociedade, provém de uma longa tradição.

Persuadir sem oprimir e arrastar sem forçar

Além dessa fidelilade inabalável à Fé católica, o nobre deve possuir também certas qualidades que lhe permitam exercer da melhor maneira possível essa influência benéfica sobre a sociedade.

Uma delas, e das mais importantes, é, no dizer de Pio XII, “o trato prudente e delicado nos negócios difíceis e graves”. Segundo a doutrina católica, prudência é a virtude cardeal que leva o homem a dispor os meios necessários para chegar ao fim que tem em vista.

Esse trato prudente, feito com cautela e habilidade, aliado ainda ao “prestígio pessoal, quase hereditário, nas famílias nobres”, faz com que os nobres consigam, ainda nas palavras de Pio XII, “persuadir sem oprimir, arrastar sem forçar”.

E tal poder de persuasão e de atração sobre a opinião pública é dado pela tradição inerente à classe nobre, tornando-a capaz de conduzir até à verdade sem necessidade de empregar a força. É um poder próprio à irradiação das virtudes específicas de um nobre – boa lógica, boa argumentação, linguagem elevada, agradável e atraente, distinção, etc. – que o habilitam a influir nas almas para levá-las ao bem.

A sociedade moderna, porém, impregnada pelo desprezo aos antigos estilos de vida, ao antigo tipo humano, não costuma consultar a nobreza antes de agir, de tomar alguma resolução importante, de realizar algum empreendimento. Entretanto, isto se dá porque geralmente a nobreza, já nos dias de Pio XII, não estava especialmente empenhada em fazer brilhar, aos olhos da sociedade, os valores, os talentos e as qualidades que tinha ou que deveria ter. Mas se os nobres se empenharem em possuir esses talentos e qualidades, mesmo nos dias de hoje existe um número incontável de pessoas que saberão reconhecer e dar valor a ditos talentos e qualidades, facilitando assim a missão benéfica da nobreza sobre as demais classes sociais.

O infortúnio é o pedestal da grandeza

Nos tempos modernos, em meio aos numerosos golpes que sofreu, a nobreza deveria saber aproveitar essa oportunidade muito especial de mostrar sua própria grandeza. Ou seja, ter diante do infortúnio uma atitude condizente com sua longa tradição. Pois toda instituição, vista à luz de seu próprio infortúnio, deixa ver sua própria grandeza.

De fato, o infortúnio faz com que o homem cresça e mostre de maneira mais nítida suas qualidades. Com uma instituição, como a nobreza, sucede o mesmo. Se ela receber o infortúnio como deve, suas qualidades – e entre elas, muito especialmente, sua grandeza – brilharão com mais intensidade aos olhos de todos.

Pois o infortúnio confere grandeza a incontáveis situações. Há traços de grandeza em situações de infortúnio que são de uma beleza incomparável. Foi grande o número de santos que morreram em infortúnios tremendos, mas envoltos em halo de enorme grandeza. Sem falar no exemplo infinitamente sublime de Nosso Senhor Jesus Cristo, em quem o supremo infortúnio da morte na Cruz coincidiu com o ápice da grandeza em sua vida terrena.

Assim, se a nobreza tomar com espírito de seriedade, verdadeiramente católico e sobrenatural, o infortúnio que sobre ela se abateu em tantas situações e em tantos países, sua grandeza reluzirá com brilho especial aos olhos de todos na época presente e nos tempos futuros. Pois o infortúnio é propriamente o pedestal da grandeza.

(*) Excertos de conferência pronunciada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 14 de novembro de 1992, comentando, a pedido destes, a obra de sua autoria Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana (Editora Civilização, Porto, 1992).

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Martim Francisco de Andrada, quando D. Pedro II ainda era criança, vaticinou:
— Há de ser um digno e útil cidadão. Quando, porém, o Brasil não precisar mais dele, levá-lo-á ao embarcadouro e o despedirá. Os bons hão de chorá-lo, e os maus hão de insultá-lo.

Nos momentos angustiosos da partida para o exílio, D. Pedro II proferiu as seguintes palavras:
— Pois se tudo está perdido, haja calma. Eu não tenho medo do infortúnio!

Na sua viagem para o exílio, ao passar diante da última terra brasileira que veriam, os membros da Família Imperial decidiram enviar um pombo com uma mensagem, assinada por todos. Um criado escolheu um dos pombos mais vigorosos, que lhe pareceu capaz de transpor a distância que os separava da costa. D. Luiz de Orleans e Bragança, que tinha então 11 anos de idade, relatou depois, no livro “Sob o Cruzeiro do Sul”, as suas lembranças do episódio:
“Um pouco além de Cabo Frio – lembro-me como se fosse hoje – meu avô, querendo dar ao Brasil uma prova do seu inalterável amor, fez-nos soltar um pombo, em cujas asas ele próprio havia amarrado uma última mensagem. À vista da terra ainda próxima, a ave largou o vôo; mas um longo cativeiro lhe havia sem dúvida alquebrado as forças. Depois de haver lutado alguns momentos contra o vento, esmoreceu e vimo-lo cair nas ondas”.
O bilhete dizia: Saudades da Pátria.

No dia 2 de dezembro de 1889, o aniversário do Imperador foi comemorado a bordo do navio “Alagoas”, em que viajava para o exílio após a proclamação da República. Ao jantar, a mesa foi ornamentada com flores, gentileza do Comandante Pessoa, que bebeu pela saúde do Imperador. Este respondeu, brindando “à prosperidade do Brasil”. Do seu lugar, a Princesa Isabel levantava também a taça, brindando “ao papai”. Ele replicou:
— Menina! Ouça o meu brinde: À prosperidade do Brasil!

Já na Europa, D. Pedro II teve conhecimento da resolução do Governo Provisório de banir definitivamente a Família Imperial do território brasileiro. Perguntado se não pensava em lançar um manifesto, ele afirmou:
— O meu manifesto será a minha vida.
Ao repórter do “Tempo”, em Lisboa, repetiu:
— Manifesto? Sou eu, enquanto viver. É a minha pessoa. Sou eu próprio.

Ao chegar a Portugal, como exilado, Dom Pedro II ouviu de um jornalista:
— Vossa Majestade aqui não é um proscrito. Todos vos estimamos e respeitamos.

