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Franz_I_und_Karl_V                                                                                 Rei Francisco I e Imperador Carlos V

 

 

    O nobre francês rivaliza em coragem com os mais corajosos dentre os fidalgos europeus. Sem embargo conserva uma gentileza, uma distinção, uma beleza de gestos que indicam o requinte de sua educação e da civilização que o formou. 

          Forte e ao mesmo tempo requintadamente civilizado, ele é o mais gentil, o mais amável na guerra como na paz; o mais brilhante na indumentária, tanto na guerra como no salão de festas; o mais cortês, o mais atencioso, até mesmo com prisioneiros de alta categoria que porventura tenha feito durante o combate.

          Um exemplo histórico:

           Francisco I, Rei da França (1494–1547), depois de perder na Itália em 1525 a batalha de Pavia, foi preso pelas tropas espanholas. Antes de ser entregue ao exército do Imperador Carlos V (1500–1558), escreveu uma carta à sua mãe, na qual dizia: “Madame, tout est perdu hormis honneur. François”.

        De modo respeitoso e elegante ele se dirige à própria mãe com o tratamento de Senhora. Depois acrescenta “tudo está perdido exceto a honra”. Ou seja, quando a honra não está perdida, não se perdeu nada.

          Carlos V, em vez de receber Francisco I com honras reais, mandou colocá-lo numa horrível prisão com a intenção de forçá-lo a assinar um tratado marcadamente favorável ao Império.  

           Libertado, Francisco I saiu da prisão com a altaneria de um sol que nasce, demonstrando uma dignidade de pasmar.

          Tempos depois, recebe ele uma carta de Carlos V explicando que precisava atravessar o território francês e solicitando-lhe a garantia de que não seria preso nem sofreria qualquer lesão de seus direitos.

          Qual a atitude de Francisco I?

         Ele poderia ter concedido um salvo-conduto a Carlos V com a intenção traiçoeira de aprisioná-lo e de encerrá-lo numa masmorra. Ou abertamente ameaçado: Não vos deixo passar; se entrardes em meu território, prender-vos-ei e vos colocarei numa enxovia semelhante àquela em que Vossa Majestade me lançou.

O monarca francês, pelo contrário, deu ao Imperador todas as garantias desejadas. Recebeu-o com festas esplêndidas, acompanhou-o num trecho de sua viagem, e por fim despediu-se dele com elegância e cortesia.

         É um modo de ser verdadeiramente senhor e nobre.

__________________________________

Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, em 1º de maio de 1993. Sem revisão do autor.

 

(Revista CATOLICISMO – setembro/2005 – www.catolicismo.com.br)

 

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Na sociedade medieval os relacionamentos humanos não eram tanto baseados nos contratos de serviço, mas nos contratos pessoais em que um homem se dá inteiro e recebe uma proteção total.

Hoje, os contratos entre patrão e empregado, ou entre patrão e patrão, empregado e empregado, são contratos trabalhistas, contratos de compra, venda, empréstimo, etc., e locação de serviços.

Esse tipo de contratos está restringido aos interesses e vantagens particulares legítimos.

Porém, não se pode dizer que atendem a todos os desejos de relacionamento que existem no homem.

Trata-se de contratos legais onde o relacionamento de alma é secundário ou está ausente. Esta ausência deixa um vazio no espírito.

A sociedade medieval apanhou perfeitamente essa ausência na locação de serviços entre empregador e empregado.

Aliás, as palavras empregador e empregado são muito boas para o mundo do metal e do dinheiro.

Por exemplo, uma cozinheira que vai trabalhar a uma casa às tantas horas, faz o almoço todos os dias, sai, e volta para fazer o jantar. Depois ela recebe o pagamento no fim do mês. E com isto estão esgotadas as relações.

O que o patrão faz fora do jantar, o que a cozinheira faz fora da hora de trabalho? Cada um ignora quase tudo a respeito do outro.

A relação é: eu sou o que come e paga, ela é a que trabalha e vive do que eu dou para ela. Fora disto os contratos humanos estão inteiramente suspensos, não existem entre empregador e empregado.

Por isso o relacionamento é realmente entre empregador e empregado, porque a única relação que há é um emprego de caráter econômico. A expressão então é justa.

Mas, na Idade Média, a palavra patrão continha muito mais. Patrão vem da palavra latina pater, ou seja, pai, com todos os ponderáveis e imponderáveis que a palavra pai traz consigo.

E a palavra criado vem da ideia de criação, quer dizer a pessoa criada dentro da casa, como uma espécie de filho ou filha, com todos os ponderáveis e imponderáveis dos relacionamentos que há entre pai, mãe e filhos.

Então o contrato entre criado e patrão medieval tomava o homem todo também.

Os patrões cuidavam dos criados como se fossem outros filhos, dignificando-os
Os patrões cuidavam dos criados como se fossem outros filhos, dignificando-os

Quando o criado entrava a trabalhar na casa do patrão era obrigado, antes de tudo, a morar na casa dele, a viver uma vida entrelaçada com a dele, contente com todos os fatos bons para o patrão, triste com todos os fatos ruins para essa forma de pai.

O casamento de um filho ou de uma filha, um filho que se formava um bom negócio que o patrão fazia, uma viagem, uma promoção, era para o criado um título de alegria, e ele participava do feliz sucesso.

Mas assim como o criado se dava completamente ao patrão, o patrão também se dava completamente ao criado.

E essa proteção atingia também aos filhos do criado, sua parentela, até mesmo quando, por alguma razão, ele deixava a casa.

Isto era algo muito semelhante, no nível doméstico ou do ofício, à vassalagem entre senhores feudais.

O vassalo pertencia ao seu senhor e a quem o senhor pertencia. Não como escravo, mas numa situação que era, de certo modo, uma prolongação da paternidade.

Por outro lado, na escala da nobreza, era a mesma coisa dos nobres inferiores em relação aos superiores e assim por diante, até chegar ao rei.

Conta-se que na noite de 10 de agosto de 1792, quando os revolucionários foram atacar o castelo das Tulherias, este castelo estava cheio de nobres acorridos dos fundos das províncias, alguns trazendo armamentos do tempo das guerras de Religião.

Por quê? Porque eles consideravam-se pertencer inteiramente ao rei, porque participavam da pessoa e da dignidade do monarca. E, portanto, se sentiam obrigados a derramar pelo rei seu próprio sangue.

Eles recebiam do rei todo o seu ser, tudo quanto eles eram. Mas de outro lado, eles davam tudo pelo rei. Era um contrato de homem a homem que toma por inteiro.

Episódios análogos se deram com os camponeses e domésticos defendendo as terras ou o castelo do patrão.

Relacionamento de alma, mais do que de dinheiro
Relacionamento de alma, mais do que de dinheiro

Todos estes traços característicos do relacionamento pessoal na sociedade medieval existiam na Igreja Católica. E, às vezes, tinham sido criados pela própria Igreja.

Depois do Vaticano II estabeleceu-se por via de fato, entre o bispo e seus padres uma relação mais parecida com o frio – mas legítimo – contrato entre empregador e empregado.

Porque o padre trabalha para o bispo. E o bispo é um gerente dos padres. Mas, como a palavra gerente diminui, depaupera, avilta a dignidade do bispo!

Como deforma a realidade dizer que o padre é um empregado do bispo!

Em sentido diverso, qual era o relacionamento medieval do padre com o bispo?

O padre se dá à diocese. E dando-se à diocese, ele se entrega e passa a pertencer ao bispo. E por isso, um padre diz a verdade quando diz que é padre de tal bispo.

Por outro lado, o bispo também se dá à diocese e ao seu clero.

E por causa disto, o padre tinha uma dedicação pelo bispo que chega até ao derramamento de sangue. E vice-versa.

Muito mais frisante é isto nas Ordens religiosas, onde o religioso se dá à Ordem completamente na pessoa do abade ou superior, e onde o superior se dá à Ordem completamente.

Estas relações se parecem extraordinariamente com o princípio da sociedade temporal medieval. E muitas vezes, foram os religiosos – notadamente, os beneditinos – que passaram esse relacionamento de alma à sociedade.

Não havia um contrato de trabalho meramente material, argentário ou de interesses.

O contrato de trabalho é necessário, mas é apenas um dos elementos integrantes de toda uma situação humana de relações afetivas, de contatos morais, de gostos comuns, que se estabelecem na vida real sempre que dois ou mais se relacionam.

Dessa maneira, temos uma noção muito mais verdadeira, aconchegante, simpática e protetora do que era a civilização medieval.

 

http://cidademedieval.blogspot.com/2014/06/relacoes-entre-empregado-e-empregador.html

 

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Vaso de porcelana de Sèvres – Exemplo de qualidade nascida da Cultura (foto: P. poschadel)

Número é uma palavra que supõe a noção de quantidade. Bem distinta desta é a noção de qualidade. O culto do número é o estabelecimento de uma ordem de coisas na qual a quantidade seja critério supremo. Evidentemente, tal ordem de coisas é profundamente distinta de outra em que se colocasse no devido realce o fator “qualidade”. Na concepção revolucionária, essencialmente igualitária, o fator qualidade é necessariamente prejudicado em favor da quantidade. Pois se todos são iguais devem ter a mesma cultura, a mesma educação, o mesmo padrão de vida, a mesma influência, o mesmo prestígio. E isto conduz forçosamente à idéia de dar mais valor a alfabetização do que à formação de elites; de tornar mais abundante a produção em lugar de a tornar também melhor; de padronizar e estandardizar tudo, segundo as conveniências do tipo abstrato de homem, ao qual todos se devem nivelar, não lhes sendo lícito ficar aquém ou além do modelo oficial.

Para um Estado mecânico, em que toda a atividade se faz exclusivamente sob o impulso das leis, portarias, circulares ministeriais e regulamentos, para uma sociedade composta de homens anônimos e iguais perdidos na massa, o que é cada homem senão um número? E para cada unidade humana, do que se necessita senão das unidades de cultura, de alimentação, de alojamento necessários para que possam prolongar a existência e multiplicar a descendência?

A quantidade é o ideal natural, o único objetivo atingível para o Estado mecânico. Muito diverso é o problema visto do ângulo da qualidade, pois esta só pode nascer da formação das elites de berço e de cultura, da apuração das potencialidades de alma existentes em medida tão desigual entre os homens, e da livre projeção destas desigualdades por todo o corpo social, bem entendido nos limites em que o permitem a justiça e a caridade ensinadas pela própria doutrina da Igreja.

(Plinio Corrêa de Oliveira – Revista Catolicismo – Setembro de 1951)

www.catolicismo.com.br

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Dona_Lucilia_Dr_JoaoAlfredoCorreadeOliveira_libertacao_escravos

 

Dr. João Alfredo Corrêa de Oliveira (1835-1919), tio-avô de Plinio e presidente do Conselho de Ministros do Império, autor da célebre lei Áurea que, em 1888, aboliu a escravidão no Brasil

Ignoramos as razões por que o riquíssimo arquivo deixado pelo conselheiro João Alfredo ainda não tentou o talento e a curiosidade de algum biógrafo. Nesse arquivo, ao par de documentos históricos de primeiro valor figuram trabalhos do conselheiro ainda inéditos, entre os quais uma história da Revolução de 1817 em que é cabalmente demonstrada a tese de que a maior parte de seus cabecilhas não desejava a proclamação da República.

O certo é que uma biografia de João Alfredo constituiria um estudo psicológico de interesse palpitante, pois que a sua evolução intelectual dos princípios dissolventes e igualitários de 1789 a um Catolicismo sincero e praticante, oferece uma complexidade de aspectos em nada inferior à conversão de Nabuco ou Calogeras.

Eleito deputado aos vinte anos, sua longa atividade política só sofreu uma interrupção de cinco anos quando se extinguiu a primeira legislatura de que fez parte. Em toda a sua longa carreira, João Alfredo mostrou-se profundamente embebido dos preconceitos dissolventes da Revolução Francesa e os defendeu sempre com ardor. Particularmente na famosa questão religiosa, sua atuação revelou o cunho fortemente anti-clerical e regalista da mentalidade dos estadistas de então. Com vigor que ele imprimia a todas as suas atividades, João Alfredo não hesitou em tomar a defesa da Maçonaria liberal, contra a Igreja, e na violência da luta, não lhe detiveram os passos nem sequer os laços do parentesco e amizade que o prendiam ao jovem Bispo Dom Vital Gonçalves de Oliveira.