O Conde Afonso Celso narra a visita de condolências que ele e seu pai, o Visconde de Ouro Preto, fizeram a D. Pedro II por ocasião da morte da Imperatriz:
“Era modestíssimo o seu quarto. A um canto, cama desfeita. Em frente, um lavatório comum. No centro, larga mesa coberta de livros e papéis. Um sofá e algumas cadeiras completavam a mobília. Tudo frio, desolado e nu.
Os joelhos envoltos num cobertor ordinário, trajando velho sobretudo, D. Pedro II lia, sentado à mesa, um grande livro, apoiando a cabeça na mão. Ao nos avistar, acenou para que nos aproximássemos. Meu pai curvou-se para beijar-lhe a mão. O Imperador lançou-lhe os braços aos ombros e estreitou-o demoradamente contra o peito. Depois, ordenou que nos sentássemos perto dele. Notei-lhe a funda lividez.
Houve alguns minutos de doloroso silêncio. Sua Majestade o quebrou, apontando para o livro aberto e dizendo com voz cava:
— Eis o que me consola.
— Vossa Majestade é um espírito superior. Achará em si mesmo a força necessária.
D. Pedro não respondeu. Depois de novo silêncio, mostrou-nos o título da obra que estava lendo, uma edição recente da “Divina Comédia”. Então, com estranha vivacidade, pôs-se a falar de literatura, a propósito do livro de Dante Alighieri. Mudando de assunto, discorreu sobre várias matérias, enumerando as curiosidades do Porto, indicando-nos o que, de preferência, deveríamos visitar. Não aludiu uma única vez à Imperatriz. Só ao cabo de meia hora, quando nos retirávamos, observou baixinho:
— A câmara mortuária é aqui ao lado. Amanhã, às 8 horas, há missa de corpo presente.
Saímos. No corredor, verifiquei que o meu chapéu havia caído à entrada do aposento imperial. Voltei para apanhá-lo. Pela porta entreaberta, presenciei cena tocantíssima: ocultando o rosto com as mãos magras e pálidas, o Imperador chorava. Por entre os dedos escorriam-lhe as lágrimas, que caíam sobre as estrofes de Dante.

(Leon Beaugeste – FATOS DO BRASIL IMPÉRIO)

 

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São Bernardo prega a 2a. Cruzada

 

Ao grande e glorioso Manuel, Imperador de Constantinopla, o irmão Bernardo, abade de Claraval, saudação e orações.

1. Se eu me permito escrever a uma Majestade como a vossa, não me acuseis nem de temeridade nem de audácia. Agindo assim eu só cedo diante de uma inspiração da Caridade que não duvida de nada.

Pois, da minha parte, quem sou eu e que posição ocupa minha família em meu país para que eu ouse escrever a um tão grande imperador?

Eu sou pobre e obscuro, distâncias imensas e vastos mares me separam de vossa sublime pessoa. O que há, pois, que possa aproximar minha inferioridade de vossa grandeza, se eu não contasse para isso com a própria humildade de Jesus Cristo, de quem os reis e os povos da terra, os príncipes e os juízes se glorificam?

O renome trouxe até nós o eco de vossa magnificência e a glória de vosso nome que hoje enchem a terra inteira.

Eis por que eu me prosterno aos pés do Pai dos espíritos, d’Aquele de quem provém toda paternidade no Céu e na terra, implorando-lhe não vos fazer deixar o império da terra senão para vos dar o Reino dos Céus, cuja duração é eterna (Psalm. CXLIV).

2. Eu não tenho, portanto, nenhum título para apresentar aos pés do trono de vossa glória a pessoa encarregada de vos entregar esta carta; trata-se de um jovem da maior nobreza a quem eu vos imploro armar cavaleiro e conceder uma espada contra os inimigos da Cruz de Jesus Cristo e de todos aqueles que contra Ele se levantam com a cabeça orgulhosa e ameaçadora.

Este jovem podia aspirar às maiores honrarias, mas seguindo meu conselho, preferiu o brilho de vosso império e a gloriosa lembrança que ele conservará até o túmulo da mão que o terá feito cavaleiro.

Eu não teria ousado vos rogar e interessar-vos por este jovem se não estivesse concernido Jesus, por quem ele empreende uma expedição tão longa e trabalhosa.

Dignai-vos persuadir de que tudo quanto vós fizerdes por ele, eu o terei em conta como se a mim o tivésseis feito.

Manuel I Comneno, imperador de Constantinopla
Manuel I Comneno, imperador de Constantinopla

3. Agora vos cabe, gloriosíssimo imperador, mostrar toda vossa bondade e multiplicar vossos atos; a terra inteira está abalada e agitada porque o Rei do Céu perdeu a pátria que tinha aqui embaixo, o país que seus pés pisaram. 

Os inimigos do Senhor se apressam para cair sobre a Cidade Santa e destruir o Sepulcro glorioso, quer dizer, onde a flor virginal saída de Maria foi depositada, envolta em panos e bálsamos, e de onde logo ela saiu maior e mais plena de vida para brilhar sobre nossa pobre Terra.

Eis por que, por ordem do soberano Pontífice e de nossas próprias autoridades partiu o rei da França, e com ele uma multidão de senhores, cavaleiros e pessoas que se puseram em marcha rumo à Terra Santa, planejando atravessar terras de vosso império para ir em socorro da cidade do Deus vivo.

Cabe-vos recebê-los com honra e, desde já, tomar todas as medidas que de Vós se podem esperar em virtude da posição que ocupais, do poder que tendes em vossas mãos, da dignidade imperial de que justamente vos ufanais e dos tesouros que possuís.

Não podeis, aliás, agir de outro modo, pois o exige a dignidade do império, a honra de vossa pessoa e a salvação eterna de vossa alma.

Eu vos recomendo, entre todos e acima de todos, o jovem filho do ilustre conde Thibaut. Tratai-o bem, não somente como merece um príncipe de seu sangue, mas tende por ele uma atenção especial.

Ele é muito jovem, mas de ilustre família, de excelente índole e quer fazer suas primeiras armas pela causa da justiça, e não da injustiça.

Ele é também o filho de um pai cuja equidade e suavidade o colocam na primeira posição na estima e no afeto dos homens.

Em recompensa pelo que fizerdes por este jovem príncipe, eu vos ofereço uma parte dos méritos e de todas as boas obras que se praticam e se praticarão em nossa Casa, a fim de que Nosso Senhor Jesus Cristo, o filho de Maria, o esposo da Igreja, vos conceda a vitória na Terra e a coroa de glória nos Céus!

(Blog Gloria da Idade Média)

http://gloriadaidademedia.blogspot.com/2013/10/sao-bernardo-exorta-manuel-comneno.html

 

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Grande de Espanha, Marquês de Lombay, Duque de Gandia, Vice-rei da Catalunha, Geral da Companhia de Jesus, iluminou sua época com invulgar sabedoria política e altas virtudes

Plinio Maria Solimeo

 

Fco de Borja

Foto: Marikevanroon20

 

O pequeno Ducado de Gandia, pertencente ao Reino de Valência, era governado no início do século XVI por Dom João de Borja. Sua mãe, viúva pela segunda vez aos 18 anos, logo que o filho pôde administrar o Ducado, retirou-se aos 33 anos de idade para o mosteiro de las Descalzas, como vulgarmente são denominadas na Espanha as monjas clarissas. Lá já se encontrava sua filha Isabel, que edificava por sua virtude.

Dom João era casado com Dona Joana de Aragão, neta, por um ramo bastardo, do Rei Fernando de Aragão, esposo de Isabel, a Católica. Expulsando os mouros de Granada, no mesmo ano em que promoviam o descobrimento da América, esses soberanos puseram fim a oito séculos de dominação moura na Espanha.

Francisco, primogênito dos Duques de Gandia, nascido a 28 de outubro de 1510, deveu à mãe sua precoce piedade. Dona Joana tinha especial predileção por ele, devido a seu bom temperamento e natural inclinação à virtude. Não descuidando em que recebesse formação própria a seu ilustre sangue, escolheu para ele dois preceptores de conhecida erudição e comprovada virtude.

Modelo de virtude em luxuosa Corte
Aos 10 anos Dom Francisco perdeu a mãe. Devido a este falecimento, o menino deixou o convívio do pai e dos sete irmãozinhos, pois sua educação foi confiada ao tio materno, Arcebispo de Saragoça. Com ele passou alguns anos.

Como o costume exigia então, os filhos dos Grandes de Espanha passavam a juventude como pajens na Corte. Assim, ao cumprir 16 anos, Francisco foi enviado à de Carlos V, jovem rei da Espanha e Imperador do Sacro Império. Este logo afeiçoou-se ao adolescente pela nobreza de sangue, seriedade, diligência e piedade.

A Imperatriz Isabel, filha do Rei de Portugal e esposa de Carlos V, tinha tal dileção por Dom Francisco que, atingindo ele os 20 anos, deu-lhe por esposa Dona Leonor de Castro, sua melhor dama de companhia, então com 17, em cujas veias corria o mais ilustre sangue luso. Como presente de bodas, o Imperador Carlos V concedeu a Dom Francisco, além do título de Marquês de Lombay, a nomeação como Montero-Mor de sua Casa. E a Imperatriz acrescentou-lhe o de seu Cavalariço-Mor, e à Marquesa, esposa de Francisco, o de sua Camareira-Mor.

A Imperatriz quis ser a madrinha do primeiro filho do casal, que recebeu o nome de Carlos, em honra do Imperador. E também dispôs que seu filho Felipe — o futuro Felipe II — fosse o padrinho.

Em meio a todas essas distinções, sendo dos poucos a ter entrada livre na câmara real e vivendo em faustosa Corte, o jovem Marquês de Lombay mostrava-se sempre simples e recatado, impressionando a todos por sua rara virtude. Esta era fruto do hábito salutar que adquirira de domar sempre suas paixões e más inclinações. Para isso, utilizava os métodos mais eficazes, como a oração, confissão e comunhão freqüentes, além de penitências voluntárias. Dona Leonor procurava seguir a mesma trilha.

Deus os abençoou, concedendo-lhes cinco filhos e três filhas, uma das quais seguiria a senda da bisavó, entrando também para las Descalzas de Gandia. Após o nascimento do oitavo filho, os Marqueses, de comum acordo, decidiram viver em estado de continência, embora não tivessem atingido ainda os 30 anos de idade…

O ano de 1529 marcou profundamente a vida do Marquês. A Imperatriz Isabel faleceu, após breve doença, no auge do poder e de sua extraordinária beleza. Como prova de estima pelo casal, o Imperador dispôs que somente a Marquesa amortalhasse sua esposa e que fosse o Marquês quem acompanhasse os restos mortais dela até o Panteón Real, em Granada.

Quando, após 15 dias de trasladado, sob um sol abrasador, o Marquês teve que reconhecer ante os notários aquele corpo já em adiantado estado de corrupção, constatou novamente, de maneira pungente, a fragilidade das glórias deste mundo. E renovou seu propósito de, se sobrevivesse à esposa, dedicar-se somente à vida que não tem fim, numa Ordem Religiosa.

São João de Ávila, a quem então abriu sua alma, aprovou-lhe a decisão.

Vice-rei da Catalunha – “Exílio” em Gandia
Apenas voltou de Granada, Carlos V nomeou-o Vice-rei da Catalunha, cargo de grande confiança e responsabilidade, anteriormente concedido somente a pessoas mais idosas e já experimentadas em funções semelhantes. O Imperador reconhecia assim, naquele vassalo fiel de 30 anos incompletos, a maturidade e prudência necessárias para tal cargo.

Nos três anos de seu vice-reinado, Dom Francisco acabou com o banditismo que infestava a região, robusteceu a fronteira com a França, implementou a marinha e, em tudo, mostrou-se hábil político e grande administrador.

Quando, em 1542, ia começar seu segundo triênio, o Marquês recebeu a notícia do falecimento de seu pai. Pediu então licença ao Imperador para ir pôr as coisas em ordem no Ducado que herdara.

Esta foi-lhe concedida, mas Carlos V já o havia nomeado Mordomo-Mor da Princesa da Espanha, Presidente de seu Conselho e Superintendente de seu Erário. À Duquesa, sua esposa, o Imperador nomeara Camareira-Mor; e às suas duas filhas maiores, damas de honra. Todos entenderam que, nomeando a Dom Francisco Mordomo-Mor de seu filho Felipe, Carlos V tencionava designar assim o primeiro-ministro do próximo reinado.

Entretanto… Deus queria para Dom Francisco não a vida na Corte, mas o governo do pequeno Ducado, a fim de melhor prepará-lo para a grandíssima missão que lhe destinava. E assim sucedeu que, quando Carlos V comunicou à Família Real portuguesa qual a Casa e Servidores que, com diligência, havia escolhido para a futura rainha da Espanha, os soberanos portugueses, por motivos ignorados, rejeitaram o Duque de Gandia.

Dom Francisco, nos sete anos seguintes, dedicou-se inteiramente ao seu novo Estado e à vida de família. Fundou um Colégio da Companhia de Jesus, depois elevado a Universidade, para dar formação verdadeiramente católica não só aos filhos de seus vassalos, mas principalmente aos dos mouriscos residentes no ducado, que mal aprendiam a verdadeira Religião.

Já se afeiçoara à nova milícia fundada por Inácio de Loyola, devido à amizade que mantinha com Pedro Fabro, Pe. Araoz e um dos jovens jesuítas que foram para o Colégio de Gandia, o futuro São Luís Beltrão, Apóstolo da Colômbia.

Membro da Companhia de Jesus
Em 1546, o Duque teve a dor de ver morrer sua piedosa esposa. Se, de um lado, com somente 36 anos, ele se via livre para realizar seu projeto de consagrar-se a Deus, de outro prendia-o ao mundo sua numerosa prole, ainda quase toda na infância.

Seu desejo de pertencer à Companhia de Jesus levou-o a enviar a Inácio de Loyola uma carta pedindo-lhe humildemente que o aceitasse entre seus filhos e expondo-lhe os obstáculos que se antepunham a tal desejo: a saber, sua condição de pai e Duque. Enquanto isso, fez voto de castidade e obediência ao superior dos jesuítas de Gandia.

A carta de Dom Francisco chegou ao Geral da Companhia de Jesus num momento de grande dor, pois este acabara de perder o seu primeiro e muito amado discípulo, Pedro Fabro, consumido por seu extraordinário zelo. Santo Inácio, que por revelação divina já soubera que o Duque entraria para Companhia, por nova luz sobrenatural teve conhecimento de que ele seria digno substituto do filho perdido.