 

O Conselheiro João Alfredo em sua juventude

Depois de golpear a fundo o Altar, João Alfredo viu com tristeza que chegava a vez do Trono, de que ele era extremo defensor. No entanto, ainda aí, com uma coerência surpreendente em um liberal, não desmentiu seus princípios. Quando ele era Ministro do Império interpelou-o alguém sobre as providências tomadas contra a propaganda republicana, que grassava em todo o país. João Alfredo respondeu que não tinha providências a tomar, pois que, se algum dia os brasileiros optassem pela mudança do regime, ele saberia obedecer às injunções da maioria soberana.

Tibieza de opiniões? Indiferença para com a forma de governo? Não. Quando se proclamou a República, João Alfredo profundamente desgostoso, afastou-se definitivamente da política. Se cruzou os braços ante a propaganda republicana, fê-lo portanto por mera obediência às suas convicções liberais.

No entanto, esse liberal de grande estilo era, no cenário de nossa política, um autêntico Bismarck taciturno, de poucas palavras. Sua tática parlamentar se destacava pela perícia das manobras efetuadas com virulência disciplinadora de um chefe e a habilidade aveludada de um maneiroso diplomata. Muito cedo, pela manhã já era visto a percorrer as residências dos deputados, confabulando com uns e com outros, animando, coordenando, estimulando, ameaçando. Nos debates parlamentares era antes de tudo um general que dirigia de cima e de longe, sem se envolver pessoalmente na peleja oratória. Mas, quando o fazia, entrava no mais renhido do fogo, com a ferocidade fogosa de um nordestino combativo, a atacar, defender, argumentar, vencer. João Alfredo era grande orador, e disso deu provas sobejas, que hoje já ninguém discute. No entanto, seu invariável silêncio no Parlamento chegou a lhe valer a injusta fama de mau orador. Arcou com essa fama, em holocausto às suas idéias. O sacrifício foi duro, mas premiado de êxito, e quando João Alfredo encerrou sua carreira vitoriosa, a unanimidade dos brasileiros o aclamava como um dos maiores estadistas do Império.

Esse Bismarck taciturno e autoritário destoava singularmente do ambiente de retórica brilhante e talvez excessiva do Parlamento Imperial. Agia-se muito, falava-se mais ainda do que se agia. E assim parecia um prodígio a reserva inflexível do ilustre tribuno pernambucano, seu espírito autoritário e sua catadura de ditador.

Realmente havia em João Alfredo uma contradição íntima, que era um “superavit” de sua grande inteligência, em relação às idéias do século. Mal prevenido contra elas, por uma educação talvez deficiente do ponto de vista da segurança doutrinária, João Alfredo as abraçou por muito tempo. Mas sua inteligência lúcida e seu temperamento forte fizeram dele um liberal autoritário, amigo da ordem tanto quanto da liberdade. No estudante, no tribuno, o amor à liberdade excedia ao amor à ordem. No ministro, que viu do alto as verdadeiras necessidades do País, o amor à ordem acabou por vencer o amor à liberdade. E, com isso, João Alfredo foi evoluindo lentamente, até chegar ao polo oposto do liberalismo, que é o catolicismo.

O antigo perseguidor de bispos, morreu católico fervoroso. No-lo atestam seu testamento, e suas “últimas palavras”, em que pede a Misericórdia de Deus para a sua grande alma, que deposita no regaço da Igreja Católica. Bem antes de morrer, fizera-se membro da Ordem Terceira do Carmo, em que tomou o nome de Irmão João da Cruz, e foi com o hábito austero dos penitentes do Monte Carmelo que quis ir à última morada, para aguardar lá a ressurreição.

Seu fim piedoso e sereno, seguindo-se a uma vida de liberal combativo, faz lembrar involuntariamente a famosa sentença: “L’Eglise est une enclume qui a usé bien de marteaux” [A Igreja é uma bigorna que gastou muitos martelos – Frase de Théodore de Beze (ministro genovês) ao Rei de Navarra (futuro Henrique IV de França), Histoire de l’Eglise, par M. l’Abbé Berault-Bercastel, tome IX, J. B. Brouilhet Editeur, 1809, pag. 694, n.d.c.].

 

Diário de São Paulo, 21 de dezembro de 1936

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crown

 

Em geral, a noção de legitimidade tem sido focalizada apenas com relação a governos. Atendidos os ensinamentos de Leão XIII na Encíclica Au Milieu des Solicitudes, de 16 de fevereiro de 1892, não se pode entretanto fazer tabula rasa da questão da legitimidade governamental, pois é questão moral gravíssima que as consciências retas devem dar toda a  atenção.

Porém não é só a este gênero de problemas que se aplica o conceito de legitimidade.

Há uma legitimidade mais alta, aquela que é a característica de toda ordem de  coisas em que se torne efetiva a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, modelo e fonte da legitimidade de todas as realezas e poderes terrenos. Lutar pela autoridade legítima é um dever, e até um dever grave. Mas é preciso ver na legitimidade dos detentores da autoridade não só um bem excelente em si, mas um meio para atingir bem ainda muito maior, ou seja, a legitimidade de toda a ordem social, de todas as instituições e ambientes humanos, o que se dá com a disposição de todas as coisas segundo a doutrina da Igreja.

 (Plinio Corrêa de Oliveira – REVOLUÇÃO E CONTRA-REVOLUÇÃO)

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Cid Alencastro

 

Retrato da princesa

Ana de Gonzaga de Clèves, princesa palatina, nasceu em 1616.(1) Teve importante papel político na França durante a minoridade do Rei Luís XIV.

Ao ficar viúva em 1663, se bem que já tivesse 47 anos de idade, espantou a corte francesa pela licenciosidade de seus costumes e seu pouco caso para com a Religião. Ostentava não crer na Eucaristia nem na Igreja, e zombava da fé. Diz-se que chegou por ódio a queimar fragmentos do Santo Lenho.

Repetiam-se seus escândalos, até o momento em que uma graça fulminante a tocou e produziu nela uma conversão espetacular. Após sua morte, em 1685, Bossuet, o grande orador sacro do século XVII, pronunciou sua oração fúnebre, na qual nos conta detalhes impressionantes dessa maravilhosa conversão.(2)

 

 

O sonho

Jacques Benigne Bossuet, bispo de Meaux

 

A princesa teve um sonho.(3) Relata ela: Estava “caminhando sozinha por uma floresta, quando encontrei um cego numa pequena cabana. Aproximei-me dele para perguntar-lhe se era cego de nascença, ou se assim se havia tornado por algum acidente. Ele respondeu que era cego de nascença.

       Não conheceis, pois, disse eu, o que é a luz, que é tão bela e tão atraente, e o sol que tem tanto brilho e beleza? — Jamais gozei dessas belas coisas, disse ele, e não tenho nenhuma idéia de como elas são. Mas nem por isso deixo de crer que elas são de uma beleza esplendorosa”.

O cego pareceu então mudar de voz e de fisionomia, tomando um tom de autoridade: “Meu exemplo, disse ele, vos deve ensinar que há coisas muito excelentes e muito admiráveis que escapam à nossa visão, e que nem por isso são menos verdadeiras nem menos desejáveis, mesmo quando não podemos nem compreendê-las nem imaginá-las”.

Então, por uma súbita iluminação, a princesa se sentiu tão esclarecida “e de tal modo transportada pela alegria de haver encontrado aquilo que há tanto tempo procurava”, que não pôde impedir-se de abraçar o cego, cujas palavras lhe haviam revelado uma luz ainda mais bela do que aquela da qual ele estava privado. E prossegue: “Inundou o meu coração uma felicidade tão doce e uma fé tão sensível, que não há palavras capazes de exprimi-la”.

Ao despertar do sonho ela se encontrou de tal modo mudada, que tinha dificuldade em acreditar que havia passado por uma tão grande transformação: “Então, parecia-me sentir a presença real de Nosso Senhor na Eucaristia, mais ou menos como a gente vê as coisas visíveis, das quais não se pode duvidar”.

Passou assim da obscuridade à luz manifesta. As nuvens de seu espírito se dissiparam.

 

Do Céu ao Inferno

 

Corte de Luís XIV, freqüentada pela princesa palatina

Esse estado durou três meses, durante os quais ela não ousou chegar-se à Mesa Eucarística, devido à lembrança de seus muitos e graves pecados, dedicando esse tempo a preparar sua confissão sacramental. Aproximou-se, por fim, o dia tão esperado da comunhão.

Deus, porém, que é Pai de todas as misericórdias, é igualmente Senhor de todas as justiças. E após ter feito miraculosamente retornar ao aprisco aquela ovelha perdida, era necessário agora que a fizesse purgar uma vida transcorrida na ofensa ao Salvador.

Quando ela se julgava pronta para a confissão e a posterior comunhão, teve uma espécie de síncope, que a deixou sem cor, nem pulso nem respiração. Voltando, enfim, desse longo e estranho desmaio, viu-se lançada num mal ainda pior: após ter sorvido as angústias da morte, sofreu todos os horrores do inferno.

O confessor, chamado às pressas, viu-se obrigado a adiar a confissão, pois a encontrou sem forças, sem capacidade de aplicação e emitindo apenas balbucios.

        “É impossível, para quem não as provou, imaginar as estranhas penas que atingiram meu espírito. Eu esperava a cada momento o retorno de minha síncope, ou seja, minha morte e minha danação eterna. Eu confessava não ser digna de uma misericórdia que tão longo tempo havia negligenciado; e dizia a Deus, em meu coração, que eu não tinha nenhum direito de me queixar de sua justiça; mas que –– enfim, coisa insuportável! –– eu não O veria jamais; eu estaria eternamente entre seus inimigos, eternamente sem amá-Lo, eternamente odiada por Ele. Eu sentia essa dor inteiramente destacada das outras penas do inferno”.

O horrível cachorro

Nisso ela vê uma galinha conduzindo seus pintainhos. Um deles, porém, afasta-se da mãe. “Ao mesmo tempo, parecia-me que eu via vir um enorme cachorro, extremamente horrível, o qual se aproximou do pintainho, e num instante o abocanhou. Corri imediatamente até ele, para lhe arrancar o pintainho; enquanto eu procurava abrir-lhe a boca, ouvi alguém que dizia: ‘Está feito. Ele já foi engolido’. — Não, disse eu, ele ainda não foi engolido.

         Com efeito, parecia-me que eu abria a garganta do cachorro e dali retirava esse pequeno animal, que tomei entre minhas mãos para acalentá-lo; pois ele me parecia todo eriçado e quase morto. Ouvi ainda alguém que dizia: ‘É preciso devolvê-lo ao cachorro, pois ele ficará desagradado de que lhe tirem a presa’. – Não, respondi eu, não o devolverei jamais”.

Nesse momento, a princesa retornou do desmaio. E ouviu alguém que lhe dizia “Se tu, que és má, não queres entregar esse pequeno animal que salvaste, por que achas que Deus, infinitamente bom, vos entregaria ao demônio após te haver retirado de seu poder? Confia e tem coragem”.

Ela então sentiu como se um anjo lhe houvesse dito que Deus não a abandonaria, acompanhada daquela paz que supera toda inteligência.

A partir daí sua vida na corte foi extremamente edificante, até que uma dolorosíssima enfermidade a tomou e a conduziu ao termo da existência terrena. Suas últimas palavras, já moribunda, foram: “Eu me vou para ver como Deus me tratará; mas espero em suas misericórdias”.

E-mail do autor: cidalencastro@catolicismo.com.br

_____________

Notas:

1. Era filha de Carlos de Gonzaga, duque de Nevers, Rethel, Mântua et Montferrat, e de Catarina de Lorena. Desposou em 1645 o príncipe Eduardo, conde palatino do Reno, filho de Frederico V, duque da Baviera, passando a ser conhecida como princesa palatina. É o mesmo título com o qual ficou depois famosa sua sobrinha, Elisabeth Carlota, esposa do duque de Orléans, irmão de Luíz XIV.

2. Bossuet, Oraison Funèbre d’Anne de Gonzague de Clèves, princesse palatine, in Oraisons Funèbres, Flammarion Éditeur, Paris, 1935.

3. Os trechos entre aspas assim se encontram no texto de Bossuet, e reproduzem o relato deixado pela própria princesa por ordem de seu confessor, o famoso abbé de Rancé, reformador da Trapa.