E, realmente, o fundador da Companhia tinha o Duque em tão alta conta, que passou a consultá-lo sobre problemas que ele enfrentava na Espanha, recomendando ao seu Provincial que fizesse o mesmo.

Certa vez, tratando-se de uma fundação em Sevilha, à qual Santo Inácio não estava muito inclinado, enviou ele a Gandia uma folha em branco com sua assinatura e deixando ao Duque o poder de decisão.

Do papel que passou a ter Dom Francisco nos destinos da Companhia, dá prova o Cardeal Cienfuegos ao afirmar que “todas as empresas e dificuldades da Companhia na Espanha e mesmo na Europa passavam por Gandia, buscando a direção e o juízo de Borja, amparo de sua grandeza e abrigo em sua sombra”.

Profissão secreta na Companhia de Jesus
Carlos V, que nunca esquecia o Duque, pensou em nomeá-lo Presidente do Conselho do novo reinado. Ao convocar as Cortes Gerais do Reino de Aragão, em 1547, escolheu as pessoas que haviam de acompanhar seu filho Felipe, figurando na cabeça da lista o Duque de Gandia. Nomeou-o também Tratador (um dos quatro intermediários entre o Príncipe regente e seus Estados). Dom Felipe insistiu então com o Duque para que aceitasse definitivamente o cargo de Mordomo-Mor.

Dom Francisco recorreu a Santo Inácio. Este foi imediatamente ao Vaticano, suplicando ao Santo Padre uma dispensa extraordinária para que um nobre pudesse fazer a profissão solene na Companhia, conservando-a entretanto em segredo, mantendo as aparências de secular, pelo decurso de três anos, a fim de colocar seus filhos. Assim, esse nobre (cujo nome foi ocultado) ficaria livre de todos os assaltos exteriores.

Obtida a dispensa, o fundador da Companhia enviou-a ao Duque, recomendando-lhe que não se aproximasse de Roma, pois era desejo do Papa conceder-lhe o chapéu cardinalício.

O novo professo da Companhia continuou intervindo na reforma dos conventos relaxados. E quando os inimigos da Companhia lançaram uma campanha de calúnias contra seu fundador e os Exercícios Espirituais, por ele redigidos, Santo Inácio escreveu ao Papa pedindo um exame rigoroso dos mesmos, com uma conseqüente sentença pontifícia. Esta veio mediante o Breve Pastoralis Officii cura, uma aprovação explícita e honrosa da obra, concedendo indulgências a quem dela se aproveitasse. Isso fez calar e estremecer seus caluniadores. Ao fim de quase três anos, conseguiu o Duque casar seus filhos maiores. Transferira alguns de seus privilégios para seu segundo filho, e encarregara o mais velho de proteger e educar os três menores. Tudo parecia pronto quando, casando-se novamente o Príncipe Felipe, pensou outra vez no Duque para seu Mordomo-Mor.

Encontro de dois Santos
Dom Francisco escreveu a Santo Inácio pedindo-lhe licença para refugiar-se em Roma, uma vez que Paulo III havia falecido e o “perigo” do chapéu cardinalício estava momentaneamente afastado. O Geral da Companhia recebeu de braços abertos aquele filho, que conhecia só sobrenaturalmente. Quando o Duque ajoelhou-se para pedir-lhe a bênção, Santo Inácio fez o mesmo e reuniram-se os dois santos num longo abraço.

Mas não tardou que o novo Papa, Júlio III, conhecendo melhor o Duque, desejasse cumulá-lo de honras, inclusive a concessão do chapéu cardinalício. Santo Inácio mandou-o então afastar-se de Roma e voltar para a Espanha.

Em sua pátria, recebeu finalmente, como Grande de Espanha que era, a permissão de Carlos V para fazer-se religioso. Já podia deixar os trajes seculares, usar batina e receber a ordenação sacerdotal. Tinha então quarenta anos de idade.

Pode-se imaginar que repercussão tal acontecimento provocou na devota Espanha! De todos os lados choveram pedidos para sermões, visitas e exercícios espirituais.

Santo Inácio nomeou o ex-Duque de Gandia, apesar de sua recente ordenação, Comissário Geral da Companhia para toda a Espanha.

Certo dia, visitando nessa qualidade os jesuítas de Ávila, estes referiram-se a uma freira, cuja vida estava pontilhada de eventos extraordinários e que era muito perseguida e caluniada. Assim encontraram-se São Francisco de Borja e Santa Teresa de Jesus. O primeiro confirmou que esta era guiada pelo espírito divino, e transformou-se em seu ardente protetor.

Mas novamente o demônio e seus sequazes humanos recomeçaram a campanha de calúnias contra a Companhia de Jesus. O próprio Arcebispo de Saragoça, tio do Pe. Francisco, pregava contra os jesuítas. Em alguns lugares foram estes apedrejados.

Carlos V, vendo a tempestade que se formara, mandou chamar seu antigo protegido. Em uma conversa de três horas, comprovou toda a santidade do antigo Duque e a malícia dos caluniadores. A proteção do Imperador salvou novamente a Companhia. Pouco depois, Carlos V renunciava ao trono e retirava-se para o mosteiro de Yuste, onde três anos depois terminaria seus dias mencionando em seu testamento o Pe. Francisco.

Superior, Geral da Companhia de Jesus e glorificação post-mortem
Ao falecer Santo Inácio, o novo Geral, Pe. Laynes, devendo ausentar-se de Roma para participar do Concílio de Trento com o Pe. Salmeron, na qualidade de teólogos do Papa, chamou à Cidade Eterna o Pe. Francisco, nomeando-o Vigário Geral da Companhia. Isso lhe preparava o sucessor, pois, realmente, quando faleceu o Pe. Laynes, Francisco de Borja foi eleito por unanimidade terceiro Geral da Companhia.

Em seu governo, enviou seus filhos ao Novo Continente, inaugurou o noviciado da Ordem, recebendo nele o futuro Santo Estanislao Kostka e muitos outros que morreriam mártires em terras de infiéis.

O Papa são Pio V, preparando sua cruzada contra os turcos, pediu ao Geral da Companhia, devido a seu sangue real e grande prestígio que gozava na Corte da Espanha, que fosse pessoalmente tratar com o rei Felipe II sobre sua ajuda.

Ao voltar para Roma, alquebrado e com a saúde muito abalada, Francisco de Borja entregou sua alma ao Criador, na noite de 30 de setembro de 1572. Não só o povo, mas também Bispos e Cardeais acorreram à casa da Companhia para oscular os restos mortais daquele que já consideravam Santo.

Em 1671, Clemente XI canonizou-o solenemente. Toda a Espanha vibrou, especialmente a nobreza, que o nomeou seu patrono, obtendo ainda o traslado de seus restos mortais para Madri.

Fontes de referência:

Adro Xavier, EL DUQUE DE GANDÍA, El Noble Santo del Primer Imperio – Apuntes históricos, Editora Espasa-Calpe, S. A., Madrid, 1950.

Santos de Cada Dia, tomo III, 3 de outubro, São Francisco de Borja, Organizado pelo Pe. José Leite, S. J., Editorial A.O., Braga, Portugal, 1987.

Marcelle Auclair, Santa Teresa de Ávila, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1959.

Nota:

As citações que vêm entre aspas foram todas extraídas da primeira obra acima indicada; mencionamos somente o número da página em que elas aparecem.

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Tribalismo eclesiástico – Pentecostalismo
Falemos da esfera espiritual. Bem entendido, também a ela a IV Revolução quer reduzir ao tribalismo. E o modo de o fazer já se pode bem notar nas correntes de teólogos e canonistas que visam transformar a nobre e óssea rigidez da estrutura eclesiástica, como Nosso Senhor Jesus Cristo a instituiu e vinte séculos de vida religiosa a modelaram magnificamente, num tecido cartilaginoso, mole e amorfo, de dioceses e paróquias sem circunscrições territoriais definidas, de grupos religiosos em que a firme autoridade canônica vai sendo substituída gradualmente pelo ascendente dos “profetas” mais ou menos pentecostalistas, congêneres, eles mesmos, dos pajés do estruturalo-tribalismo, com cujas figuras acabarão por se confundir. Como também com a tribo-célula estruturalista se confundirá, necessariamente, a paróquia ou a diocese progressista-pentecostalista.

“Desmonarquização” das autoridades eclesiásticas
Nesta perspectiva, que tem algo de histórico e de conjectural, certas modificações de si alheias a esse processo poderiam ser vistas como passos de transição entre o status quo pré-conciliar e o extremo oposto aqui indicado. Por exemplo, a tendência ao colegiado como modo de ser obrigatório de todo poder dentro da Igreja e como expressão de certa “desmonarquização” da autoridade eclesiástica, a qual ipso facto ficaria, em cada grau, muito mais condicionada do que antes ao escalão imediatamente inferior.
Tudo isto, levado às suas extremas conseqüências, poderia tender à instauração estável e universal, dentro da Igreja, do sufrágio popular, que em outros tempos foi por Ela adotado às vezes para preencher certos cargos hierárquicos; e, num último lance, poderia chegar, no quadro sonhado pelos tribalistas, a uma indefensável dependência de toda a Hierarquia em relação ao laicato, suposto porta-voz necessário da vontade de Deus. “Da vontade de Deus”, sim, que esse mesmo laicato tribalista conheceria através das revelações “místicas” de algum bruxo, guru pentecostalista ou feiticeiro; de modo que, obedecendo ao laicato, a Hierarquia supostamente cumpriria sua missão de obedecer à vontade do próprio Deus.
(Plinio Corrêa de Oliveira – REVOLUÇÃO E CONTRA-REVOLUÇÃO)

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Carta a Francisco I

São Cristóvão, 7 de março de 1822

Querido papai!

Embora seja muito penoso para mim escrever, já que espero o nascimento para qualquer momento, considero meu dever mais sagrado lhe dar notícias minhas, uma vez que conheço bem demais seu coração paternal para ter certeza de que minhas linhas têm algum interesse para o senhor. Aqui reina um verdadeiro caos de idéias e cenas, tudo surgido do logro chamado espírito de liberdade, e nas províncias do Norte agora estão assassinando todos os europeus; Deus (que dispõe tudo para o bem do homem) permita que a situação fique calma, como quer me parecer; meu esposo declarou que ficará aqui; embora pensemos diferentemente em alguns aspectos, é melhor que me cale e observe silenciosamente. Beijo-lhe as mãos inúmeras vezes, assim como as da querida mamãe, e permaneço sempre com fervorosíssimo amor filial e respeito, caríssimo papai, sua filha mui obediente.

Leopoldina

_____________________________________________________________

Carta a D. Pedro I

São Cristóvão, 28 de agosto de 1822

Meu querido e muito amado esposo

Perdoe mil vezes que eu ralhei na minha última carta, mas deve ser-lhe prova de amizade de ser muito triste de ter me deixado faltar notícias suas; agora estou contentíssima com suas regras de Lorena; não é preciso recomendar-me as suas qualidades; seja persuadido, depois de dar-me tantas provas de confiança antes perder tudo que faltar aos meus deveres e bem do Brasil; os papéis se vão imprimir na Gazeta.

Sinto muito dar-lhe notícias desagradáveis, mas não quero faltar à verdade, mesmo se é penoso a meu coração; a tropa de Lisboa entrou na Bahia, e dizem que desembarcou; a nossa esquadra não se sabe o que fez, se é falta de ânimo dela é preciso o mais rigoroso castigo, chegarão três navios de Lisboa, os quais dão notícias de que os abomináveis portugueses querem sua ida para lá mesmo se voltasse ao Brasil outra vez, e que ia ao poder executivo a decidir se deve vir mais tropa para cá, é certo que aprontem a toda pressa dois navios; ontem deram a falsa notícia que estava uma esquadra de Lisboa fora da Barra de modo que todo se aprontou para recebê-la com fogo e bala.

O Abregé106 tem tido uma questão com o Martim Francisco107, o último deve [ter] toda a razão, e o primeiro tem sido muito atrevido, de modo que era preciso eu o fazer calar; eu lhe escrevo isto porque penso que lhe representaram em baixo de outro modo falso.

Deram um tiro no autor do Diário108, e o General Usley na qual diz irão que haviam de dar outro no amigo José Bonifácio; a Polícia já anda vigiando este negócio.

Mandou-se dar castigo ao autor do Correio que estas três últimas vezes tem sido o mais que possível.

Chegou um certo Veríssimo109, dizendo que foi nomeado Encarregado dos Negócios dos Estados Unidos pelo Congresso de Lisboa; ele vem falar-me e o José Bonifácio me disse de eu ver se podia tirar-lhe alguma coisa pois soube que saiu mandado pelas Cortes, três meses faz de Lisboa, desembarcou na América inglesa, tratando de negócios deles, e por ordem dos mesmos veio para cá até mais ordenar, é muito mau sujeito, e espertíssimo, de modo que anda sempre em companhia de espias nossos.

O povo e muitos outros falam no por os esquadrões da cavalaria a pé com muito atrevimento e barulho crê que era bom deixar este negócio em esquecimento. O José Bonifácio mais lhe falará.

Recebo neste instante sua carta de Taubaté que muito lhe agradeço em lhe merecer a amizade que me prova sendo certamente todo meu ser, não falando das muitas saudades suas que eu tenho, pedindo-lhe que não fique mais ausente que um mês; o José Bonifácio lhe dirá o mesmo; a sua presença é muito preciso sendo São Paulo muito longe para dar prontas.

Receba mil abraços e as expressões do mais terno amor e amizade desta sua esposa que o ama ao extremo

Leopoldina

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Primeira bandeira dos Estados Unidos do Brasil (15-19 de novembro de 1889)

 

É explicável que alguns brasileiros, de espírito simplista, queiram por força ver, nas vantagens que nos levam os Estados Unidos em prosperidade, um efeito, não de causas naturais e irremediáveis, mas uma resultante da diferença de governos. O solo não se pode trocar, a raça não se pode substituir, mas, em todo o tempo, é possível mudar o governo. Não podendo dar-nos o solo dos Estados Unidos, nem as qualidades étnicas do seu povo, houve quem quisesse dar-nos aos menos o seu governo, isto é, o que de menos invejável tem a grande nação.