 

(Revista Catolicismo – janeiro de 2007)

www.catolicismo.com.br

 

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Luis Dufaur

 

São Luís IX, rei da França

Jean de Joinville, senescal de Champagne uniu-se à Sétima Cruzada organizada pelo rei São Luís IX em 1244.

Durante a campanha militar, Jean foi conselheiro e íntimo confidente do rei, participando de muitas de suas decisões.

Após a morte do rei santo, ocorrida na Tunísia em 1270 durante a Oitava Cruzada, a rainha Jeanne I de Navarra encomendou-lhe uma História de São Luís (Histoire de Saint-Louis), que o cronista completou em 1309.

São Luís já havia sido canonizado em 1297, processo que contou com os depoimentos de Jean de Joinville como antigo confidente.

 

 

Jean de Joinville oferece seu livro ao futuro Luís X da França. História de São Luís, Paris, Biblioteca Nacional da França

Jean de Joinville oferece seu livro ao futuro Luís X da França. (História de São Luís, Paris, Biblioteca Nacional da França)

 

Conta seu infaltável assesor e companheiro de armas, o senescal de Champagne:

Acontecia-lhe muitas vezes, depois da Missa, ir sentar-se no bosque deVincennes, ao pé de um carvalho, e nos fazer sentar em torno dele.

Todos os que tinham problemas vinham lhe falar sem serem molestados por guardas ou quem quer que fosse.

E ele perguntava: “Há alguém aqui que tenha um adversário?”

Os partidos se levantavam: “Calai-vos, dizia o rei; resolver-se-ão vossos casos uns após outros”.Chamava, então, Monseigneur Pierre deFontaines e Monseigneur Geoffroy de Villete e dizia a um deles: “resolvei este litígio”.

Percebendo alguma alteração necessária às proposições dos juízes, ou do partido contrário, não deixava de fazê-la pela sua própria boca.

Eu o vi algumas vezes no verão ir ao jardim de Paris para ter audiência, vestido de uma cota de camelo e de uma sobrecota sem mangas, um manto negro de seda em torno do pescoço, muito bem penteado e coberto simplesmente com um chapéu de plumas de pavão.

Fazia estender um tapete pelo solo e todo o povo acorria para lhe apresentar pedidos, ficando de pé à sua volta.

E ele resolvia os problemas de maneira que eu disse acima, quando falei do bosque de Vincennes.

(*) Jean de Joinville (1224 – 1317, « Le Livre des saintes paroles et de bons faits de notre saint roi Louis »

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 Kaiser_franz

No Segredo de La Salette Nossa Senhora considera que o futuro da Igreja e o futuro da ordem temporal estão intimamente ligados.

Na carta a seguir de São João Bosco ao imperador da Áustria-Hungria – naquele tempo o maior chefe de Estado da Europa – encontramos a mesma percepção dessa interrelação.

São João Bosco prenuncia que tempos tempestuosos se avizinham para a Igreja e para as nações.

Essses días difíceis adviriam como castigo pelo abandono da prática da Lei de Deus.

O santo, então, comunica da parte de Deus ao imperador católico toda uma estrategia de ação política internacional, visando o bem da Igreja e da Cristandade.

Convida-o até a ser o braço armado de Deus Ele próprio: a “vara de Seu poder” e o “benfeitor da humanidade”.

Infelizmente, o imperador Francisco José não ouviu a voz do Santo dotado de luzes proféticas e não executou o plano político de Deus.

Francisco José se aliou com a Prússia, país protestante com quem Deus lhe dissera de não se aliar.

A Prússia arrastrou o império Austro-Húngaro a uma derrota espantosa na I Guerra Mundial.

Francisco José morreu em 1916 em plena guerra.

Seu império foi dissolvido poucos anos depois.

Eis a carta de São João Bosco:

Ao Imperador da Áustria
24 de maio de 1873.

Isto diz o Senhor ao Imperador da Áustria:

“Cobra ânimo: zela por meus servos fiéis e por ti mesmo.

“Minha ira está para estalar sobre todas as nações da Terra, porque se quer fazer olvidar minha lei e levar em triunfo os que a profanam, oprimir os que a observam.

“Queres tu ser a vara de meu poder?

“Queres cumprir minhas vontades arcanas e tornar-te benfeitor da humanidade?

“Apoia-te nas nações do Norte, mas não na Prússia.

“Estreita relações com a Rússia, mas não faças nenhuma aliança com ela.

“Associa-te à França católica. Atrás da França virá a Espanha.

“Formai um só espírito, uma só ação.

“Sumo segredo com os inimigos de meu santo nome. Com prudência e com energia vos tornareis invencíveis.

“Não acredites nas mentiras dos que te dizem o contrário.

“Não pactues com os inimigos do Crucificado.

“Espera e confia em mim, que sou Quem dá as vitórias aos exércitos, o salvador dos povos e dos soberanos”.

Amém. Amém.

Fonte:
Archivio Salesiano Centrale, Roma, (AS S132 Sogni 1). Fotocopia del manoscritto di Don Gioacchino Berto segretario, con postille marginali autografe di San Giovanni Bosco, descritto e trascritto da Don Angelo Amadei nel vol. X delle Memorie Biografiche.

http://aparicaodelasalette.blogspot.com.br/2014/04/carta-inedita-de-sao-joao-bosco.html

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800px-Leonardo_Gasser_Abschied_der_Maria_Stuart_1866

 

A História dá exemplo de vários reis e rainhas que, enquanto tais, tiveram uma atuação e um comportamento muito a desejar, tanto por seus erros como por suas omissões, tanto na esfera política como no campo moral.

Tais governantes, entretanto, confrontados com uma situação de infortúnio, que para eles se configurava como a condenação à morte violenta, souberam encará-la com serenidade e espírito de fé, transformando o cadafalso em que subiram no pedestal de sua própria grandeza.

Desses exemplos históricos, escolhemos o de duas rainhas, que parecem ser dos mais significativos: Maria Stuart e Maria Antonieta.

Maria Stuart (1542-1587) foi rainha de França, enquanto esposa de Francisco II, de 1558 a 1560. Com a morte prematura do jovem e debilitado rei, voltou ela à Escócia para ocupar o trono de seu país natal, a que tinha direito como única filha legítima do finado rei Jaime V.

Entretanto, seu comportamento como rainha da Escócia, especialmente do ponto de vista moral, foi bastante reprovável. Não só introduziu na corte escocesa os divertimentos renascentistas vigentes na corte francesa, como se tornou conivente com uma conspiração que eliminou seu segundo marido, Lord Henry Darnley, para poder casar-se com seu favorito, o Conde Bothwell, cabeça da referida conspiração. Este fato provocou um levante contra ela, obrigando-a a fugir do país. Imprudentemente, pediu asilo à sua acérrima e mal disfarçada inimiga Elizabeth I, da Inglaterra, que a conservou prisioneira por quase 20 anos, terminando por mandá-la executar a pretexto de seu suposto envolvimento numa conspiração que se destinava a matar a soberana inglesa.

Diante da morte, Maria Stuart conservou uma fidelidade total à sua fé católica, da qual nunca se afastou, mesmo em seus piores momentos, e fez questão absoluta de morrer como católica, recusando todos os ministros hereges que lhe eram oferecidos. A maneira como se portou diante do infortúnio lhe conferiu o halo de grandeza com que seu nome aparece na História.

 

76px-Marie-Antoinette_par_Elisabeth_Vigée-Lebrun_-_1783

Sobre a transformação sofrida por Maria Antonieta (1755-1793) diante do infortúnio, assim se exprimiu o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

“Em pleno desabamento do edifício político e social da monarquia dos Bourbons, quando todos sentiam o solo ruir sob os pés, a alegre arquiduquesa d’Áustria, a jovial rainha de França, cujo porte elegante lembrava uma estatueta de Sèvres, e cujo riso tinha os encantos de uma felicidade sem nuvens, bebia, com dignidade, com sobranceria e com resignação cristã admiráveis, os goles amargos da imensa taça de fel com que resolvera glorificá-la a Divina Providência.

“Há certas almas que só são grandes quando sobre elas sopram as rajadas do infortúnio. Maria Antonieta, que foi fútil como princesa e imperdoavelmente leviana na sua vida de rainha, perante o vagalhão de sangue e miséria que inundou a França, transformou-se de modo surpreendente. O historiador verifica, tomado de respeito, que da rainha surgiu uma mártir, da boneca uma heroína…”

(Revista Catolicismo, n° 463, Julho de 1989).

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Santo Amando, bispo de Maastricht, dita seu testamento. Vida e milagres de Santo Amando, século XII. Biblioteca Municipal de Valenciennes, Ms.501, f.58v-59
Santo Amando, bispo de Maastricht, dita seu testamento.
Vida e milagres de Santo Amando, século XII.
Biblioteca Municipal de Valenciennes, Ms.501, f.58v-59

 

No livro “Charlemagne” de Alphonse Vétault (Tours, Ed. Alfred Mame et fils, 1876) se encontra uma Epístola ad Baugulfum abbatem Fuldens.

É uma carta do imperador Carlos Magno endereçada a esse abade de Fuldens:

Carlos, pela graça de Deus, rei dos Francos e dos Longobardos, patrício dos Romanos, em nome de Deus Todo-Poderoso, saudação.

Há frases aqui que cantam e tem uma grandiloquência que não se sabe como elogiar: “Carlos, pela graça de Deus, rei dos Francos e dos longobardos, patrício dos Romanos, em nome de Deus todo poderoso, saudação”.

Numa saudação está tudo dito.

Saiba vossa devoção a Deus, que depois de ter deliberado com nossos fiéis, estimados que os bispados e mosteiros que, pela graça de Cristo, foram colocados sob nosso governo, além da ordem da vida regular e as prática da nossa santa religião, deve, também aplicar seu zelo ao estudo das letras, e ensinar aqueles que com auxílio de Deus, possam aprendê-las, cada qual segundo sua capacidade.

Assim, enquanto a regra bem observada sustenta a honestidade dos costumes, a preocupação de aprender e de ensinar, de bem aprender e de ensinar, põe a ordem do idioma, de maneira que aquele que queiram agradar a Deus vivendo bem, não lhe negligenciaram de lhe agradar falando bem.

O pensamento, muito interessante, é este:

Pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo há, em nosso reino, muitas dioceses e abadias.

Nós queremos que essas dioceses e abadias se empenhem em ensinar a ler as pessoas que estejam em condições de aprender, com a graça de Deus.

Soror Baldonivia escrevendo. Vida de Santa Radegunda, século XII. Mediateca François Mitterrand, Poitiers
Soror Baldonivia escrevendo. Vida de Santa Radegunda, século XII.
Mediateca François Mitterrand, Poitiers

 

Porque ensinar a ler, naquele tempo, parecia uma coisa muito difícil. Eram poucos os que sabiam ler.

Então, parecia especialmente próprio pedir a graça de Deus para que alguém apren¬desse a ler.

Era um tempo muito próximo da invasão dos bárbaros, e aquele passado bárbaro próximo inspirava um certo arrepio quando se tratava de aprender a ler e escrever.

Então, ele diz: que aprendam a ler e escrever os que possam. Por quê?

Porque é conveniente que aqueles que louvam a Deus vivendo de um modo digno, também aprendam a louvar a Deus falando de um modo digno.

Os senhores vejam que linda ideia. A ideia de que a virtude traz consigo todas as espécies de boas maneiras, de boas atitudes.

E que, portanto, aquele que é virtuoso deve normalmente tender a falar bem, a se exprimir bem, a fazer bem feitas todas as coisas.

Como no Evangelho está dito de Nosso Senhor Jesus Cristo: Ele fazia bem tudo quanto Ele tinha de fazer.

Então, os senhores tem aí um princípio que é muito caro a nós, e que é muito pouco caro a um catolicismo deturpado.

E é o princípio de que a religião é empenhada próxima e diretamente em promover a salvação das almas.

São João Evangelista escreve o Apocalipse.
As Sagradas Escrituras exigiam a alfabetização maciça dos fiéis.

 

Mas que como uma espécie de corolário, ela tem empenho em favorecer toda espécie de bem, de beleza, de dignidade de vida e de esplendor de existência entre os homens.

Que isto, por sua vez, dá glória a Deus e por sua vez facilita a virtude.

Os senhores tem aí um aspecto profundamente anticatólico das teologias modernas como a da Libertação, cujo efeito normal é tender para o primarismo, para as péssimas maneiras, para a sujeira, para a ostensiva falta de compostura.