E a escola fatal dos imitadores de instituições não atende ao contra-senso do seu sistema, nem aos funestos resultados que produzem as leis transplantadas arbitrariamente de um país para outro. Quando os romanos ainda rudes conquistaram a culta Grande Grécia, Valério Messala trouxe de Catania um relógio solar que mandou colocar no Fórum, junto aos Rostros. Não atendeu Valério Messala nem à diferença de longitude nem à orientação do gnomo, e dispo-lo ao acaso. Só um século mais tarde é que se descobriu em Roma que o relógio solar marcava a hora com grande erro de tempo, e só então é que foi substituído. O relógio que dava o tempo certo em Catânia errava em Roma (*). Assim as instituições: podem dar certo nos seus países de origem, e trazer a confusão e a desordem nos países para onde arbitrariamente as transmudam.

No Brasil aconteceu o mesmo com a idéia funestíssima de copiar os Estados Unidos nas suas leis políticas. Copiemos, copiemos, pensaram os insensatos, copiemos e seremos grandes! Deveríamos antes dizer: Sejamos nós mesmos, sejamos o que somos, e só assim seremos alguma cousa. Imagine-se um indivíduo qualquer que, admirando uma tela de Velásquez, deseje pintar como ele. De que servirá ter a tela, os pincéis, a palheta e as tintas perfeitamente iguais, em matéria-prima, tamanho e dosagem às do pintor espanhol? Debalde arranjará as tintas e esforçar-se-á para pintar como Velásquez. Terá tudo quanto tinha Velásquez, menos o gênio, e mesmo tendo gênio, será outro gênio e não o gênio de Velásquez. Assim, os países sul americanos querem ser ricos e prósperos como os Estados Unidos, e pensam que conseguirão isto copiando artigos da constituição norte americana. E como é muito da natureza humana imitar mais facilmente os vícios do que as virtudes, a imitação das práticas corruptas da administração americana é cousa muito natural. “Nos Estados Unidos rouba-se muito”, pensa o empregado público sul americano, “e, apesar disso, são um grande país; ora, por que não será grande o meu país, apesar de eu roubar e dos meus colegas roubarem?” Esse raciocínio apresenta-se forçosamente à fragilidade do funcionário, a tentação fortalece-se e… o resto temos visto. (…) Os vícios dos grandes corrompem os pequenos, e o mau exemplo dos poderosos é a perdição dos humildes.

(*)Plinio, Hist. Nat., liv. VII,60.

(A ILUSÃO AMERICANA – Eduardo Prado)

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André Rebouças

 

Cannes, 13 de maio de 1892

Meu mestre e meu Imperador. – Não passará o terceiro aniversário da Libertação da Raça Africana no Brasil sem que André Rebouças dê novo testemunho de filial gratidão ao Mártir sublime da Abolição.
Sinto-me feliz por ter sido escolhido pelo Bom Deus para representar a devotação da Raça Africana a Vossa Majestade Imperial e à Princesa Redentora, e alegro-me repetindo-o incessantemente.
É hoje grato relembrar a síntese da nossa vida, como meu Bom Mestre disse no Alagoas quando comemoramos seu 64º aniversário.
Participou em Petrópolis, em 1850, há quarenta e um anos, examinando-me em aritmética, ainda menino de colégio, e continuou, quase quotidianamente, nas lições e nos exames das Escolas Militar, Central e de Aplicação na fortaleza da Praia Vermelha, até dezembro de 1860.
Os anos de 1861 e 1862 foram de estudos práticos de caminho de ferro e de portos de mar na Europa. A primeira Memória, escrita com o Antônio, datada de Marselha, em 9 de junho de 1861, foi dedicada, como de justiça, ao nosso Bom Mestre e Imperador. Quando Vossa Majestade encontrava meu Pai, suas palavras primeiras eram: – Como vão os meninos? – Onde estão agora? Recomende-lhes sempre que estudem e que trabalhem.
Voltamos ao Brasil em fins de 1862, e encetamos a vida prática nos trabalhos militares de Santa Catarina, motivados pelo conflito Christie.
A 28 de dezembro de 1863 separei-me, pela primeira vez, do meu irmão Antônio… Começa daí em diante o período industrial de minha vida…
Vossa Majestade e meu Pai não queriam que eu tivesse uma orientação além da vida tranqüila da Ciência e do Professorado; mas o visconde de Itaboraí, que também me devotava afeição paternal, dizia: – André!… Quero que você suceda ao Mauá!…
Sabe Vossa Majestade quanto sofri da oligarquia politicante e da plutocracia escravocrata nesses afanosos tempos… Só tenho hoje deles uma consolação: – Projetei e construí as Docas de Pedro II; concebi e dirigi o caminho de Ferro Conde d’Eu e sua bela estação marítima de Cabedelo.
Vossa Majestade gosta de recordar que, em Uruguaiana, salvamos juntos, pelo nosso horror ao sangue, 7.000 mil paraguaios e centenas de brasileiros… Na atual antipatia ao militarismo, apenas me lembro dos trabalhos de Itapiru e Tuiuti.
Em 1880 começa a Propaganda Abolicionista. Nós, tribunos ardentes, só tínhamos uma certeza e uma esperança: o Imperador. Em 1871 havia Vossa Majestade concedido à Filha Predileta libertar o berço dos cativos com Paranhos, visconde do Rio Branco.
Em 1888 a iniciativa partiu d’Aquela que não pode ver lágrimas nem ouvir soluços de pobres, de infelizes e de escravos, no amor Santo de Mártir do Cristianismo Inicial, aspirando menos à glória na Terra do que anelando a benemerência no Céu, junto a Jesus, o Redentor dos Redendores.
Enfim… Creio que podemos esperar tranqüilos o juízo de Deus; porque havemos cumprido sua grande Lei trabalhando pelo Progresso da Humanidade.
Agora, só tenho a dizer-lhe que desde 15 de novembro de 1889 perdi a linha divisória entre meu Pai e meu Mestre e, Imperador, e que é na maior efusão de amor que me assino, – Com todo o coração – André Rebouças.

(Nabuco, Joaquim – MINHA FORMAÇÃO – pgs. 173-174)

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Testamento do Almirante Tamandaré, Patrono da Marinha brasileira.

 

23 de setembro de 1893

Marquis_of_tamandare_1873“Não havendo a Nação Brasileira prestado honras fúnebres de espécie alguma por ocasião do falecimento do imperador, o senhor D. Pedro II, o mais distinto filho desta terra, tanto por sua moralidade, alta posição, virtudes, ilustração, como pela dedicação no constante empenho ao serviço da Pátria durante quase 50 anos que presidiu a direção do Estado, creio que a nenhum homem de seu tempo se poderá prestar honras de tal natureza, sem que se repute ser isso um sarcasmo cuspido sobre os restos mortais de tal indivíduo pelo pouco valor dele em relação ao elevadíssimo merecimento do grande imperador.
“Não quero pois, que por minha morte se me prestem honras militares, tanto em casa como em acompanhamento para sepultura.
“Exijo que meu corpo seja vestido somente com camisa, ceroula e coberto com um lençol, metido em um caixão forrado de baeta, tendo uma cruz na mesma fazenda, branca, e sobre ela colocada a âncora verde que me ofereceu a Escola Naval em 13 de dezembro de 1892, devendo-se colocar no lugar que faz cruz a haste e o cepo um coração imitando o de Jesus, para que assim ornado signifique a âncora-cruz, o emblema da fé, esperança e caridade, que procurei conservar sempre como timbre dos meus sentimentos.
“Sobre o caixão não desejo que se coloque coroas, flores nem enfeites de qualquer espécie, e só a Comenda do Cruzeiro que ornava o peito do Sr. D. Pedro II em Uruguaiana, quando compareceu como primeiro dos Voluntários da Pátria para libertar aquela possessão brasileira do jugo dos paraguaios que a aviltavam com sua pressão; e como tributo de gratidão e benevolência com que sempre me honrou e da lealdade que constantemente a S. M. I. tributei, desejo que essa comenda relíquia esteja sobre meu corpo até que baixe à sepultura.
“Exijo que não se façam anúncio nem convites para o enterro de meus restos mortais, que desejo sejam conduzidos de casa ao carro e deste à cova por meus irmãos em Jesus Cristo que hajam obtido o foro de cidadãos pela Lei de 13 de maio. Isto prescrevo como prova de consideração a essa classe de cidadãos em reparação à falta de atenção que com eles se teve pelo que sofreram durante o estado de escravidão; e reverente homenagem à grande Isabel Redentora, benemérita da pátria e da humanidade, que se imortalizou libertando-os.
“Exijo mais, que meu corpo seja conduzido em carrocinha de última classe, enterrado em sepultura rasa até poder ser exumado, e meus ossos colocados com os de meus pais, irmãos e parentes, no jazigo da família Marques Lisboa.
“Como homenagem à Marinha, minha dileta carreira, em que tive a fortuna de servir à minha pátria e prestar alguns serviços à humanidade, peço que sobre a pedra que cobrir minha sepultura se escreva: ‘Aqui jaz o velho marinheiro’.
Almirante Joaquim Marques Lisboa – M. de T.” (*)

—–

(*) M. de T. significa “Marquês de Tamandaré”

 

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seminario
Palácio Seráfico
Às margens do escuro rio que separa o Estado do Paraná de Santa Catarina, na área metropolitana de Curitiba, palco de alguns episódios sangrentos durante a Revolução Federalista e a Guerra do Contestado, vive um povo laborioso e pacato, em duas ou três ocasiões flagelado por devastadora enchente do negro rio.
Dotados de grande fé, os rionegrenses sempre elevaram seus corações ao alto nestas ocasiões trágicas de sua história.
No ponto geograficamente mais alto da cidade se encontra um monumento que convida a população e a todos que por ali passem à consideração das coisas celestes. No topo da montanha está o Palácio Seráfico. Dir-se-ia que é um castelo francês.
            Fiéis discípulos do Poverello di Assisi, missionários franciscanos vindos da Alemanha, estavam profundamente imbuídos do espírito do seráfico fundador: desapegar-se de todos os bens materiais para melhor contemplar nas criaturas os reflexos do Criador. Longe deles qualquer laivo de maniqueísmo, a heresia que pregava que a matéria é odiosa e que apenas o espiritual tem valor.
            Foi assim, que utilizando todos os recursos de que dispunham, os franciscanos construíram um magnífico palácio, há precisamente 95 anos. O edifício, serviu como centro de formação de sacerdotes, ao mesmo tempo em que mantinha um elevado nível cultural, como atesta o escritor Prof. Ayrton Gonçalves Celestino:
            “Quando jovem, tive a felicidade de viver no Seminário Seráfico por dois anos. Estudei lá. Desfrutei do ambiente de recolhimento, de alegria juvenil, de esportes, de estudo, de companheirismo e de muita oração. Foram dias de minha adolescência que jamais voltarão e que me trazem lembranças inesquecíveis.
            (…)
            A festa de Cristo Rei era ornamentada com tapetes lindíssimos no caminho da procissão, nos pátios do Seminário. Os tapetes eram de serragem colorida, pó de café, pedra moída e outros materiais. Eram obras de arte paciente e demoradamente preparadas. Na madrugada da festa, os desenhos eram confeccionados no chão, cuidadosamente limpo, por onde passaria o Cristo Rei, na forma do Santíssimo Sacramento da Eucaristia, conduzido pelo Padre Superior.
            (…)
            No bem montado e aparelhado salão de teatro eram proporcionados espetáculos teatrais pelos seminaristas.  (…) O teatro tinha um conjunto de cenários de causar inveja a grandes teatros do mundo, com equipamentos especiais de substituição de panéis sofisticados, movido por roldanas e engrenagens que, em menos de 30 segundos trocavam os cenários. Também a acústica do salão foi primorosamente planejada.
            Uma das peças que me marcou profundamente foi o “Doktor Faustus”, de Goethe.
            (…)
            [O seminário possuía] … valioso  Museu de Botânica, Zoologia e Entomologia, com sua grande e raríssima coleção de insetos, principalmente borboletas, paciente e zelosamente coletadas por Frei Miguel Witte OFM. O acervo entomológico ascendia a mais de 8 mil borboletas. Este Museu era a jóia mais rara e a mais visitada do Seminário, atraindo visitantes de muitas partes não só do Paraná como do Brasil e do mundo inteiro.
            (…)
            A atividade de Frei Miguel no mundo da Ciência e da pesquisa, já nos idos dos anos 30, corria o mundo. Participava com artigos e pesquisas, de revistas especializadas na Alemanha. Frei Miguel engendrou um sistema muito curioso e inédito de fotografar animais em liberdade, sem a presença humana. Um dispositivo ligado a uma “armadilha fotográfica” que, disparado pelo próprio animal, acionava um “flash” e o instantâneo, a pose do animal, saía da forma mais perfeita possível. Várias destas fotos foram publicadas nas revistas especializadas do mundo. Eram os recursos que os cientistas tinham, então, quando ainda não existia a televisão e outros equipamentos de alta tecnologia como os de hoje” (*)
            Tendo os franciscanos se transferido para a cidade paulista de Agudos, as instalações passaram à municipalidade, instalando-se ali a Prefeitura Municipal de Rio Negro, conservando o nome de Palácio Seráfico.
dom frei carlos
Dom Frei Carlos Eduardo Sabóia Bandeira de Mello
            Por este seminário passaram figuras de destaque, tendo mais de 10 bispos estudado ou lecionado ali. Destacamos entre estes Dom Frei Carlos Eduardo Sabóia Bandeira de Mello, primeiro bispo de Palmas. Ocupou o cargo de prefeito do Seminário e destacou-se como grande pregador. Era Provincial quando recebeu a nomeação para a Prelazia do Senhor Bom Jesus dos Campos de Palmas. A sagração episcopal realizou-se na catedral de Petrópolis, sua cidade natal. O evento contou com a presença do Chefe da Casa Imperial Brasileira, Sua Alteza Imperial o Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança e outros membros da família imperial a quem o prelado era unido por laços de amizade.
            Dom Carlos soube aliar sua linhagem aristocrática a uma grande afabilidade, tendo conquistado entre alguns fama de santidade.
—-
(*)Celestino, Ayrton Gonçalves – OS BUCOVINOS DO BRASIL – Curitiba, 2002- pgs. 275-277.