Isso não só é incompatível com a religião, mas desvia as almas da verdadeira religião.

Porque Deus sendo autor de todas as formas de ordem, umas formas de ordem se apoiam nas outras; e aqueles que sabem, por exemplo, comer dignamente, falar corretamente, postar-se decentemente tem nisso um apoio para a virtude.

Essa é a ideia fundamental que Carlos Magno exprime.

Ideia fundamental que a Igreja teve em mente durante toda a sua existência, e que na Idade Média é patente.

Toda a elevação da civilização da barbárie até o estado generalizado em que se encontrava no fim da Idade Média, se deveu a esse princípio.

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de conferência pronunciada em 6/1/73. Sem revisão do autor)
(www. gloriadaidademedia.blogspot.com)
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Interessante mostra em Versalhes despertou a admiração do público, atraído pela beleza e elevação cultural de séculos passados

Marcelo Dufaur

Paris –– A mão é de um adolescente apenas saído da infância. Delicada e régia, franzina e forte, envolvida em rendas e sedas, pérolas e pedras preciosas, esboçando um gesto discreto mas soberano, a mão de Luís XIV na idade de assumir o trono foi o símbolo escolhido pelos organizadores da exposição “Fastos de corte e cerimônias reais”, que teve lugar no palácio de Versalhes [foto ao lado].

A mostra ressaltou o espírito aristocrático na Europa dos séculos XVII e XVIII, expondo desde vestimentas para grandes ocasiões, como coroação de reis e bodas reais, até peças usadas por monarcas, nobres e ricos-homens, passando por uma variedade sutil de situações intermediárias. Mistura de vida de família e de atividade pública de governo, a vida de corte era refinada e exigente.

Eis logo na entrada as roupas usadas por Jorge III [foto à direita] da Inglaterra no dia de sua coroação em 1761, graciosamente emprestadas a Versalhes pela sua descendente, a rainha Elisabeth II. O traje é todo bordado com fios de ouro, eclipsado pela impressionante cauda em veludo vermelho e arminho. O conjunto é de uma pompa soberana, e só foi usado para a cerimônia religiosa e temporal da unção do rei, realizada na abadia de Westminster soberbamente enfeitada, repleta de nobres, autoridades e representantes dos órgãos sociais intermediários do reino. Nesses trajes, coroado e levando nas mãos o cetro e o globo, o novo rei era como um hífen entre Deus, fonte de todo poder, e o povo inglês. Nenhuma proporção com a esquálida cerimônia de posse de um presidente da República nos dias de hoje…

*    *   *

No mesmo salão foi exposta a vestimenta da rainha Sofia Madalena da Suécia, no dia da coroação, 29 de maio de 1772. Ornada de ouro e prata, as vestes da nova rainha provinham de uma reforma de modelos antigos, com forte influência espanhola.

As cores branca e prateada representavam a luz divina, a pureza, a inocência e a perfeição. No vestido da rainha sobressai uma cauda de 5 metros, presa ao corpo com botões de prata maciça [foto à direita].

Outro grande acontecimento da vida de corte eram as reuniões periódicas das Ordens de Cavalaria. Ainda hoje ocorre anualmente a da Ordem da Jarreteira, na Grã-Bretanha, em que se usam uniformes como o do rei Jorge III [foto à esquerda], porém com adaptações.

Pomposo é o uniforme da Ordem do Espírito Santo, criada pelaCasa real da França [foto à direita].

As vestes das cortes diferenciavam-se por uma sapiencial gradação, desde as que se usavam nas grandes cerimônias até às vestes para os afazeres ou despachos quotidianos. A etiqueta e o protocolo respeitavam essa variedade de circunstâncias.

Exemplos de roupa de corte para a vida diária são as de veludo verde com guarnições douradas, portadas pelo imperador russo Alexandre I, e as do mesmo imperador no tempo em que era príncipe herdeiro, em vermelho coral [foto ao lado]. Seguiam a moda da França nos tempos de Luís XVI. Também servem como exemplo as roupas de caça oferecidas por Luís XV a Cristian VII, rei da Dinamarca, em 1768.

Porém nenhuma Ordem real atingiu a categoria e o prestígio da Ordem do Tosão de Ouro [foto à direita]. Criada em 1430 por Filipe o Bom, duque de Borgonha, tinha como finalidade suprema a defesa da fé cristã.

Não só os grandes nobres participavam desse deslumbramento. Beneficiavam-se também os membros dos diversos graus da nobreza e da burguesia européia, e ainda as incipientes nobrezas americanas, como mostra a robe paréeencomendada em Paris por uma dama canadense em 1780 [foto à esquerda].

O esplendor das cortes descia para todas as classes sociais, numa cascata de beleza e dignidade que as elevava. Um exemplo comezinho disso são as librés concedidas a criados e funcionários dos palácios, como a libré da casa real francesa, em uso quatro anos antes que a Revolução Francesa, movida pelo ódio contra toda hierarquia e nobreza, a abolisse em nome da igualdade. Não menos pomposa é a dos servos da casa real da Suécia em 1751 [foto à direita].

No Ancien Régime, período em que se concentra a exposição, as cortes da Europa não apenas se inspiravam na corte francesa, mas mandavam confeccionar em Paris as melhores vestimentas, que depois ficaram guardadas como preciosas relíquias culturais. Da França, porém –– tremendamente castigada pelo ódio destruidor da Revolução Francesa, que incendiou palácios e toda espécie de bens dos reis e da nobreza em geral –– nada ficou para ser exposto, a não ser quadros nos quais aparecem as vestimentas da corte de Versalhes.

Após 1789, a feiúra republicana foi tomando conta da vida pública. A vida de família foi separada da vida oficial, e esta ficou em mãos de grupos partidários.

*    *    *

Na visita à exposição, com facilidade perde-se a noção do tempo e também da época. Aquelas vestimentas, cuidadosamente iluminadas num décor de sombras, falam de um mundo feérico, de uma imagem temporal do que pode ser a glória celeste que envolve os santos no Céu.

Com efeito, aquele prodigioso conjunto de trajes é um dos tantos frutos da civilização cristã, modelada pela Igreja. Predispõe as almas à prática das virtudes e proporciona-lhes um antegozo, que as convida a desejar a vida eterna no Paraíso Celeste.