 

 

http://cinzasquechoram.blogspot.com/2013/04/da-simplicidade-franciscana-nasce-um_15.html

 

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Havia apenas um mez que, na Real Capella das Necessidades, se celebrára o casamento da Infanta D. Maria Anna com S.A.R. o Príncipe Jorge   da Saxonia, confirmando-se assim à face de Deus os contractos que os plenipotenciários tinham tratado e assignado: o Marquez de Loulé, pelo Rei de Portugal, e o Conde Carlos Frederico Vitzhun de Eckstaedt, pelo Rei da Saxonia.

Estefania_rainha_de_Portugal

Fôra D. Luiz, então, simples capitão de mar e guerra, buscar a bordo do seu navio o noivo, e foi também D. Luiz, quem depois do primeiro mez de lua de mel gozado no Paço de Belém, os levou no seu navio a Antuerpia.

Maio ouvira os sinos da capital tocar festivamente para as bodas da linda Infanta, vira passar os nubentes, nos coches graves, após a bênção do Patriarcha, fôra testemunha d’alegrias.

Julho ouvira tocar os sinos de Lisboa, mas a finados.

Em maio de 1859 casára uma Infanta; em julho, morria a Rainha, a bem amada Rainha Estephania.

A Rainha acompanhava muitas vezes S. M. o Senhor D. Pedro nas visitas aos enfermos da epidemia. Mas não foi nessas visitas que Ella encontrou a morte. Tinham ido a Vendas Novas. Lembro-me que a locomotiva foi toda enfeitada a dhalias. A Rainha Estephania contrahiu n’essa viagem uma angina diphterica; não lha conhecem, e em 24 horas morre.

Morreu no dia do Anjo Custodio do Reino. Havia uma prophecia popular que dizia que no anno em que a festa do Anjo Custodio cahisse a 17 de julho, haveria lucto nas testas coroadas. O dia do Anjo Custodio, que é no 3.o domingo de julho, nesse anno de 1859, cahiu a 17 de julho.

A Rainha Estephania conheceu a morte. Quando a Imperatriz se chegou ao leito d’ella, a Rainha disse-lhe:

– –  “Os mosquitos já não acham o sangue tão doce!”

Ao expirar, deu estas palavras para a Imperatriz:

— “Peço à Avó que mande dizer aos meus Paes, que os dias mais felizes de minha vida os passei em Portugal”.

E o seu ultimo alento foi para pedir:

— “Consolem o meu Pedro!…” 

D. Pedro V queixava-se, entre os soluços da sua dôr:

— “Nunca tenho uma alegria completa. Há um mez uns noivos que me fizeram bem, e já agora a morte!…”

Tinham-se partido, uma vestida de noiva, outra amortalhada pela saudade do esposo e do povo português, as companheiras inseparaveis de D. Pedro V nos seus longos passeios pelos casebres e campos cumvizinhos do Paço.

À consciência da sua missão de Rei e no revolvêr da propria dôr,  ia D. Pedro V buscar as forças para se resignar da crueldade do destino que mal lhe déra quatorze mezes para ser noivo e viuvo.

À fé religiosa ia o Príncipe Hohenzollern buscar, e encontrar a conformação perante a perda da filha.

É d’um catholico a seguinte carta do Príncipe Hohenzollern, escripta em resposta e agradecimento aos pezames que a S.A.R. escreveu o Conde da Ponte.

 

Vossa Excellencia

quiz exprimir-me a sua co-participação na dôr pela perda cruel, que a Providência divina nos impôz. Abençoando a Sua vontade, devemos crêr  que, dilacerando nosso coração, rasgando laços de família, dos mais queridos, mergulhando-nos no mais profundo lucto, Ella nos quiz experimentar.

Agradecemos a Vossa Excellencia o ter-nos associado ao nosso desgosto. Mas creia que também, posso dizer-lh’o sem vaidade, perdeu uma alma nobre e bondosa, que lhe foi muito affeiçoada e reconhecida pessoalmente -. porque a minha muito amada filha não se cançava de me dizer quanto apreciava a sua dedicação e os seus serviços.

Chorêmo-la sinceramente, que, emquanto nós a choramos, Ella rogará por nós lá nas Alturas, e será o nosso anjo guardião commum.

Aceite a expressão do meu vivo reconhecimento por toda a dedicação que mostrou e testemunhou à minha fallecida filha, e creia, senhor Conde, nos sentimentos d’alta estima que continua a votar-lhe.

O seu 

dedicado

Principe de Hohenzollern

Dusseldorf 4 – agosto -59

(LEITÃO, Joaquim – AS ALLIANÇAS DAS CASAS DE BRAGANÇA E HOHENZOLLERN – Porto, 1913)

[conservada a grafia original]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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T.Roosevelt

A fé católica inspirou aquela esplêndida floração do tempo dos Reis Católicos, de energias intelectuais e morais mais exuberantes que as dos bosques virgens desta América.

Daqueles frutos sazonados do século do ouro espanhol ela criou o caráter hispano, robusto e viril, nobre e generoso, grave e valente até a temeridade; os sentimentos cavalheirescos daquela raça potente de heróis, sábios, santos e guerreiros, que nos parecem hoje legendários; daqueles corações indomáveis, daquelas vontades de ferro, daqueles aventureiros nobres e plebeus que, com pobres barcos de madeira, corriam a dobrar a terra e alargar o espaço, limitando esfericamente o Globo e completando o Planeta e abrindo, através do Atlântico, novos céus e novas terras.

Ela moveu a essa raça espanhola , que fez o que nenhum outro povo fez: descobrir um mundo e oferecê-lo a Deus, que o concedeu.

Foi um padre espanhol, o Pe. Las Casas, o que inspirou a “Lei das Índias”, tão paternais para que os espanhóis, com a transfusão de seu sangue, de sua vida e de sua fé, implantassem em nosso solo uma civilização muito distinta da de outros povos conquistadores, mais humanitária que a que mata ou escraviza raças, como o têm feito os franceses e os ingleses e nós mesmos com os índios na América do Norte.

 

(Trecho de discurso do Presidente americano Theodore Roosevelt em Baltimore, 1902  – transcrito e traduzido da edição espanhola da Enciclopédia ESPASA CALPE, vol. 52, p. 280)

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