 

Revista “Catolicismo” – outubro de 2009

http://www.catolicismo.com.br

 

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Sacre_de_Charlemagne

Coroação de Carlos Magno

 

O papel de Carlos Magno como autêntico edificador da Europa católica é ímpar, tendo ele lançado os fundamentos das nações européias mediante a fundação de um Império que veio a se tornar o Sacro Império Romano Alemão.

No ano 8OO, o Papa Leão III recebeu Carlos Magno em Roma, e o proclamou Imperador. Com o Sacro Império de Carlos Magno nasceu a Europa como unidade de civilização, a Europa católica. Seu poder, sua grandeza e sua glória eram reconhecidos além de suas fronteiras. Ele foi o árbitro supremo de toda a Europa cristã, o sustentáculo da Idade Média. Carlos Magno foi o açoite de todos os povos idólatras e o amparo dos povos tementes a Deus.

O Papa era o Senhor de Roma, e Carlos Magno seu protetor. A Cristandade tinha duas cabeças: uma espiritual, o Papa; e outra temporal, o Imperador. Este administrou seus domínios através de enviados especiais, os missi dominici (enviados do senhor), um eclesiástico e um secular para cada condado. Eles recebiam os impostos e aplicavam as decisões de arbitragem.

Nesse período imperial, verificou-se um apogeu cultural em numerosas áreas: a literatura, a música, a filosofia, a teologia, as ciências, a arte decorativa, a arquitetura e a indústria têxtil. Além disso, reinou grande pujança econômica em todos os níveis do Império carolíngio.

Carlos Magno pode ser considerado um predileto da Providência Divina, promotor dos princípios cristãos e cuja atuação constituiu um marco na História da Civilização ocidental.

Faleceu em 814, no 46º ano de seu reinado.

Revista Catolicismo – dezembro de 1996.

http://www.catolicismo.com.br

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Victor_Meirelles_-_Combate_Naval_de_Riachuelo_(2ª_versão)

BATALHA DE RIACHUELO – Victor Meireles

 

Se analisarmos as origens psicológicas e morais de nossa Pátria, vemos que, de Portugal herdamos a bondade, a valentia e um certo senso prático que não descola da realidade. Dos negros recebemos uma apetência para o colorido, o maravilhoso. Dos índios, a esperteza. O resultado: um espírito brasileiro extremamente variegado, sutil, com facilidade para fazer correlações entre as coisas e grande senso do universal.

Uma senhora paulista que conheci, de tradicional família de quatrocentos anos, exprimiu certa vez o ideal de vida dela, mas que era, no fundo, o ideal de vida do brasileiro. Dizia ela para seu filho: “A vida, meu filho, é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”.

Essa senhora não era uma filósofa, nem possuía estudos teológicos. Tinha apenas a formação católica e a cultura próprias de uma senhora de boa família de São Paulo, do fim do século passado, acrescidas de profundo senso católico. E desse entranhado senso católico aflorou algo maravilhoso, que foi a explicitação daquilo pelo qual o brasileiro reflete um aspecto de Deus: um certo tipo de bondade e benevolência, expressão, das mais elevadas, da virtude da caridade.

*    *    *

Nosso povo recebeu de Deus um território de dimensões continentais. Herdamos recursos, não só no campo agrícola, mas também de natureza mineral, praticamente inesgotáveis. Temos as maiores reservas de ferro do mundo e reservas de ouro ainda desconhecidas; somos ademais um dos maiores produtores de pedras preciosas.

Temos sobretudo qualidades de alma imensas. Dentre elas, a facilidade em admirar os valores dos outros povos, compreendê-los, e com isso ajudá-los na solução dos seus problemas.

O brasileiro é dadivoso por natureza, à semelhança de Deus, que criou o universo por pura generosidade.

O brasileiro tem, entretanto, ao lado dessa bondade, um senso de justiça muito grande. Quando essa bondade é rejeitada, quando a ordem das coisas é perturbada, primeiro ele procura afastar as dificuldades por bem. Dizem que, no Brasil, se dá um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não sair dela. Isso é muito verdadeiro, e está muito afim com a vocação de nossa Pátria. Quando a bondade não é aceita, então o brasileiro vai até o fim para extirpar o mal que provocou aquela desordem. Nós vimos isso, por exemplo, na guerra do Paraguai.

*    *    *

O que significa isso para o futuro? Significa que o Brasil, voltando às suas origens cristãs, restabelecendo a plenitude da observância da Religião Católica, restaurando a vigência da Lei Natural e, com ela, a ordem orgânica, hierárquica, monárquica e católica, poderá tornar-se –– e deverá tornar-se ––, sob o signo da Cruz, uma das maiores potências da Terra.

Potência não só do ponto de vista da riqueza e do poderio militar, mas principalmente do ponto de vista da influência e da bondade, no universo. Deve fazer brilhar, na sua plenitude, aquela bondade, aquele senso de estar juntos, olhar-se e querer-se bem, no mundo inteiro. E fazer com que todos os povos vejam no Brasil esse ideal, e o imitem, e que haja uma grande harmonia entre as nações, uma grande paz, um grande bem-estar em todo o mundo.

Tal é a vocação principal do Brasil.

Nossa índole é feita para isso. O que nos falta é retornar à Religião de nossos pais, restabelecer a moralidade, a sociedade orgânica; é fazer com que cada brasileiro e cada família, cada corporação, município, província, região, cada Estado enfim, tenha toda a plenitude de personalidade que lhe é própria, e desenvolva suas potencialidades dentro de uma sociedade orgânica.

Parece-me muito oportuno citar, a propósito das considerações acima, as palavras pronunciadas pelo grande líder e pensador católico Plinio Corrêa de Oliveira, no Congresso Eucarístico de 1942:

“A missão providencial do Brasil consiste em crescer dentro de suas próprias fronteiras, em desdobrar aqui os esplendores de uma civilização genuinamente católica, apostólica e romana, e em iluminar amorosamente todo o mundo com o facho dessa grande luz que será verdadeiramente o Lumen Christi que a Igreja irradia”.

É para isso, para obter graças para tal luta, com vistas a essa grande conquista, que eu apelo a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.

 

(Revista “Catolicismo” – dezembro/1992)

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